Nos últimos anos, o mundo se acostumou a receber uma notícia que vem se tornando cada vez mais frequente: vivemos o ano mais quente registrado até o momento. Foi assim em 2013, em 2014, em 2015, e tudo indica que será assim também em 2016. No mês passado, pouco depois da conclusão das negociações do Acordo de Paris na COP 21, o Met Office (escritório meteorológico do governo britânico) anunciou que o ano que começa promete superar 2015 como o mais quente desde 1880, quando iniciou os registros de temperatura. De acordo com o Met Office, a temperatura média global deve ser 1,14 grau Celsius acima dos níveis pré-Revolução Industrial, aproximando o aquecimento global dos índices observados pela ciência e pelo novo Acordo de Paris como limites para evitar efeitos mais profundos e negativos das mudanças do clima – entre 1,5 e 2 graus Celsius de aquecimento.

Efeitos desse planeta mais quente já podem ser sentidos desde o mês passado, quando começaram o inverno no Hemisfério Norte e o verão no Hemisfério Sul. Nos Estados Unidos, que vivenciaram períodos prolongados de frio intenso nos invernos de 2013-2014 e 2014-2015 devido ao vórtice polar, este começo de inverno tem sido um dos mais quentes registrados até hoje, com temperaturas bastante acima das atingidas nos anos anteriores. Na Escandinávia e nos Alpes, o inverno de 2015-2016 vem repetindo as altas temperaturas registradas nos últimos invernos, o que resulta numa cobertura de neve cada vez menor – impactando diretamente o turismo nesses países europeus, tradicionais pontos de prática de esqui e esportes na neve.

E a expectativa é de que 2016 não fique na posição recordista por muito tempo. Com a concentração de gases de efeito estufa (GEE) aumentando na atmosfera terrestre e a dificuldade de os países atingirem um ponto máximo para suas emissões num futuro mais próximo, a tendência é que esses índices continuem crescendo na próxima década. Ou seja, provavelmente continuaremos ouvindo essa notícia nos próximos anos.

Para piorar, além do aquecimento global em si (resultado da concentração crescente de GEE na atmosfera terrestre), 2016 também enfrentará os efeitos do fenômeno meteorológico El Niño, que promete ser o mais forte desde 1998 e afetar o clima em todo o planeta. No último post de 2015, falamos um pouco sobre os impactos do El Niño no clima e a necessidade do mundo reagir na contenção de seus efeitos negativos, principalmente no que diz respeito à segurança alimentar humana.

Tudo isso coloca os governos e as sociedades em uma situação crítica em um momento crucial: nos próximos anos, o mundo precisará avançar nas bases para a implementação do Acordo de Paris – que, por ora, traz mais boas intenções do que ações concretas. Espera-se que essa “notícia repetida” nos próximos anos mobilize os países em torno de mais ambição e mais ação para conter as emissões globais de GEE e preparar o mundo para suportar o impacto das mudanças climáticas já irreversíveis.

Bruno Toledo

 

Da Etiópia a Papua Nova Guiné. Do Malawi a Honduras. Do Haiti ao Sudeste Asiático. Lugares tão distantes entre si no mapa-mundi, mas que sofrerão intensamente com os efeitos do El Niño na temporada 2015-2016, que promete ser a mais impactante neste século. Mais de 50 milhões de pessoas em todo o planeta poderão ser afetadas com desabastecimento de água e de comida nos próximos meses, causando um verdadeiro desastre humanitário em regiões já bastante debilitadas, como é o caso do chamado “Chifre da África”, entre o Oceano Índico e o Mar Vermelho.

Segundo a agência humanitária Oxfam, os impactos do El Niño – fenômeno decorrente do aquecimento da superfície do Oceano Pacífico, que altera padrões climáticos em todo o planeta – devem ser potencializados com o aumento persistente da temperatura média do planeta nos últimos anos. Um dos temores da organização é que a falta de coordenação internacional para ajuda humanitária possa repetir o cenário desastroso visto na Somália entre 2011 e 2012, quando uma grande seca causou a morte de mais de 250 mil pessoas.

“Ainda temos a oportunidade para mitigar os piores efeitos do El Niño, se formos capazes de responder rapidamente”, reforça a Oxfam em  briefing paper lançado nesta semana. “Os custos humanos de uma resposta tardia à insegurança alimentar são inaceitáveis. Da mesma forma que temos sofrimento, perdas e dificuldades de curto prazo, existem também consequências de longo prazo, que afetam o crescimento de crianças, com impactos particularmente negativos para meninas e mulheres”.

Cerca de 2,3 milhões de pessoas na América Central, especialmente agricultores de subsistência e suas famílias, precisarão de ajuda alimentar por causa das perdas persistentes na lavoura causadas pela seca. Na Etiópia, mais de 10 milhões de pessoas poderão ser afetadas com a seca, repetindo o trauma vivido pelo país nos anos 1980, quando a fome matou milhões de pessoas. E no Sudeste Asiático, secas e incêndios florestais deverão se intensificar nos próximos meses.

No Brasil, a intensidade do El Niño sobre o regime de chuvas foi forte já em 2015. Por exemplo, o excesso de chuvas no Sul do país resultou em prejuízos de 10% na produção de arroz na região. No Norte e Centro-Oeste, o nível de precipitação já caiu, afetando a produção de grãos em Estados como Mato Grosso e Goiás, além de intensificar a seca no Nordeste.

Bruno Toledo

 

Pôr-do-sol nas dunas em Abu Dhabi (Creative Commons)

No livro “Não Verás País Nenhum”, publicado em 1981, o escritor Ignácio de Loyola Brandão retrata um futuro quase apocalíptico para o Brasil. Tomado pela catástrofe ambiental, o país não tem mais sua esplendorosa Floresta Amazônica, transformada em deserto; as metrópoles sofrem com a falta de árvores e com o calor intenso; não há comida, água ou moradia para todos, sendo que os grupos mais inferiores e pobres sobrevivem do lixo acumulado nos arredores dessas cidades.

Um aspecto interessante desse livro – considerando que ele foi escrito há mais de 30 anos, quando mudanças climáticas e aquecimento global ainda eram temas insipientes na agenda global – é a forma como Ignácio traz as cidades sofrendo com o calor insuportável: na São Paulo “futurista” (relevando o fato de que a história se passa em 2003, que já faz parte do passado para nós em 2015), as pessoas não conseguiriam andar na rua sem algum tipo de proteção contra o sol, como sombrinhas e marquises. É simplesmente insuportável viver ao ar livre, sem árvores nem água para aliviar o calor inclemente que torra o asfalto na selva de pedra.

Isso me veio à mente quando li uma matéria recente no Guardian sobre os efeitos das mudanças climáticas em uma das regiões mais inóspitas e difíceis de estabelecer assentamentos humanos: o Golfo Pérsico. De acordo com estudo conduzido por dois pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT), essa região deverá sofrer com o calor intenso nas próximas décadas, superando os limites que permitem a vida humana.

O estudo aponta que ondas de calor extremo, que já ocorrem com mais frequência nos últimos anos, deverão se intensificar, ao ponto que, em 2070, os dias mais quentes de hoje podem se tornar o dia-a-dia do futuro. Muitas localidades do Golfo Pérsico, como Abu Dhabi, Dubai e Doha, além da costa iraniana, poderão ter o clima similar ao clima atual do deserto de Afar, no lado africano do Mar Vermelho, um dos lugares mais quentes do mundo, onde não existe assentamento humano permanente.

Ironicamente, os países do Golfo Pérsico, em particular a Arábia Saudita, entre os grandes exportadores mundiais de petróleo, frequentemente atuam para bloquear as negociações internacionais sobre mudanças climáticas. Alguns deles, como os sauditas e o Catar, sequer entregaram suas contribuições pretendidas para redução de emissões para o novo acordo climático internacional, que será finalizado em dezembro na cidade de Paris.

A Caaba e a Mesquita de al-Haram durante o começo do Hajj, cerimônia fundamental do islamismo em Meca (foto: Al Jazeera English/Flickr/Creative Commons)

No livro de Loyola Brandão, o Brasil futurista seria governado por uma estrutura ditatorial chamada de “Esquema”, que impõe regras bastante rígidas à vida dos brasileiros no meio da catástrofe ambiental. Coincidentemente, muitos desses países do Golfo são ditaduras ou possuem regimes políticos claramente autoritários. São também países com desigualdades sociais gigantescas, ampliadas cada vez mais pelos rendimentos do petróleo direcionados para pouquíssimas pessoas. Obviamente, quem sofrerá mais com os efeitos desse superaquecimento serão as comunidades mais pobres, que já vivem em situação delicada. Mesmo cerimônias religiosas importantes para o islamismo, como a peregrinação à Meca, seriam praticamente inviabilizadas, já que o calor intenso dificultaria qualquer tipo de movimento à luz do sol.

O caminho para evitar esse cenário apocalíptico continua sendo o mesmo: reduzir as emissões de gases do efeito estufa (GEE) em todo o mundo, de forma efetiva e contínua, nas próximas décadas, de maneira a conter o aumento da temperatura média global em até 2ºC neste século.

Para tanto, o desafio dos países pérsicos não é pequeno: esse caminho de ação climática significa reduzir de forma ambiciosa o uso de combustíveis fósseis, o que atinge em cheio as economias nacionais da região, altamente dependentes dos rendimentos do petróleo local. Para esses países, a transição para uma economia de baixo carbono é uma revolução absoluta de suas economias. O medo disso tudo explica em grande parte a reticência desses países em torno do debate sobre clima, mas talvez eles venham a confrontar um medo muito maior, que os forçará a repensar a necessidade dessa transição: a inviabilidade da vida humana futura em seus territórios.

Bruno Toledo

 

Primeira presidente mulher da Irlanda, entre 1990 e 1997, e chefe do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU até 2002, Mary Robinson reconhece nesta palestra do TED que chegou tarde para a questão das mudanças climáticas.

O “estalo”, diz ela, aconteceu quando começou a trabalhar em países africanos e assistir na prática a seus efeitos sobre os habitantes daquele continente. A experiência deixou claro para Mary Robinson a desigualdade que permeia o desafio climático no mundo.

Enquanto os países ricos, principais causadores da crise, têm plenas condições para resistir aos piores impactos das mudanças climáticas, os países pobres são as principais vítimas e não possuem recursos nem resiliência para suportar as consequências de desastres climáticos. Essa desigualdade é capital para entender as mudanças climáticas como uma grande ameaça aos direitos humanos em todo o mundo.

Assista abaixo à apresentação de Mary Robinson no TED (em inglês).

Fabio Storino e Bruno Toledo

 

Se o mundo deseja evitar danos irreversíveis ao planeta, todos os governos precisam concordar com um plano claro, justo e ambicioso nas negociações climáticas na Conferência de Paris, a COP 21. Esta é a conclusão da Assembleia Parlamentar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em resolução aprovada na segunda passada, que soma sua voz a de outros órgãos e atores relevantes no cenário internacional em prol da definição de um novo regime climático internacional com metas de redução efetiva para todos os países.

Na resolução, representantes parlamentares dos países da OTAN reconheceram as mudanças climáticas como uma ameaça significativa à segurança internacional, algo que já está sendo sentido hoje. Os riscos associados às mudanças do clima representam uma “ameaça multiplicadora”, na medida em que temperaturas crescentes e alterações nos padrões de precipitação tendem a acentuar competição por estoques de comida e água, a modificar padrões de migração e a criar novos perigos à saúde humana. Além disso, o perigo climático também pode exacerbar conflitos violentos, como observado na Síria a partir de 2011.

O documento também conclama a seus estados-membros que promovam mais discussão e reflexão sobre o tema, examinando como isso poderá afetar sua própria segurança.

Nos últimos anos, forças militares de países como Estados Unidos e Reino Unido vêm apontando as mudanças climáticas como um perigo grave à segurança global e à prosperidade econômica de todos os países. O que destaca o anúncio recente da OTAN é o apelo por um acordo claro, justo e ambicioso em Paris no final deste ano: este é um chamado importante para que os governos do mundo assumam compromissos efetivos na COP 21, que consigam manter o aumento da temperatura global entre 1,5ºC e 2ºC acima dos níveis pré-industriais até 2100. Na semana que vem, os negociadores da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (UNFCCC, sigla em inglês) se reunirão em Bonn (Alemanha) pela última vez antes da COP 21 para finalizar a proposta final de acordo internacional sobre clima, para ser concluído e assinado em Paris.

Bruno Toledo

 

No final de novembro, negociadores de todo o mundo se encontrarão em Paris para finalizar um novo acordo climático internacional, que deverá trazer compromissos de redução de emissões por parte de todos os países. Além do desafio climático, os governos também se preparam para começar a tirar do papel os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), oficializados pela ONU no mês passado.

Para acadêmicos em todo o mundo, o sucesso desses esforços depende diretamente de um engajamento efetivo dos governos em prol de ações firmes contra as mudanças climáticas e a favor do desenvolvimento sustentável. Por isso, mais de 700 professores e pesquisadores assinaram uma carta aberta no final de setembro, pedindo aos governos do mundo uma participação construtiva na Conferência de Paris, que permita a negociação de um acordo que possa ser efetivo na redução das emissões de gases de efeito estufa. A carta está aberta para assinatura de outros professores, pesquisadores e mestrandos/doutorandos.

A carta serviu como um pontapé inicial para a mobilização em torno da Semana Global das Mudanças Climáticas, que acontecerá entre 19 e 25 de outubro, com atividades de conscientização e engajamento de estudantes em universidades de todo o mundo. A Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP) também fará parte desta mobilização, com a realização de palestras, exposições fotográficas, exibição de filmes e rodas de conversa sobre mudanças climáticas e a importância da Conferência de Paris.

Gisela Chulman

 

Músicos no French Quarter, em Nova Orleans, em 1989 (foto: Brenda Anderson/Flickr)

O “berço do jazz”. A “rainha do Mississippi”. A cidade perdida no tempo, perdida em seu próprio tempo – “the city that care forgot”. Nova Orleans nunca foi uma cidade comum: com sua história peculiar, palco do encontro de diferentes culturas (franceses, espanhóis, norte-americanos, negros africanos, além de nativos), Nova Orleans sempre teve um ritmo diferente de qualquer outra cidade – uma receita que juntava uma sensação incomum de abandono, rebeldia, liberdade criativa e fervura cultural e racial. Não é à toa que ela reúne o maior número de músicos per capital nos Estados Unidos!

Há dez anos, Nova Orleans vivia um longo ostracismo. Submersa num fatalismo bastante característico, a cidade parecia caminhar para algum tipo de conclusão. Depois da luta racial que tomou conta da cidade nos anos 1950 e 1960, a maioria negra de Nova Orleans sentia-se desiludida com os resultados dessa luta histórica. A pobreza ainda era a marca da cidade, junto com as construções históricas erguidas pelos colonizadores franceses no século XVIII no hoje célebre French Quarter.

O fatalismo de Nova Orleans tem causa histórica. Em 1722, apenas quatro anos após sua fundação por exploradores franceses, a cidade foi devastada por um furacão, que destruiu praticamente todas as construções existentes. A Nova Orleans do French Quarter foi construída sobre as ruínas dessa antiga cidade, e carrega consigo as marcas desse desastre. Diques foram erguidos para conter a água do mar em tormentas, de forma a preservar as regiões mais baixas de Nova Orleans, ocupadas no decorrer do século XX para alimentar sua expansão urbana. Essas áreas foram sendo ocupadas por comunidades negras, que representam a maioria da população de Nova Orleans (em torno de 60%, o maior índice dentre as grandes cidades dos EUA).

No entanto, a manutenção desse sistema de proteção era bastante precária, e o poder público estadual e federal ignorava repetidos alertas sobre a vulnerabilidade de Nova Orleans em situações climáticas extremas, como furacões. Na véspera daquele final de agosto de 2005, a cidade parecia abandonada a sua própria desventura.

Aí, veio o Katrina.

Vista aérea da região central de Nova Orleans em 1º de setembro de 2005, com destaque para o Superdome (foto: US Navy/Wikimedia)

Três informações nos dão uma noção mais clara do estrago causado pela passagem do Katrina em Nova Orleans. Primeiro, o prejuízo de US$ 108 bilhões (valores de 2005), que permanece sendo um recorde mesmo após outros desastres naturais da mesma dimensão, como a passagem do furacão Sandy na costa leste nos EUA em 2012. Segundo, o fato de que, em 31 de agosto, cerca de 80% da cidade estava debaixo d’água (em alguns locais, a água subiu mais de 4 metros), com exceção de zonas urbanas localizadas em áreas mais altas (entre elas, a do French Quarter), construídas num plano mais elevado. E, finalmente, o fato de Nova Orleans ter perdido sua condição histórica de cidade mais populosa da Louisiana, posição que não foi recuperada até hoje.

Refugiados de Nova Orleans concentrados no Louisiana Superdome em 03 de setembro de 2005 (foto: tiger_in_houston/Flickr)

Obviamente, é ilusório pensar que o estrago foi causado pelo Katrina em si: se olharmos atentamente para a sequência de eventos e decisões tomadas, podemos ver a tragédia de Nova Orleans como o “pior desastre de engenharia do mundo desde Chernobyl”, como disse Raymond B. Seed, professor da University of California Berkeley à época do Katrina. Boa parte dos danos decorrentes da passagem do furacão na costa da Louisiana poderia ter sido evitada se as autoridades locais, estaduais e federais tivessem tomado decisões corretas e no tempo adequado. Infelizmente, nenhuma dessas autoridades estava preparada para lidar com isso: o impacto do Katrina em si foi potencializado de forma brutal com o despreparo das forças públicas em todos os níveis; num momento em que os EUA tinham tropas ativas em dois países do Oriente Médio, com toda logística e infraestrutura preparada para apoiá-las naquela distante região, as forças armadas do país não tinham condições logísticas de levar garrafas de água potável para um estádio de futebol abarrotado de desabrigados dentro do seu próprio território.

O Katrina fez emergir preocupações sobre a resiliência de grandes cidades para enfrentar desastres associados a eventos climáticos extremos, um perigo que pode tornar-se mais frequente com o avanço das mudanças climáticas. Mais do que ter uma infraestrutura resiliente em si, o caso de Nova Orleans deixou claro a necessidade de uma articulação coerente e efetiva entre os atores públicos e privados tanto na preparação quanto na resposta imediata ao desastre. Na era das mudanças climáticas, o custo da desarticulação, do despreparo e da inação pode ser grande demais, como o foi em Nova Orleans.

Membros de força tarefa de resgate em operação de busca e resgate em Nova Orleans (foto: Jocelyn Augustino/FEMA/Flickr)

Dez anos depois da passagem do Katrina, Nova Orleans ainda é uma cidade em reconstrução. Alimentada com bilhões de dólares destinados para os esforços de recuperação da cidade, Nova Orleans tornou-se um laboratório para experiências de inovação urbanística. Novos habitantes chegaram para auxiliar no esforço, trazendo um espírito diferente de empreendedorismo social em Nova Orleans. O fatalismo tão característico daquela cidade deu lugar para esperança: mais aberta e mais viva, pela primeira vez em muito tempo, Nova Orleans tem a oportunidade de construir um futuro melhor para si mesma. No entanto, as feridas abertas pelo vento do Katrina persistem.

Milhares de desabrigados do Katrina continuam distantes de Nova Orleans, em particular os mais pobres. Entre 2005 e 2015, a cidade perdeu quase 110 mil habitantes. As clivagens raciais são marcantes nesse cenário pós-Katrina: a população negra de Nova Orleans diminuiu consideravelmente, ainda que se mantenha majoritária na composição demográfica da cidade. Antigos bairros pobres, ocupados por comunidades negras, deram espaço para empreendimentos imobiliários ocupados em sua maioria por brancos de renda mais elevada. O custo de vida aumentou consideravelmente na região, penalizando bastante os mais pobres. Assim, no caso de Nova Orleans, um efeito colateral nítido da tragédia e dos esforços posteriores de reconstrução é a gentrificação da cidade.

Dez anos depois dos ventos do Katrina atingirem Nova Orleans, a cidade ainda luta para recuperar e manter o espírito rebelde e criativo que a fez célebre, ao mesmo tempo em que tenta se afastar do fatalismo que sempre carregou sobre si mesma.

Bruno Toledo

 

Efeitos das mudanças climáticas na pequena nação insular de Kiribati (foto: UN Photo/Eslinder Debebe)

Em 2013, UNESCO, Fundação Avina e cinco universidades da América Latina fundaram uma rede com o objetivo de debater e atuar articuladamente para a aproximação entre conhecimento científico sobre mudanças climáticas e processos de tomada de decisão no âmbito de políticas públicas e privadas. Desde então foram promovidos dois simpósios regionais, o segundo, do qual participei, aconteceu nos dias 19 e 20 de agosto de 2015, em Montevidéu.

O evento uniu representantes de governos nacionais e subnacionais de Chile, Uruguai, Paraguai e Argentina, organizações internacionais, como CDKN e CEPAL, instituições de pesquisa de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Peru, Uruguai e América Central e algumas poucas empresas. A Escola de Direito da FGV e o GVces estavam lá.

Alinhado ao objetivo da rede, o Simpósio promoveu reflexões e debate sobre:

  • integração entre ciência, política e sociedade; e
  • caminhos para a articulação das disciplinas, necessária à compreensão da realidade e inserção da agenda de mudanças climáticas nas instituições e seus processos.

Partindo de desafios compartilhados na região, questões para reflexão comuns aos países e organizações foram propostas pelos palestrantes e mediadores. Não foram encontradas respostas contundentes, mas compartilhadas lições aprendidas, conclusões de pesquisas e apontados possíveis caminhos.

Entre os desafios regionais, destacam-se:

  • estabelecer uma relação de apoio das comunidades científicas aos governos;
  • que o conhecimento acadêmico tenha sentido para e seja capilar na sociedade, empresas e governos;
  • a preparação do sistema científico e instituições acadêmicas para a interdisciplinaridade na produção de conhecimento e na extensão;
  • superação da noção geral e individualista de que o que cada organização faz é a peça mais importante do quebra-cabeça;
  • a dedicação à efetiva criação de conhecimento junto a outros atores, como comunidades e empresas, que por vezes são entendidas apenas como fontes de informações, para consulta; e
  • sistematização de casos em que mitigação e adaptação tenham sido integradas à agenda de desenvolvimento na América Latina.

As questões provocadoras mais interessantes foram:

  • quem financia a pesquisa científica na região e quais os interesses imbricados?
  • busca-se excelência no ensino e pesquisa, mas o que é “excelência”, que indicadores deveriam estar sendo monitorados?
  • as instituições possuem espaços efetivos para que o conhecimento flua? Que espaços são ou como poderiam ser?

O norte adotado em diversas falas, pano de fundo para os desafios, questões e caminhos apontados é a construção de um modelo de desenvolvimento em que as agendas ambiental e social sejam tão relevantes e tenham tanto peso quanto a econômica. Por isso provocações giraram em torno e desembocaram em como influenciar a tomada de decisão nas instâncias governamentais que respondem pela agenda de desenvolvimento.

Um dos painéis foi elucidativo ao enfrentar diretamente essa questão e trouxe quatro barreiras, que os palestrantes enxergam como mais importantes, para a inserção das mudanças climáticas nos critérios e processos de tomada de decisão relacionada à agenda de desenvolvimento:

  • falta de transversalidade horizontal e vertical entre os níveis e instâncias governamentais;
  • decisões de curto prazo (tempo dos mandatos) versus os horizontes mais longos das mudanças climáticas;
  • assimetria de poder entre as áreas e agendas de governo; e
  • falta de sistemas de monitoramento das políticas públicas.

Os desenhos organizacionais que vêm se desenhando na região logram responder a uma parcela dessas barreiras, dependendo do contexto político-institucional:

  • Comissões ou unidades de coordenação interministerial – congregam diferentes agendas e visões, mas tendem a replicar a assimetria de poder.
  • Escritórios de mudanças climáticas em diferentes ministérios – a experiência mostra baixa capacidade de influência.
  • Funções de coordenação em organismos de planejamento – pouco efetivo na integração e construção de agenda interdisciplinar.
  • Organismos relativamente autônomos de poder político, desvinculados dos ciclos de mandato e, portanto, capazes de liderar projetos de longo prazo (ex.: Dirección General de Irrigación de Mendonza) – dificuldade em conectar os projetos e programas a outros liderado por ministérios e agências nacionais.
  • Alocação do tema na presidência (ex.: PPCDAM coordenado pela Casa Civil no Brasil) – dependência em relação ao líder político no cargo.
  • Alocação em ministérios-chave (ex.: Política Energética 2050 do Uruguai) – risco da agenda mudanças climáticas ser “fagocitada” pelas outras.

Dessa forma, não haveria (ainda) uma configuração institucional que solucione todos os desafios, mas sim relações de trade-offs estabelecidas entre os arranjos mapeados. Combinado a qualquer um deles, devem ser estruturados sistemas de monitoramento e avaliação de políticas, projetos e metas. Como suporte a esse processo, faltam estudos que mapeiem os sistemas e indicadores em utilização.

Menos palpáveis, os caminhos para o alcance da interdisciplinaridade (ou ainda, na fala mais ambiciosa de alguns, a transdisciplinar idade) e as mudanças climáticas como agenda transversal a todas as pastas, áreas e tomadas de decisão passam necessariamente pela formação dos atuais e futuros líderes. A revisão do modelo de educação, especialmente em nível superior, já que se trata de uma rede de universidades, parece ser uma medida fundamental, mas ainda complexa demais para que se saiba por onde começar. Inevitável lembrar aqui da eletiva Formação Integrada para Sustentabilidade – FIS, uma das inovadoras e corajosas empreitadas do GVces que enfrentam questões estruturais como essa, do modelo educacional.

Mariana Nicolletti

 

 

Depois de meses de espera, finalmente o Vaticano divulgou hoje a primeira encíclica do papa Francisco, Laudato Si’, na qual o sumo pontífice católico aborda a crise ambiental e as relações entre homem, espiritualidade e natureza. Como é repetido diversas vezes no texto papal, “tudo está conectado” – as ações humanas sobre a natureza, a degradação dos recursos naturais e as mudanças do clima, e a necessidade de um esforço comum da humanidade para recuperar sua própria “casa”.

Na encíclica, Francisco vai além da simples constatação da realidade dramática do meio ambiente: a encíclica se desenvolve a partir de uma interpretação própria sobre a relação entre Deus, a humanidade e o meio ambiente, enveredando em questões políticas mais espinhosas (como a lentidão das negociações internacionais, a dificuldade de se abandonar os combustíveis fósseis, e até mesmo o modelo atual de licenciamento ambiental), e avançando mesmo em temas ainda radicais em alguns círculos não-religiosos, como o conceito de decrescimento.

Nas últimas semanas, existia uma expectativa muito grande sobre o conteúdo da primeira encíclica integralmente escrita por Francisco em seu papado (a primeira encíclica publicada por Francisco, Lumen fidei, publicada em 2013, foi escrita em grande parte pelo seu antecessor, o papa emérito Bento XVI). Faltando menos de seis meses para a decisiva Conferência do Clima de Paris, a COP 21, as lideranças políticas globais ainda não demonstraram o engajamento necessário para que tenhamos um acordo climático efetivo na luta contra as mudanças do clima. A entrada do papa Francisco no rol dos “champions” dessa luta é um fato importante, pois coloca a maior igreja cristã do planeta no esforço global para preservar o meio ambiente e, mais especificamente, reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

Na semana passada, o Observatório do Clima publicou um vídeo hilário sobre a encíclica climática de Francisco, produzido pela OurVoices (EUA). Esse vídeo rodou o mundo e fez bastante sucesso, chamando a atenção das pessoas para o texto que Francisco divulgaria nesta semana. Caso você ainda não o tenha visto, confira o vídeo abaixo:

Confira também uma análise detalhada da encíclica Laudato Si’ feita pelo OC.

Bruno Toledo

 

Com a conclusão dos trabalhos dos negociadores em mais uma rodada de discussão política em Bonn, na quinta passada, chegamos à reta final de um dos processos de negociação mais importantes e problemáticos dos últimos anos no âmbito das Nações Unidas. Faltam menos de seis meses para a abertura da decisiva Conferência do Clima de Paris, a COP 21, na qual os governos de 192 países deverão assinar um novo acordo climático global.

Nunca estivemos tão perto desse novo regime global para enfrentar as mudanças do clima. Ao mesmo tempo, na medida em que os entendimentos necessários não acontecem, também nunca estivemos tão distantes de um resultado final claro, robusto e eficiente. Faltando menos de um semestre para o martelo final em Paris, a sensação que se tem é que todas as definições necessárias para o acordo estão ficando para o último momento: a estrutura do acordo, os compromissos e a diferenciação das responsabilidades de cada país, o financiamento de esforços de mitigação e adaptação no mundo em desenvolvimento… Esses não são pontos triviais: são questões que atravancam as negociações internacionais em clima desde sempre, e, até o momento, não conseguimos chegar perto de entendimentos claros sobre elas.

Nas últimas duas semanas, os negociadores presentes em Bonn tinham como tarefa escrutinar detalhadamente o texto-base construído na última sessão de conversas, em fevereiro passado. Esse texto nada mais era do que uma sistematização de todas as opções possíveis de acordo, contemplando todos os interesses envolvidos na negociação – até por isso, o documento em si era um jumbo de 90 páginas, incongruente e incoerente. Mesmo depois de dez dias de discussões, os negociadores conseguiram rever apenas cinco páginas. Isso mesmo: pouco mais de 5% em dez dias!

Para que a situação não se tornasse irreversivelmente negativa, os negociadores concordaram em delegar aos co-presidentes do grupo de trabalho da Plataforma de Durban (ADP), que negocia os termos do futuro acordo no âmbito da UNFCCC, a tarefa de organizar uma revisão aprofundada do texto, a partir de consultas com diferentes coalizões negociadoras.

A promessa dos co-presidentes é apresentar uma proposta de texto no final de julho, de forma a facilitar as conversas nas próximas rodadas de negociação (em agosto e outubro). Laurent Fabius (foto ao lado), ministro do exterior francês e futuro presidente da COP 21, continua com a expectativa de concluir um texto final em outubro, dois meses antes da abertura da Conferência de Paris.  Mas o tempo, nesse caso, é ilusório: nesses seis meses, os negociadores terão apenas dez dias dedicados a essa tarefa de construção do texto final, o que aperta bastante a agenda de negociação até Paris.

A vagarosidade não é exatamente algo surpreendente nessa agenda de negociação – afinal, o que estamos discutindo hoje deveria ter sido finalizado, “num mundo perfeito”, há seis anos, quando os principais chefes de governo do mundo se reuniram para pagar um mico “tamanho-gorilha” na Conferência do Clima de Copenhague, a malfadada COP 15. Por ora, os principais negociadores, observadores e analistas preferem enxergar o cenário com uma dose cavalar de cautela. Sim, o avanço em Bonn foi risível, mas nos bastidores as impressões continuam mais otimistas. O anúncio do G7 sobre a concordância das maiores potências econômicas globais sobre a descarbonização da economia mundial ainda neste século, feito no domingo passado, foi bastante celebrado e teve ressonância nas conversas em Bonn. Mas nada concreto foi anunciado: metas, compromissos, iniciativas unilaterais… Apenas boas intenções.

Na verdade, até o momento, temos pouca coisa definida – e, do pouco definido, muita coisa pode ser insuficiente para termos um acordo consistente em Paris. O único avanço efetivo em Bonn foi a concordância dos negociadores em incluir REDD+, o mecanismo de redução de emissões por desmatamento, no futuro acordo.

“Não há nada de novo quanto ao conteúdo, nem sobre o formato leal. Ficou de fora da agenda [de Bonn] compromissos de países desenvolvidos. Os EUA, por exemplo, afirmam que estão dispostos a contribuir, mas não expressam compromissos reais”, argumentou Mark Lutes, do WWF Brasil, ao Observatório do Clima.

A falta de novidades é bastante incômoda, faltando apenas seis meses para a COP 21. Poucos países apresentaram à UNFCCC suas contribuições nacionalmente determinadas (INDCs, sigla em inglês), que são documentos nos quais os governos expressam suas possibilidades de ação e meta de redução para o futuro acordo. Desse pouco apresentado (que inclui países e grupos importantes, como Estados Unidos, Japão e União Europeia), estima-se que as pretensões expressas por estes países nas INDCs sejam insuficientes para estabelecer uma trajetória de redução das emissões que impeça o aumento da temperatura média global neste século acima dos 2°C. O Brasil é um dos países que ainda não submeteu sua INDC, que ainda está em processo de construção dentro do governo. A expectativa é de que as metas e contribuições brasileiras sejam apresentadas apenas no limite do deadline definido pela UNFCCC – outubro.

Em suma, faltando seis meses para a Conferência de Paris, precisamos superar barreiras e interesses divergentes que nos atrapalham há seis anos, se quisermos chegar a um acordo efetivo. Precisamos que os países assumam uma postura construtiva e proativa, que dê confiança a negociadores e observadores de que tudo será feito para se chegar a um resultado final concreto. Ao final deste ano, chegaremos à conclusão de mais um capítulo da luta da humanidade contra as mudanças climáticas: que essa conclusão nos dê as condições necessárias para escrever os próximos capítulos num tom mais otimista.

Bruno Toledo (fotos: IISD)

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