Se o mundo deseja evitar danos irreversíveis ao planeta, todos os governos precisam concordar com um plano claro, justo e ambicioso nas negociações climáticas na Conferência de Paris, a COP 21. Esta é a conclusão da Assembleia Parlamentar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em resolução aprovada na segunda passada, que soma sua voz a de outros órgãos e atores relevantes no cenário internacional em prol da definição de um novo regime climático internacional com metas de redução efetiva para todos os países.

Na resolução, representantes parlamentares dos países da OTAN reconheceram as mudanças climáticas como uma ameaça significativa à segurança internacional, algo que já está sendo sentido hoje. Os riscos associados às mudanças do clima representam uma “ameaça multiplicadora”, na medida em que temperaturas crescentes e alterações nos padrões de precipitação tendem a acentuar competição por estoques de comida e água, a modificar padrões de migração e a criar novos perigos à saúde humana. Além disso, o perigo climático também pode exacerbar conflitos violentos, como observado na Síria a partir de 2011.

O documento também conclama a seus estados-membros que promovam mais discussão e reflexão sobre o tema, examinando como isso poderá afetar sua própria segurança.

Nos últimos anos, forças militares de países como Estados Unidos e Reino Unido vêm apontando as mudanças climáticas como um perigo grave à segurança global e à prosperidade econômica de todos os países. O que destaca o anúncio recente da OTAN é o apelo por um acordo claro, justo e ambicioso em Paris no final deste ano: este é um chamado importante para que os governos do mundo assumam compromissos efetivos na COP 21, que consigam manter o aumento da temperatura global entre 1,5ºC e 2ºC acima dos níveis pré-industriais até 2100. Na semana que vem, os negociadores da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (UNFCCC, sigla em inglês) se reunirão em Bonn (Alemanha) pela última vez antes da COP 21 para finalizar a proposta final de acordo internacional sobre clima, para ser concluído e assinado em Paris.

Bruno Toledo

 

Músicos no French Quarter, em Nova Orleans, em 1989 (foto: Brenda Anderson/Flickr)

O “berço do jazz”. A “rainha do Mississippi”. A cidade perdida no tempo, perdida em seu próprio tempo – “the city that care forgot”. Nova Orleans nunca foi uma cidade comum: com sua história peculiar, palco do encontro de diferentes culturas (franceses, espanhóis, norte-americanos, negros africanos, além de nativos), Nova Orleans sempre teve um ritmo diferente de qualquer outra cidade – uma receita que juntava uma sensação incomum de abandono, rebeldia, liberdade criativa e fervura cultural e racial. Não é à toa que ela reúne o maior número de músicos per capital nos Estados Unidos!

Há dez anos, Nova Orleans vivia um longo ostracismo. Submersa num fatalismo bastante característico, a cidade parecia caminhar para algum tipo de conclusão. Depois da luta racial que tomou conta da cidade nos anos 1950 e 1960, a maioria negra de Nova Orleans sentia-se desiludida com os resultados dessa luta histórica. A pobreza ainda era a marca da cidade, junto com as construções históricas erguidas pelos colonizadores franceses no século XVIII no hoje célebre French Quarter.

O fatalismo de Nova Orleans tem causa histórica. Em 1722, apenas quatro anos após sua fundação por exploradores franceses, a cidade foi devastada por um furacão, que destruiu praticamente todas as construções existentes. A Nova Orleans do French Quarter foi construída sobre as ruínas dessa antiga cidade, e carrega consigo as marcas desse desastre. Diques foram erguidos para conter a água do mar em tormentas, de forma a preservar as regiões mais baixas de Nova Orleans, ocupadas no decorrer do século XX para alimentar sua expansão urbana. Essas áreas foram sendo ocupadas por comunidades negras, que representam a maioria da população de Nova Orleans (em torno de 60%, o maior índice dentre as grandes cidades dos EUA).

No entanto, a manutenção desse sistema de proteção era bastante precária, e o poder público estadual e federal ignorava repetidos alertas sobre a vulnerabilidade de Nova Orleans em situações climáticas extremas, como furacões. Na véspera daquele final de agosto de 2005, a cidade parecia abandonada a sua própria desventura.

Aí, veio o Katrina.

Vista aérea da região central de Nova Orleans em 1º de setembro de 2005, com destaque para o Superdome (foto: US Navy/Wikimedia)

Três informações nos dão uma noção mais clara do estrago causado pela passagem do Katrina em Nova Orleans. Primeiro, o prejuízo de US$ 108 bilhões (valores de 2005), que permanece sendo um recorde mesmo após outros desastres naturais da mesma dimensão, como a passagem do furacão Sandy na costa leste nos EUA em 2012. Segundo, o fato de que, em 31 de agosto, cerca de 80% da cidade estava debaixo d’água (em alguns locais, a água subiu mais de 4 metros), com exceção de zonas urbanas localizadas em áreas mais altas (entre elas, a do French Quarter), construídas num plano mais elevado. E, finalmente, o fato de Nova Orleans ter perdido sua condição histórica de cidade mais populosa da Louisiana, posição que não foi recuperada até hoje.

Refugiados de Nova Orleans concentrados no Louisiana Superdome em 03 de setembro de 2005 (foto: tiger_in_houston/Flickr)

Obviamente, é ilusório pensar que o estrago foi causado pelo Katrina em si: se olharmos atentamente para a sequência de eventos e decisões tomadas, podemos ver a tragédia de Nova Orleans como o “pior desastre de engenharia do mundo desde Chernobyl”, como disse Raymond B. Seed, professor da University of California Berkeley à época do Katrina. Boa parte dos danos decorrentes da passagem do furacão na costa da Louisiana poderia ter sido evitada se as autoridades locais, estaduais e federais tivessem tomado decisões corretas e no tempo adequado. Infelizmente, nenhuma dessas autoridades estava preparada para lidar com isso: o impacto do Katrina em si foi potencializado de forma brutal com o despreparo das forças públicas em todos os níveis; num momento em que os EUA tinham tropas ativas em dois países do Oriente Médio, com toda logística e infraestrutura preparada para apoiá-las naquela distante região, as forças armadas do país não tinham condições logísticas de levar garrafas de água potável para um estádio de futebol abarrotado de desabrigados dentro do seu próprio território.

O Katrina fez emergir preocupações sobre a resiliência de grandes cidades para enfrentar desastres associados a eventos climáticos extremos, um perigo que pode tornar-se mais frequente com o avanço das mudanças climáticas. Mais do que ter uma infraestrutura resiliente em si, o caso de Nova Orleans deixou claro a necessidade de uma articulação coerente e efetiva entre os atores públicos e privados tanto na preparação quanto na resposta imediata ao desastre. Na era das mudanças climáticas, o custo da desarticulação, do despreparo e da inação pode ser grande demais, como o foi em Nova Orleans.

Membros de força tarefa de resgate em operação de busca e resgate em Nova Orleans (foto: Jocelyn Augustino/FEMA/Flickr)

Dez anos depois da passagem do Katrina, Nova Orleans ainda é uma cidade em reconstrução. Alimentada com bilhões de dólares destinados para os esforços de recuperação da cidade, Nova Orleans tornou-se um laboratório para experiências de inovação urbanística. Novos habitantes chegaram para auxiliar no esforço, trazendo um espírito diferente de empreendedorismo social em Nova Orleans. O fatalismo tão característico daquela cidade deu lugar para esperança: mais aberta e mais viva, pela primeira vez em muito tempo, Nova Orleans tem a oportunidade de construir um futuro melhor para si mesma. No entanto, as feridas abertas pelo vento do Katrina persistem.

Milhares de desabrigados do Katrina continuam distantes de Nova Orleans, em particular os mais pobres. Entre 2005 e 2015, a cidade perdeu quase 110 mil habitantes. As clivagens raciais são marcantes nesse cenário pós-Katrina: a população negra de Nova Orleans diminuiu consideravelmente, ainda que se mantenha majoritária na composição demográfica da cidade. Antigos bairros pobres, ocupados por comunidades negras, deram espaço para empreendimentos imobiliários ocupados em sua maioria por brancos de renda mais elevada. O custo de vida aumentou consideravelmente na região, penalizando bastante os mais pobres. Assim, no caso de Nova Orleans, um efeito colateral nítido da tragédia e dos esforços posteriores de reconstrução é a gentrificação da cidade.

Dez anos depois dos ventos do Katrina atingirem Nova Orleans, a cidade ainda luta para recuperar e manter o espírito rebelde e criativo que a fez célebre, ao mesmo tempo em que tenta se afastar do fatalismo que sempre carregou sobre si mesma.

Bruno Toledo

 

Entre os meses de abril e maio o coordenador do Programa Política e Economia Ambiental do GVces, Guarany Osório, participou do Programa de Liderança para Visitantes Internacionais patrocinado pelo Governo dos Estados Unidos da América.

O tema do Programa foi Climate Change Adaptation and Infrastructure Planning com duração de três semanas e contou com a participação de três profissionais, todos do Brasil.

O Programa, dentre seus objetivos específicos, buscou cobrir os seguintes tópicos:

- Estratégias de adaptação nos níveis federal, estadual e local;

- Melhores práticas em planejamento;

- Diferentes arranjos institucionais para lidar com Adaptação;

- Programas e tecnologias para prever e mitigar enchentes urbanas, elevação do nível do mar e secas prolongadas;

- Parcerias público-privado no tema mudanças climáticas;

- Programas de recuperação desenvolvidos após desastres naturais.

O programa foi iniciado em Washington DC, passando pelos estados de Minnesota, Colorado, Califórnia e Florida com uma programação intensa com governo federal, governos estaduais e locais, terceiro setor, empresas e universidades.

O programa foi uma oportunidade para compreender melhor a diversidade de ideias, diferentes soluções desenvolvidas e desafios existentes para o fortalecimento da resiliência do país face às mudanças climáticas. Ao mesmo tempo em aprendemos nas interações com diferentes instituições e iniciativas, também foi possível contar um pouco das experiências do GVces e de iniciativas brasileiras relacionas aos temas.

A seguir uma série de highlights sobre o Programa:

Reunião com o time de clima do Departamento de Estado norte-americano, em Washington DC. Equipe mantendo o otimismo para a Conferência do Clima de Paris, a COP21, que acontece em dezembro.

Este é o Minnesota Interagency Climate Adaptation Team (ICAT), um grupo de representantes de diferentes instituições estaduais comprometido com trabalhar de forma colaborativa e coordenar esforços para adaptação climática no Estado de Minnesota.

Esta é a vista da sala de reunião do National Center for Atmospheric Research (NCAR), em Boulder, Colorado. Eles estão desenvolvendo uma base de dados global sobre mudanças climáticas de domínio público, além de ferramentas para planejamento em conjunto com vários atores.

Este é o Staples Center, casa dos Los Angeles Lakers e do Clippers, espaço que une esporte e sustentabilidade, com o uso de energia solar, captação de água da chuva, tratamento e redução de resíduos, além de eficiência no uso de energia e água.

Finalmente, na Florida, participei de um painel de discussão com governos locais, acadêmicos e outros membros da delegação brasileira sobre o Plano de Ação do Sudeste da Florida sobre mudança do clima. Eles estão “replanejando” a infraestrutura das cidades costeiras – já que o mar segue invadindo partes da região e as projeções da FEMA indicam potencial elevação do nível do mar para as próximas décadas.

 

“O pó dos caminhos subia e espraiava-se, cobrindo-lhes as orlas e cobrindo mesmo boa parte dos campos de cultura. (…) Pouco a pouco, o céu escurecia sob as nuvens de poeira e os ventos mais e mais mergulhavam nos caminhos e se elevavam com novos carregamentos de poeira. (…) O céu ficava cada vez mais escuro e, oculto sob sua capa cinzenta, o sol parecia um disco sangrento, e havia um cheiro acre no ar. (…) Homens e mulheres permaneciam aborrecidos e inquietos em suas casas, e tapavam o nariz com lenços quando tinham que sair, e punham óculos contra poeira para proteger os olhos. (…) A poeira misturava-se ao ar, como se formassem um só corpo; era uma emulsão de ar e de poeira”.

Na introdução do clássico “As Vinhas da Ira”, John Steinbeck nos relata – com detalhes obsessivos – como nuvens de poeira varreram comunidades inteiras do Meio-Oeste norte-americano nos anos 1930, durante o chamado Dust Bowl, talvez o maior desastre ambiental da história dos Estados Unidos. O nome em si foi cunhado há exatos 80 anos, em 14 de abril de 1935 (o Black Sunday, domingo negro), quando uma única tempestade de poeira conseguiu transformar um dia com céu límpido e sol brilhante numa escuridão mais sombria que a própria noite. Os relatos sobre esse dia na imprensa e os testemunhos de quem viu a tempestade eram como se tivessem saídos de um pesadelo – e para aqueles que viviam isso na pele, o Dust Bowl era um pesadelo sem fim.

Uma das cenas mais características da época do Dust Bowl: densas e gigantescas nuvens de poeira, que chegavam a bloquear a luz do sol por horas durante o dia. Esta imagem foi tirada em 17 de abril de 1935, na cidade de Stratford, Texas (NOAA George E. Marsh Album)

As tempestades de poeira que afligiram as Grandes Planícies do Meio-Oeste causaram a maior migração da história do país num curto espaço de tempo: entre 1930 e 1940, quase 3,5 milhões de pessoas abandonaram (por opção ou forçadas por dívidas bancárias) suas terras (localizadas principalmente nos estados de Oklahoma e Texas) em direção à costa leste norte-americana.

O baque econômico causado pelo Dust Bowl não foi pequeno: a região afetada pelas tempestades de poeira era considerada um dos principais celeiros agrícolas do país, particularmente de trigo. No contexto da Grande Depressão, que já castigava os Estados Unidos desde 1929, o Dust Bowl foi fatal para muitos agricultores e suas famílias, incapazes de arcar com os custos econômicos de perdas sucessivas de safra e de gado – é nesse contexto que Steinbeck escreveu a saga de Tom Joad e sua família, expulsos de suas terras arruinadas em Oklahoma e forçados a migrar para a Califórnia, em meio às dificuldades causadas pela crise econômica.

As causas do Dust Bowl foram eminentemente humanas. Inicialmente, as Grandes Planícies eram territórios relativamente secos, cobertas por um capim característico que segurava o solo e dominadas por búfalos. Por isso, nos primeiros estágios da ocupação norte-americana na região, poucos se aventuraram em se assentar nessas áreas. Em 1862, através do Homestead Act, o governo federal começou a incentivar a ocupação desses territórios, demarcando propriedades de até 65 hectares por preços relativamente baixos. Com a chegada das estradas de ferro transcontinentais, os assentamentos agrícolas começaram a se proliferar nessa região. Mesmo com a agricultura se provando bastante complicada, por causa das características do solo e do clima, o governo continuou incentivando a chegada de mais colonos, oferecendo lotes maiores de terra por preços ainda mais baixos. Um dos slogans do governo e dos corretores fundiários era que a chuva seguia o arado (“the rain follows the plow”), ou seja, quanto mais plantação tivesse, mais chuva cairia.

Agricultores trabalhando na colheita de trigo no Colorado (foto de Arthur Rothstein, 1939)

Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com os distúrbios que tomaram conta da Rússia revolucionária (até então a maior produtora mundial de trigo), a região das Grandes Planícies tornou-se uma das principais produtoras de trigo do mundo. As plantações aumentavam na mesma medida em que os preços internacionais do trigo subiam. A mecanização da agricultura começava a virar uma realidade, empurrando a produtividade sempre para níveis superiores. A sorte também foi importante nessa expansão: na década de 1920, a região passou por um período prolongado atipicamente chuvoso, o que garantiu safras cada vez maiores e incentivou a expansão dos cultivos nas safras seguintes. Tudo isso financiado de forma fácil pelos bancos, em meio ao frenesi econômico característico daquela época. A “receita” da agricultura era a mesma da indústria pré-1929: produzir mais para obter mais renda, e sempre assim.

No final das contas, praticamente toda a extensão antes coberta por capim nativo acabou convertendo-se em monoculturas tradicionais. Consequentemente, o solo antes preso ao chão pelo capim acabou se soltando, o que não foi exatamente um problema até o começo dos anos 1930, quando a região começou a viver um período prolongado de seca.

Junto com a seca, veio a Grande Depressão. A queda nos preços internacionais do trigo começou a afetar mais diretamente a partir de 1931, quando a desvalorização chegou a quase 70% em apenas um ano. Mesmo com a queda brutal nos preços, os agricultores das Grandes Planícies continuaram apostando em mais produção e mais terreno cultivado. Não demorou muito para a bolha estourar.

Uma das imagens mais famosas relacionadas ao Dust Bowl, tirada por Arthur Rothstein em abril de 1936 no condado de Cimaroon, em Oklahoma

Com o tempo seco, principalmente a partir de 1934, o solo começou a levantar do chão, carregado pelas fortes correntes de ar, características da região. Assim, formaram-se nuvens gigantescas de poeira, que enterravam tudo o que estava na sua frente: plantações, gado, casas, cidades. Era praticamente impossível escapar da poeira: quando as tempestades de vento chegavam, as pessoas tinham que correr para suas casas, sob o risco de ficarem sufocadas pela densa poeira. Dentro das casas, as famílias tentavam selar todas as aberturas externas, como portas e janelas, mas partículas finas de poeira entravam facilmente pelo vão entre as tábuas de madeira utilizadas nas construções.

A penumbra daquele domingo de abril de 1935 chamou a atenção dos grandes jornais impressos dos Estados Unidos para o desastre no Meio-Oeste. Naquela época, o governo Roosevelt já discutia possíveis ações junto com o Congresso para aliviar os impactos do Dust Bowl e reverter o processo de erosão da terra naquela região, mas as conversas se arrastavam fazia meses. A própria natureza se encarregou de mostrar aos congressistas a urgência do problema: correntes de ar levaram algumas nuvens de poeira do Meio-Oeste para a Costa Leste dos EUA. Para quem estava em Washington, a centenas de quilômetros da região crítica, bastava abrir a janela e olhar para o céu empoeirado para perceber que a situação começava a fugir do controle.

O resultado disso tudo foi a aprovação do Soil Conservation Act, o ato de conservação do solo, pelo Congresso dos EUA em 27 de abril, semanas depois do Black Sunday. Essa iniciativa, acompanhada por outras ações menores, foi a base para a resposta governamental ao desastre ambiental do Dust Bowl. Nos anos seguintes, o governo comprou terras e estabeleceu unidades de conservação, implementando medidas de recuperação do solo e da vegetação nativa. Consequentemente, a degradação do solo diminuiu bastante: em 1935, quase 80% do território das Grandes Planícies sofriam com erosão do solo; quatro anos depois, essa porção tinha caído para 1/5 da área afetada.

Para as famílias que sofriam com as tempestades de poeira, o alívio era pequeno. Endividadas, sem produção e com os preços do trigo baixíssimos, milhares de pessoas perderam o único pedaço de chão que possuíam. Expulsas de suas antigas propriedades pelos mesmos bancos que financiaram o frenesi produtivo da década anterior, essas pessoas não tinham outra opção senão ir embora – muitas vezes, para sempre.

Cena de "As Vinhas da Ira", de John Ford (1940)

Uma das cenas mais marcantes da versão cinematográfica de “As Vinhas da Ira”, dirigida por John Ford e estrelada por Peter Fonda em 1940, é a passagem da família Joad por um acampamento de trânsito para “refugiados” do Dust Bowl, o primeiro da jornada deles até a Califórnia: a miséria crua, a precariedade das instalações, as condições indignas de vida – tudo isso no seio da maior economia do planeta, depois de uma década vibrante de crescimento “sem fim” (aliás, cenas desse trecho do filme chegaram a ser usadas/manipuladas pela propaganda da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra para mostrar a miséria da sociedade norte-americana).

O destino final nem sempre era melhor. Em muitas cidades norte-americanas, os deslocados do Dust Bowl acabaram engrossando as Hoovervilles – favelas que recebiam esse nome como uma “homenagem” ao presidente Herbert Hoover (1929-1933), considerado por muitos na época como o principal culpado pelo desastre econômico.

Uma das imagens mais marcantes do século XX: "Migrant Mother", tirada por Dorothea Lange em 1936. Seu nome era Florence Owens Thompson (1903-1983).

Para quem ficava – porque não tinha para onde ir e/ou não tinha perdido sua terra – o que sobrava era persistência: esperar até o tempo melhorar e viver com o que tinha. A recuperação foi lenta, com direito a mais uma temporada de tempestades de poeira na década de 1950, numa intensidade muito menor que a dos anos 1930. Mas os reflexos daquela época persistem até hoje: as cicatrizes continuam marcando aqueles que ficaram e aqueles que tiveram que ir embora. E, principalmente, a principal lição daquele episódio é frequentemente esquecida: vivemos em um mundo com limites; os recursos são finitos, a capacidade produtiva é finita, e os impactos de se empurrar demais esses limites podem ser pesados demais para se arcar – em tempos de discussão sobre clima e água, essa valiosa lição precisa ser retomada e reforçada em todo o mundo.

As imagens hoje icônicas de Dorothea Lange e Arthur Rothstein são um retrato fiel do desastre ambiental e de seus efeitos sociais: miséria, desolação, e poeira. As promessas do crescimento sem fim, enterradas na poeira.

Bruno Toledo

 

Com porte grave, James Inhofe tomou a palavra em sessão no Senado norte-americano no último dia 26 disposto a contestar da forma mais efetiva possível a ideia de que o planeta Terra esteja vivendo algum tipo de “aquecimento”. No meio de seu discurso, para um plenário relativamente vazio, Inhofe repentinamente desembala uma bola de neve e a levanta, mostrando-a para seus colegas. A constatação: como podemos estar no meio de um processo de aquecimento global, com as temperaturas médias globais subindo radicalmente nas últimas décadas, se está frio pra c… lá fora! Afinal, pelo segundo ano consecutivo, o norte dos EUA e o Canadá vivem invernos com recordes de temperaturas baixas. No ano passado, essa região ficou praticamente congelada por causa do chamado vértice polar. Ainda assim, para incômodo de Inhofe e de seus parceiros negacionistas, as agências científicas do governo norte-americano (NOAA e NASA) apontaram o ano de 2014 como o mais quente já registrado no país. Como isso é possível? Com bola de neve e tudo?

Essa tem sido uma luta particularmente difícil para o veterano senador republicano pelo estado de Oklahoma: nem mesmo a maior parte dos simpatizantes de seu partido concorda com sua posição. Pesquisa recente publicada pelo jornal The New York Times aponta que quase metade das pessoas que se identificam como republicanas apoiaria candidatos de seu partido que defendessem ações contra as mudanças climáticas. No público geral, 67% dos entrevistados estariam menos inclinados a votar em um candidato caso ele não acreditasse nas mudanças do clima. Os números, ainda que comparativamente pequenos, principalmente se olharmos para pesquisas desse tipo na Europa, mostram o quanto o público norte-americano aumentou seu grau de preocupação com esse problema desde o início do século. Na mídia e nas redes sociais, a batalha de Inhofe e sua “bola de neve” foi perdida: a cena do senador jogando uma bola de neve no plenário de senado transformou-se num meme constrangedor, alvo de críticas ácidas da direita e da esquerda norte-americana.

Para alívio de Inhofe e seus aliados, nesta legislatura o senador ganhou um palanque especial para contestar o que ele chama de “farsa” das mudanças do clima: a presidência do Comitê de Trabalhos Públicos e Meio Ambiente do Senado. Num ano particularmente importante para o processo político de negociação internacional no tema e num momento crucial anterior à disputa presidencial norte-americana em 2016, a presença de Inhofe numa posição de destaque no Senado é mais uma peça na estratégia republicana para desmontar as ações climáticas tomadas pelo governo Barack Obama nos últimos anos. Driblando a oposição republicana no Congresso, Obama tem editado decretos executivos para fazer valer seu objetivo de colocar os EUA num caminho mais racional no combate ao aquecimento do planeta – bem distante da inação política característica do mandato de seu antecessor, o republicano George W. Bush (2001-2009). Para os republicanos, derrubar essas medidas no Congresso imporia mais uma grande derrota ao presidente na véspera de uma disputa presidencial, com grande possibilidade de esse revés contaminar as chances políticas do/a futuro/a candidato/a democrata à Presidência no próximo ano.

Poucos lugares nesse mundo apresentam uma partidarização tão profunda da questão climática como os EUA. O debate político sobre o tema cultiva aquele tipo de radicalização tão comum nos chamados “grandes temas sociais”, como o uso de drogas, o direito ao aborto, e casamento civil de pessoas do mesmo sexo: ou você apoia ou você não apoia – ou seja, se você apoia, provavelmente você tende a se alinhar os democratas; se você não apoia, possivelmente você tenha mais apreço pelos republicanos. Inserido nessa disputa entre conservadores republicanos e liberais democratas (uma simplificação da realidade política de cada partido e das dezenas de outros partidos sem representação política no país), o problema climático tornou-se menos uma questão de constatação científica e mais uma questão de opinião política.

Como no resto do mundo, a principal variável na equação política do clima nos EUA é a economia. Para o governo Obama, os EUA não podem mais se isentar de sua responsabilidade pelo problema climático; mais do que simplesmente cortar emissões, o atual presidente norte-americano defende uma abordagem mais positiva do desafio climático, olhando-o como uma oportunidade para modernizar a economia do país e torná-la mais competitiva no pós-crise financeira. De acordo com o presidente, o governo deve trabalhar na transição para uma economia preparada para trabalhar com menos emissões de gases do efeito estufa, olhando para o que já está sendo feito na Europa e na China. Para a oposição republicana, essas políticas endereçam um problema que eles não concordam que existe e machucam gravemente a economia norte-americana, ao restringir o uso de fontes baratas e tradicionais de produção energética (leia-se carvão e petróleo).

O capítulo mais recente nessa seara foi a aprovação pelo Congresso da construção do oleoduto Keystone XL – quase 1.900 km de dutos para transportar petróleo da província canadense de Alberta para o estado norte-americano de Nebraska, num volume que chegaria a 830 mil barris de óleo por dia. Para os republicanos, a construção desse novo trecho da Keystone diminuiria a dependência de petróleo vindo do Oriente Médio, aumentaria a oferta desse produto (o que reduziria os preços no país) e geraria 42 mil vagas de trabalho durante os dois anos de implantação. Para os democratas, junto com ambientalistas, esse trecho de oleoduto poderia impactar gravemente o meio ambiente em regiões sensíveis previstas no traçado do projeto, em especial no estado de Montana, além de ir contra a proposta do atual governo em diminuir o uso de combustível fóssil por parte da indústria norte-americana.

Em fevereiro passado, aproveitando a nova maioria republicana no Senado, o Congresso aprovou sua construção. Pouco depois, Obama rejeitou a proposta aprovada pelos congressistas, afirmando que a decisão sobre essa questão deve ser tomada pelo poder executivo. Sem votos para derrubar o veto presidencial, os republicanos continuam defendendo a proposta e aguardam os próximos passos do governo Obama ou mesmo a eleição do próximo governo. A “vitória” dos grupos ambientalistas ainda é provisória: a atual administração não rejeita a possibilidade de aprovar a construção da Keystone XL, mas exige que alterações sejam feitas no projeto de construção. Essa aprovação pode vir a ser feita pelo próprio presidente Obama ou pelo seu sucessor.

No caso norte-americano, uma variável que complica ainda mais o debate político sobre clima é a crença religiosa. Para alguns conservadores cristãos, que compõem o famoso Tea Party, a narrativa da responsabilidade humana sobre as alterações recentes do clima replica a “arrogância” liberal de achar que os homens podem mais que Deus. Nesse ponto, a principal crítica vai para a ciência como um todo. O raciocínio que contesta a ciência por trás dos estudos sobre clima é similar àquele que rejeita o ensino da teoria da evolução natural das espécies nas escolas ou mesmo o movimento recente contra vacinação infantil: a ciência, arrogante em seu próprio conhecimento, é incapaz de explicar o que, para esses setores, tem uma resposta “transcendental”. Assim, as mudanças do clima são eventos naturais, nos quais a humanidade não tem responsabilidade alguma (leia-se vontade divina), ou elas são simples factoide, não passam de uma “farsa” propagada para atingir os Estados Unidos.

Em muitas análises da discussão política sobre clima nos Estados Unidos, frequentemente essa variável sociocultural é desconsiderada como um obstáculo efetivo para a ação política no país. De acordo com esse raciocínio, as variáveis econômicas são muito mais importantes para definir qual será o caminho tomado pelos EUA; se a ação climática se explicar em termos econômicos, ela se viabilizará. Concordo com isso, mas considero perigoso ignorar o potencial danoso que uma abordagem anticientífica pode ter sobre o processo decisório da maior potência do planeta – que possui regras eleitorais sui generis que permitem que um candidato com menos votos gerais, dependendo da distribuição de seus votos nos estados, consiga assegurar a presidência do país. A possível eleição de um negacionista iria derrubar todas as medidas tomadas e os avanços realizados pelo governo Obama em clima com apenas uma assinatura presidencial. Isso traria consequências sinistras para os Estados Unidos e para as discussões internacionais em clima, que já sofreram danos em outros momentos por causa da reticência de quem ocupava a Casa Branca.

Aos poucos, os republicanos começam a tentar a reconciliação com a ciência climática. Graças em boa medida à influência de grandes lideranças empresariais e de alguns líderes políticos do partido alinhados com o tema, como o ex-governador e astro de Hollywood Arnold Schwarzenegger, setores mais realistas do partido começam a defender algum grau de ação política para conter as mudanças do clima. Entretanto, olhando para as lideranças congressistas e estaduais do partido, o caminho para uma compreensão mais clara da relevância das mudanças climáticas será longo para os republicanos. Que a bola de neve da ignorância climática não esmague os eleitores norte-americanos em 2016!

Bruno Toledo

 

A Revista Educação fez uma seleção especial de 10 filmes inspiradores para refletir sobre educação – o papel do professor, do aluno e do sistema educacional. Confira abaixo a lista e saiba mais sobre os filmes aqui.

1. “Quando sinto que já sei” (2014, Brasil), de Antonio Salgado, Raul Perez e Anderson Lima

Custeado por meio de financiamento coletivo, o filme registra práticas inovadoras na educação brasileira.

2. “A Educação Proibida” (2012, Argentina), de German Doin e Verónica Guzzo

Gravado em oito países da América Latina, o documentário problematiza a escola moderna e apresenta alternativas educacionais desenvolvidas na região.

3. “Pro dia nascer feliz” (2006, Brasil), de João Jardim

O filme mostra o cotidiano permeado de desigualdade e violência de jovens de quatro escolar públicas brasileiras.

4. “Além da sala de aula” (2011, EUA), de Jeff Bleckner

Baseado em fatos reais, o filma narra a trajetória e os desafios enfrentados por uma professora recém-formada em uma escola temporária para sem tetos.

5. “Sementes do nosso quintal” (2012, Brasil), de Fernanda Heinz Figueiredo

A infância é o tema central do documentário, que foca no cotidiano da Te-Arte, uma escola infantil inovadora que foca no estímulo da criatividade infantil, e na trajetória da idealizadora Thereza Soares Pagani.

6. “Quando tudo começa” (1999, França), de Bertrand Tavernier

Em meio à miséria e à indiferença do governo francês, um professor de uma escola pública se envolve com as situações vividas pelas famílias das crianças e protesta contra as políticas sociais do país.

7. “Paulo Freire – Contemporâneo” (2006, Brasil), de Toni Venturi

Entrevistas com familiares, pedagogos e o próprio Paulo Freire apresentam o pensamento e a atemporalidade do método de alfabetização do educador.

8. “Tarja Branca” (2014, Brasil), de Cacau Rhoden

Tratado com serenidade, o direito de brincar é o tema desse documentário, que aborda o conceito de “espírito lúdico” e convida para a reflexão do desenvolvimento do homem adulto.

9. “Entre os muros da escola” (2008, França), de Laurent Cantet

Uma sala de aula na periferia de Paris simboliza o choque cultural presente na França contemporânea. O longa é baseado em livro homônimo de François Bégaudeau, protagonista da narrativa.

10. “Mitã” (2013, Brasil), de Lia Mattos e Alexandre Basso

Educação, espiritualidade, tradição e cultura da criança se misturam na narrativa, inspirada pelos pensamentos de Fernando Pessoa, Agostinho da Silva e Lydia Hortélio.

Maria Piza

 

Na última segunda, o governo Barack Obama divulgou as novas regulações para as usinas energéticas dos EUA, voltadas para a redução das emissões de gases de efeito estufa em um setor particularmente sensível no país (o setor energético representa mais de 40% das emissões norte-americanas).

As novas regras apresentadas pela Agência de Proteção Ambiental (EPA, sigla em inglês) do governo norte-americano definem uma ambiciosa meta de redução das emissões no setor energético: 30% de redução até 2030, com base nas emissões de 2005.

Mais de 1.600 usinas já existentes serão afetadas pela nova regulação climática. Dentre elas, 600 são usinas carvoeiras, e algumas estão em funcionamento há mais de 50 anos.

De acordo com a própria EPA, o setor energético já reduziu suas emissões em 13% desde 2005, em parte graças ao maior uso de gás natural no lugar do carvão. No entanto, reduções substanciais das emissões exigirão investimentos em tecnologia limpa nos próximos anos.

A iniciativa do governo Obama, inédita na história norte-americana no tema de clima, somente foi possível por causa do uso de ações executivas no âmbito da EPA, o que livrou a Casa Branca de ter que passar as novas regras pelo crivo do Congresso norte-americano – que historicamente rejeita compromissos e políticas federais em clima. Porém, a reação da oposição republicana na Câmara, aonde possui a maioria das cadeiras, já se mostrou pesada horas depois do anúncio. Lideranças do partido deverão entrar com recursos de inconstitucionalidade junto à Suprema Corte do país, tentando reverter a aplicação das novas regras.

Algumas empresas do setor energético também se posicionaram criticamente ao anúncio da nova regulação pelo governo Obama. O Conselho de Coordenação para Segurança Elétrica, que reúne representantes empresariais do setor, apontam que a paralisação das usinas carvoeiras mais antigas gerará um custo entre US$ 13 bi a US$ 15 bi, que poderá refletir em tarifas sensivelmente mais caras para o consumidor final.

Mas outras empresas se manifestaram positivamente com relação às novas regras climáticas para o setor elétrico. Em uma carta enviada ao presidente Obama, 170 companhias – entre elas, gigantes como Adidas, Nike, Patagonia, Symantec e Unilever – elogiaram a meta de redução das emissões definida pelo governo.

Para a secretária-executiva da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, sigla em inglês), Christiana Figueres, o anúncio do governo Obama é um sinal positivo para o processo de negociação do novo acordo climático internacional. “A decisão do presidente Obama enviará um sinal positivo para outras nações, mostrando que os grandes emissores estão agindo”. A União Europeia também se manifestou, elogiando a iniciativa da Casa Branca.

Organizações da sociedade civil também saudaram as novas regras. “Trata-se da medida mais ambiciosa já feita pelos EUA com relação às mudanças climáticas”, aponta Andrew Steer, presidente da World Resources Institute (WRI). “O novo limite de emissões do país mostra ao mundo o quão séria é a crise climática”.

Consulte aqui o plano apresentado pela EPA no último dia 02/6.

Bruno Toledo, com informações do Portal Instituto CarbonoBrasil

 

Protestos pró-acordo com União Europeia em Kiev, em novembro passado (Foto: Mstyslav Chernov/Wikimedia Commons)

A coluna de ontem do Sergio Abranches no Ecopolítica trouxe uma análise sobre a crise político-institucional na Ucrânia a partir de uma variável muito importante nas estratégias políticas dos atores em cena: a dependência energética dos países europeus com relação ao gás natural russo. A Rússia é responsável pelo abastecimento de ¼ do consumo europeu de gás natural, sendo que boa parte desse gás chega ao continente através de gasodutos que passam pelo território ucraniano. Além disso, como Abranches aponta em sua coluna, a maior economia da Europa, a Alemanha, depende especialmente do gás russo para suprir suas necessidades energéticas e para apoiar a moratória nuclear que o governo Merkel decretou depois do acidente nuclear de Fukushima.

A dependência europeia já foi maior: em 2009, devido a uma crise entre a Gazprom (estatal russa) e autoridades ucranianas, boa parte do Leste Europeu acabou ficando desabastecida durante o auge do inverno, causando a paralisação de fábricas e afetando o fornecimento para calefação. Desde então, muitos países do bloco definiram metas para diminuir essa dependência e garantir maior segurança energética – muitos desses projetos, no entanto, focam seus investimentos em fontes fósseis, como é o caso polonês, bastante criticado durante a última Conferência do Clima (COP19), em Varsóvia. Mesmo assim, o gás russo ainda continua sendo uma opção relativamente barata para os europeus (isso sem considerar as relações promíscuas entre Gazprom e diversas empresas energéticas europeias, berço de inúmeros casos de corrupção em países como Grécia, Hungria, Itália e, obviamente, Ucrânia).

Mapa com os gasodutos que atravessam a Ucrânia (Fonte: BBC News)

Essa dependência tem sido um elemento fundamental na orientação do bloco europeu no contexto da crise ucraniana: diferentemente dos Estados Unidos, que vêm criticando abertamente a intervenção russa na Crimeia, a União Europeia tem se contido bastante nos pronunciamentos e no seu posicionamento nas conversas em Bruxelas e Paris.

Soldados não-identificados na capital da Crimeia, Sinferopol, março de 2014 (Foto: E. Arrott/Voice of America)

O governo russo sabe da importância dessa “carta” no pôquer ucraniano: em dezembro passado, Moscou já tinha oferecido anistia às dívidas ucranianas à Gazprom e uma nova diminuição nas tarifas do gás para a Ucrânia como uma contrapartida pela recusa em continuar as negociações para aderir à UE. Porém, com a queda do governo de Viktor Yanukovich, ex-presidente aliado de Vladimir Putin, a Rússia endureceu com as novas autoridades de Kiev: a Gazprom anunciou hoje que cortará o fornecimento de gás para a Ucrânia caso o país não pague as suas dívidas de quase 1,9 bilhão de dólares.

Na Europa, a crise ucraniana resultou numa disparada considerável do preço do gás no mercado, e muitos países temem que possíveis efeitos das tensões entre Ucrânia e Rússia possam afetar novamente o abastecimento de gás para o continente. Os Estados Unidos também estão pensando nessa possibilidade e já desenham possíveis alternativas para atender o mercado europeu no caso de desabastecimento (o que também serviria como um apoio para Washington pressionar os europeus em torno de sanções e medidas mais duras contra a Rússia).

Em suma, esta é uma leitura interessante para entender um dos aspectos mais importantes da crise atual na Ucrânia/Crimeia/Rússia e mostra como a “política internacional” ainda está na era da diplomacia do carbono.

Atualização: A revista norte-americana Mother Jones publicou um artigo interessante de James West, do Climate Desk, que aborda os efeitos da crise na Ucrânia sobre a indústria energética na Europa e nos Estados Unidos. Esse texto dialoga bem com a coluna do Sergio Abranches.

Bruno Toledo

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