Com foco no funcionamento e aperfeiçoamento de instituições e organizações brasileiras, tanto públicas quanto privadas, professores e pesquisadores da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (Eaesp-FGV) agora podem contribuir com pesquisas e reflexões no Blog Gestão, política e sociedade. Convidados externos que atuam nesses campos de pesquisa também podem colaborar. Os artigos não refletem a posição institucional da Eaesp-FGV e são de responsabilidade dos autores.

Mario Monzoni

 

Está na programação da Virada Sustentável, que acontece esta semana em São Paulo, o documentário “A Lei da Água”, que fala da importância da preservação dos ecossistemas para provisão de água e como isso se relaciona com o novo Código Florestal.

O filme tem exibição no dia 31 de agosto, no Auditório do Ibirapuera, às 17h.

Abaixo o convite e aqui um trailer do filme.

Natalia Lutti


 

Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o ano de 2013 foi o sexto mais quente da história; além disso, 13 dos 14 anos mais quentes também foram registrados no século XXI. Os cientistas não têm dúvidas de que o aquecimento global é uma realidade e esse fenômeno é decorrência da atividade humana.

A cidade de São Paulo nunca havia registrado um mês tão quente na história quanto janeiro de 2014; os registros começaram a ser feitos em 1943. Em Porto Alegre, onde as medições começaram em 1916, este mês foi o mais quente entre os meses de janeiro desde que as medições começaram. Os motivos que levaram a essas altas temperaturas são diversos e a ciência ainda não consegue comprovar uma relação direta entre as mudanças climáticas e tais eventos do início de 2014. Dentro desse cenário, temos duas opções: acreditar que não temos nada a ver com o assunto e torcer para as coisas melhorarem ou utilizar o princípio da precaução. O princípio da precaução foi formulado pelos gregos e significa ter cuidado e estar ciente. Precaução relaciona-se com a associação respeitosa e funcional do homem com a natureza. Trata das ações antecipatórias para proteger a saúde das pessoas e dos ecossistemas. Precaução é um dos princípios que guia as atividades humanas e incorpora parte de outros conceitos como justiça, equidade, respeito, senso comum e prevenção.

Por conta das altas temperaturas, a utilização de aparelhos de ar condicionado disparou no país e o consumo de energia elétrica nacional também subiu. O Sistema Interligado Nacional não suportou e na última terça-feira (4 de fevereiro), ocorreu o apagão que atingiu 13 estados. Para evitar novos apagões, o governo pretende utilizar força máxima nas usinas termelétricas, aumentando ainda mais as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Além disso, como existe a preocupação de novos apagões, muitas empresas já começam a investir em geradores de energia elétrica a óleo diesel, aumentando também as emissões de GEE e a poluição local.

Ao invés de focar na origem do problema, as soluções adotadas tendem a criar um ciclo vicioso, no qual as emissões aumentam a temperatura do planeta, que provoca mais emissões por conta do aumento da queima de combustíveis fósseis, que aumenta mais a temperatura do planeta e assim por diante. Muitas pessoas me perguntam quando vamos começar a sentir os efeitos das mudanças climáticas, pois acham que se trata de um fenômeno que vai atingir nossos netos e bisnetos. As mudanças estão aí e, pelo que as últimas semanas vêm demonstrando, não estamos nos esforçando o suficiente para reverter esse quadro.

Ricardo Dinato

 

As opiniões sobre as manifestações vão brotando pela rede. Tem gente explicando para quem foi ativista na ditadura que a história aqui é outra, mas ouvi mais de uma vez na caminhada “o povo unido jamais será vencido”; tem gente dizendo que os partidos não cabem, mas as bandeiras podem ser vistas aqui e ali; tem gente dizendo que a multidão não grita muito, fica até em silêncio e tira muita foto de si mesma e perde o “real motivo” da inquietação social; tem gente dizendo que os reaças têm de sair fora da “marcha” com seus papos antivandalismo e anticorrupção …

Parecem tentativas de dar um veredito para as manifestações, de definir qual é seu escopo, seu objetivo, sua essência.

Se as manifestações do dia 17 foram a expressão corporificada da rede, seus significados não têm autor, nem definição certa. Têm mensagens sem fronteiras que pressionam pela revogação dos 0,20, pelo passe livre, pelo não à PEC 37, pelo fim da corrupção, pelo não à violência, pelo quebra-tudo, por esse ou aquele jogador na seleção … tudo ao mesmo tempo agora. Impulsos como os gritos da caminhada que irrompem e contaminam e seguem ou se perdem em questões de instantes.

O que não cessa é a rede, que se mostra corporificada e caminhando e se mostra virtual e se mostra à distância. Vai dando expressão às percepções dos grupos que também não são fixos e se articulam e rearticulam de modos imprevisíveis, unindo e distanciando perfis que não se imaginavam afins e avessos, mas mantendo o fluxo contínuo de informação e de sentidos.

Os governantes, atônitos, revelam parte das vozes atônitas da rede. As TVs, aviltadas em seus modos de fazer e emitir tentam dizer “estou junto com vocês”, “agora vou falar tudo o que vocês querem dizer”. Tanto faz … são mais um post, mais uma imagem, mais um áudio em meio à rede que respira e que não se fixa em nada especificamente ou por muito tempo, mas que assim vai modificando as conexões e sentidos da sociedade.

Quem insistir que é preciso controlar, orientar ou revogar o “déficit de atenção” estará perdendo seu tempo. A rede vai seguir diluindo política em atos que não têm discurso específico, misturando pornografia a buscas de receitas culinárias e palavras de filósofos e melhores lances da partida e imagens da repressão policial.

Quanto importa que todos que estiveram nas avenidas apinhadas de gente em São Paulo saibam que a estimativa oficial de 65 mil nem passa perto do número de manifestantes? Que as TVs não sobrevoaram a Faria Lima lotada por quilômetros de extensão, que a imprensa não mostrou os manifestantes na Rede Globo ou na Assembleia Legislativa? A rede sabe de si, mostra-se para si mesma, não precisa da anuência dos números, da oficialidade dos governos, da lógica de centralidade da mídia do século passado. Ela segue perceptiva, orgânica e tecnológica, involuntária e conectiva em todas as dimensões imagináveis – como o próprio corpo – sem núcleo, sem autorias, sem objetivos únicos.

Ela não precisa nem mesmo de pessoas conectadas ao digital. Mesmo os desconectados estão na rede e bebem dela e a alimentam sem saber. E os dispositivos tecnológicos continuam fazendo parte dela, e as cidades, e a natureza, e as pessoas, e as ideias mutantes e mutáveis … uma trama que parece só não admitir bloqueio ao fluxo e à conectividade.

Ricardo Barretto

 

Como muitos, estou preocupado com a grande questão de como definir focos e rumos para a energia mobilizada pela manifestações, sem cair no “representativismo tradicional”. Procurei umas ferramentas web para isso, e encontrei dois serviços criados para o diálogo global sobre os objetivos do desenvolvimento sustentável, super legais! Pode ser um bom instrumento para o movimento aqui no Brasil? Vejam a coisa funcionando abaixo.

Aron Belinky

 

 

No dia 25 de novembro acontecerá a eleição dos novos representantes do Conselho Consultivo do Plano de Metas da cidade de S. Paulo, instância criada pela Prefeitura de S. Paulo em 2009 para acompanhar o planejamento e a execução de políticas públicas e o cumprimento das metas estabelecidas pelo governo municipal.

Serão escolhidos dois representantes (titular e suplente) de cada uma das cinco regiões da cidade – Centro, Norte, Sul, Leste e Oeste – que representarão a sociedade civil no Conselho pelo próximos dois anos.

Para votar, o cidadão ou cidadã deve se dirigir à subprefeitura sede de sua zona eleitoral, das 8h às 17h, com o título de eleitor ou o número do título e um documento oficial com foto.

Saiba mais sobre a eleição e os candidatos aptos aqui.

Maria Piza


 

Quem acompanha as conferências da ONU sobre mudança do clima deve estar com a sensação de que essa é uma das mais mornas já realizadas nos últimos anos. A possibilidade de não se definir uma continuidade para o Protocolo de Kyoto, a baixa expectativa de decisões relevantes e o pouco debate sobre o tema na mídia, há pouco mais de um mês do 17o. encontro, dão a noção de como a coisa anda tépida.

Mas existe um elemento de novidade que distingue a Conferência de Durban das que a precederam: a COP 17 é a primeira que acontece após a onda de movimentos sociais que estão questionando as estruturas de liderança, controle e rumos políticos em diversas partes do mundo. Dos levantes no Oriente Médio, aos protestos na Europa, passando por respingos na China e na América Latina, e agora um movimento que toma força nos Estados Unidos.

De modo geral, esses movimentos afirmam não ser mais possível manter o mesmo padrão de tomada de decisão nas políticas econômicas e sociais, muitas vezes voltadas ao interesse de grupos reduzidos em detrimento da sociedade como um todo. Essa insatisfação generalizada, ainda que sobre realidades diferentes, clama por decisões políticas consistentes, focadas de fato no bem comum. Nesse sentido, teríamos um ambiente global propício para a renovação dos esforços e dos resultados da Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima. Afinal, estamos falando também aqui de governos lidando com um problema fundamental para o curso das sociedades que os sustentam e cujo histórico de decisões e sua aplicação na prática têm deixado a desejar. As evidências estão tanto no endereçamento tímido dos desafios e soluções relacionados à mudança do clima, por parte dos diferentes países, quanto na perda de legitimidade da ONU enquanto instituição que promove o entendimento para uma ação comum entre os países no combate ao maior desafio socioambiental da história recente do planeta.

Quando as manifestações sociais em diferentes parte do globo impõem às nações uma demanda por revisão de suas opções e estratégias políticas, acabam por colocar também um questionamento sobre como tem sido o posicionamento de cada um deles no contexto global. E o ambiente da COP não poderia estar de fora. Países que bloqueiam o avanço das negociações, países que boicotam medidas fundamentais para o combate às mudanças climáticas, países que se esquivam de compromissos com políticas de reestruturação do sistema produtivo para atender a lobbies específicos em detrimento da sociedade como um todo e ainda, só para citar alguns arquétipos encontrados no ambiente da COP, os países que propõem globalmente iniciativas que não correspondem a suas políticas em solo nacional.

Para o Brasil, a exemplo das outras nações, se coloca uma oportunidade de renovação da postura adotada no contexto da COP e principalmente de seu posicionamento interno. No caso brasileiro, um movimento social que pode ser tomado como termômetro do ambiente propício a uma ação governamental mais contundente e integrada no contexto das mudanças climáticas é a recente onda de protestos contra a corrupção, que parece ganhar força nas ruas. Nas manifestações contra corrupção é possível identificar como subtexto o descontentamento com ações (nesse caso, ilegais) voltadas a atender grupos específicos em detrimento do resto da sociedade e com as respostas paliativas do poder público, que não resolvem um problema crônico no Brasil.

Esse termômetro da sociedade indica o anseio por medidas de longo prazo e a adoção de políticas que redefinam os rumos do país nas mais diferentes esferas, de modo a garantir um futuro melhor para toda a sociedade. Esse é o mesmo preceito necessário a uma estratégia efetiva de combate e de adaptação à mudança do clima, capaz de reduzir a deterioração do meio ambiente em solo brasileiro e de colocar o país em rota de competitividade de sua economia frente a uma nova realidade que se desenha mundialmente nessa área, marcada pela inovação e pela redução dos impactos sobre a natureza.

Se a COP 17 e cada um dos países envolvidos no processo estiverem atentos para os sinais que a sociedade global emite nas manifestações que vêm ocorrendo nos últimos tempos, enxergarão aí uma demanda contundente por ações concretas e duradouras em prol do “nosso futuro comum” (o lema do desenvolvimento sustentável) e o ambiente inequívoco para que o combate às mudanças climáticas se torne um norte permanente à atuação política e econômica das nações.

Ricardo Barretto

 

O Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável tem como objetivo mobilizar senadores e a sociedade através de mecanismos online  -  petição e redes sociais  -  e presenciais como eventos e  abaixo  assinado – para a discordância com relação ao PLC 30/2011 aprovado pela Câmara dos Deputados.
O Comitê é formado por quase 100 organizações da sociedade civil brasileira que lutam para que o Código Florestal possa garantir efetivamente a conservação e uso sustentável das florestas em todos os biomas brasileiros, tratar de forma digna agricultores familiares e populações tradicionais, garantir a recuperação florestal das áreas ilegalmente desmatadas, reconhecer e valorizar quem promove o uso sustentável, contribuir para evitar desastres ambientais e ajudar a garantir água de boa qualidade para as cidades e acabar de vez com o desmatamento ilegal.
Através do site é possível, além das ações citadas, baixar cartazes, descobrir onde há um abaixo assinado mais próximo de você, e conhecer e compartilhar conteúdos nas e das redes sociais. Teclando a #florestafazadiferenca também é uma forma de participar.

Luiza Xavier

 

2010 e 2011 imprimem a noção de que a mudança do clima virou realidade global e cotidiana. Uma leitura do Twitter nessa segunda quinzena de janeiro traz alguns exemplos:

  • SC tem 43 cidades em situação de emergência por causa de chuvas http://bit.ly/eqA7Rs
  • SC: + d 872 mil pessoas e 21,8 mil residências foram afetadas, 21.413 pessoas desalojadas e 1.862 desabrigadas. 5 pessoas morreram
  • Já são 814 mortos e 513 desaparecidos na Região Serrana do Rio // Doe sangue, água mineral, alimentos… http://migre.me/3BBoH
  • Briefing sobre a Plataforma Global para Redução de Desastres 2011 que acontece em 27 de janeiro, em Genebra – http://tinyurl.com/635cr3o
  • Desastres naturais mataram quase 300 mil pessoas em 2010 http://ecodebate.com.br/90N
  • 2010: Um ano de calor recorde e condições de tempo fora do comum http://bit.ly/fuUT1c

Não houve continente no planeta que não tenha passado por situações climáticas extremas nos últimos meses, das nevascas no Hemisfério Norte às enchentes no Hemisfério Sul. Se a dinâmica climática é cruelmente democrática, a capacidade de resposta dos países tem sido em parte propocional às políticas públicas estabelecidas pelos diferentes governos. Caso emblemático repetido pela mídia brasileira foi a salvação de centenas de vidas na Austrália, graças a um eficiente sistema de alerta, e a perda de vidas humanas na casa do milhar no Brasil – onde não havia qualquer sistema do tipo, ainda que o fenômeno venha se repetindo ano após ano, de maneira crescente ao que parece.

walk, dont walk, por carlos sotelo

Mas não podemos acusar o governo de falta de coerência em sua política ambiental. Assistimos a uma sequência histórica de belos discursos do Brasil na esfera internacional e algumas boas iniciativas, como a adoção de metas para redução de emissões de gases do efeito estufa. No contexto interno, entretanto, a prática não acompanha os planos de intenções e sim as aspirações de crescimento econômico inadvertido, como se esse fosse um fenômeno social isolado do fator ambiental – seja na sua origem, seja nas suas consequências.

Assim como Dilma no Rio de Janeiro, Lula também se chocou e se mostrou solidário às vítimas dos temporais que arrasaram regiões inteiras de Santa Catarina em 2009. Mas nem assim surgiu na época o tal sistema de alertas ou medidas para se reforçar a cobertura vegetal de áreas de risco daquele estado ou outros igualmente vulneráveis. Pelo contrário, o governo fez vista grossa ao rolo compressor que impôs ameaça contínua ao Código Florestal brasileiro durante todo o ano de 2010 e que continua a rondar a lei que protege os biomas.

Em outras palavras, a coerência foi mantida: o discurso é uma coisa, a prática é outra. E a questão não se restringe aos fatos diretamente relacionados à mudança do clima, mas faz parte da dinâmica da política estatal brasileira que ainda entende que desenvolvimento significa privilegiar a produção em detrimento do meio ambiente. Como se fossem dissociáveis …

Exemplo disso, que também tomou o Twitter de assalto nos últimos dias – e também é uma discussão que se arrasta há um bom tempo – é a construção da hidrelética de Belo Monte: apesar de tantos pontos contra o empreendimento, o governo insiste em avançar com o projeto, passando por cima das leis ambientais que deveriam assegurar sua mínima sustentabilidade.

A queda do presidente do Ibama e do secretário-executivo do MMA dá um sinal claro de que a presidente Dilma Roussef pretende manter essa coerência que tem sido marca do governo nas políticas de desenvolvimento para o Brasil. O alerta, no entanto, está dado à presidente: a mudança do clima revela a deficiência das políticas internas, e essa deficiência irá potencializar os efeitos das mudanças climáticas no país.

Ricardo Barretto
Comunicação GVce

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