Criança trabalhando em Bangladesh (foto: Shanjoy/Wikimedia)

Roupas, alimentos, eletrônicos, matéria-prima básica… Não importa o tipo de produto que você consome: provavelmente você não tem muitas informações sobre a cadeia produtiva que te possibilita consumir determinado produto. Que tipo de empresa o faz? Quantas pessoas estão envolvidas na produção? Quais são as condições de trabalho dessas pessoas?

Num mundo globalizado como o nosso, em que tudo o que consumimos pode vir de lugares tão distantes que você pode nem saber que existe, ter esse tipo de informação é bastante problemático, mesmo para aqueles que procuram ter mais consciência sobre o impacto social de seu consumo.

Essa questão é bastante grave: em muitos países, particularmente na Ásia, centenas de milhares de pessoas (entre elas, muitas crianças) são forçadas a trabalhar em condições indignas similares à velha e tradicional escravidão. De acordo com as Nações Unidas, entre 27 e 30 milhões de pessoas são mantidas nessas condições em todo o mundo. O país com maior índice de “escravos modernos” é a Índia, com quase 14 milhões de pessoas (mais de 1% de sua população). A China vem logo em seguida, com 2,9 milhões.

Somente esses dois países concentram uma parcela significativa do comércio internacional, o que significa que muitos de seus produtos (principalmente matéria-prima, mas também bens de consumo, como eletrodomésticos e eletrônicos) utilizam mão-de-obra em condições análogas à escravidão em seu processo produtivo.

Inspirado por esse cenário crítico e complexo, Justin Dillon, um músico e documentarista, militante na luta contra formas modernas de escravidão, criou uma ferramenta online – o Slavery Footprint. Essa ferramenta parte de uma pergunta simples e aterrorizante: “quantos escravos trabalham para você?”.

No ar desde 2011, o site já recebeu visita de milhões de pessoas em mais de 200 países, interessadas em destrinchar a conexão entre seus itens de consumo cotidiano e o trabalho escravo moderno pelo mundo. Com sede na Califórnia, a proposta é engajar indivíduos, grupos e empresas na conscientização e na ação conjunta em nível global contra a escravidão moderna, além de apoiar negócios que utilizem apenas mão de obra livre e em condições dignas de vida em sua cadeia produtiva, através da iniciativa Made in a Free World.

Bruno Toledo & Flora Arduini

 

“Um app para quem gosta de moda – mas quer consumir de maneira consciente”. Assim é anunciado o aplicativo que responde ao contexto recente de denúncias a marcas de roupa que produzem com impactos socioambientais, como o trabalho análogo ao escravo.

“A proposta é trazer ao público, de forma ágil e acessível, as medidas que as marcas – as principais varejistas de roupas do país e empresas que já foram flagradas pelos fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) – vêm tomando para evitar que as peças vendidas em suas lojas sejam produzidas por mão de obra escrava.

Todas as companhias foram convidadas a responder um questionário e, com base nas respostas, receberam uma pontuação que as classifica em três categorias de cores – verde, amarelo e vermelho –, de acordo com sua conduta. Aquelas que não responderam foram automaticamente incluídas na categoria vermelha.”

São quatro os indicadores:

1. Políticas: compromissos assumidos pelas empresas para combater o trabalho escravo em sua cadeia de fornecimento.
2. Monitoramento: medidas adotadas para fiscalizar os fornecedores de roupa.
3. Transparência: ações tomadas para comunicar aos clientes o que tem sido feito para monitorar fornecedores e combater o trabalho escravo.
4. Histórico: resumo do envolvimento das empresas em casos de trabalho escravo, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

O app é um serviço gratuito ao consumidor, desenvolvido a partir da apuração da equipe de jornalismo da Repórter Brasil.

Fernanda Carreira

 

O Instituto de Engenharia Mecânica do Reino Unido publicou recentemente um novo estudo onde aponta que metade dos alimentos produzidos pelo planeta acaba sendo descartada, mesmo com milhões de pessoas passando fome em diversos lugares do planeta.

Segundo o estudo, este desperdício de alimentos resulta de uma série de fatores, desde as más condições de estoque dos produtos, passando por más práticas de consumo (em especial, nos países desenvolvidos) até a distribuição final do produto, que geralmente desfavorece localidades mais pobres – e, consequentemente, mais suscetíveis a problemas alimentares.

Além da questão alimentar, o estudo também indica um problema com a água. Cerca de 500 bilhões de metros cúbicos de água são consumidos para produzir alimentos que acabam sendo descartados posteriormente, o que torna ainda mais complexa e delicada a situação, num contexto de aumento populacional e de maior pressão sobre as reservas de água doce do planeta.

Você pode baixar este estudo na biblioteca virtual do GVces.

Desperdício no Brasil

O Brasil, um dos grandes produtores de alimentos do planeta, também sofre com o desperdício de boa parte de sua produção ao longo da cadeia produtiva. Mesmo com o investimento em tecnologia de ponta nas duas últimas décadas, que colocou o país entre os mais competitivos do agronegócio mundial, o problema do desperdício persiste, o que impõe sérios desafios para o Brasil.

No entanto, algumas iniciativas pontuais já desenham possíveis caminhos para enfrentar este problema no país, como o Banco de Alimentos, o projeto Favela Orgânica, entre outros. Aos poucos, a iniciativa privada também se articula para resolver esta questão, através de projetos e de modelos de produção, gestão e consumo que diminuem o desperdício de alimento (saiba mais aqui e aqui).

Mariana Nicoletti e  Letícia Freire

 

A Folha de S. Paulo publicou ontem, 28/07, artigo de José Vicente Ferraz, engenheiro-agrônomo e diretor técnico da Informa Economics FNP, com o título “Maior desafio é produzir mais alimentos com o menor custo”. Se a importância do acesso aos alimentos pela população de baixa renda é indiscutível, é preciso ter cautela na afirmação do título, para que o argumento não vire um tranpolim para iniciativas não sustentáveis.

Em tempos de Rio +20 e discussões sobre economia verde, os dois eixos devem caminhar entrelaçados: a sustentabilidade na produção e no consumo e o direcionamento da nova economia para a redução da pobreza. Do contrário, há o perigo de se cair em discursos vazios como o de empresas produtoras de organismos geneticamente modificados, que defendem suas sementes como uma forma de aumentar a produção e fazer chegar alimento aos menos favorecidos. A produção de transgênicos no mundo cresce anualmente – só a soja já passou dos 260 milhões de toneladas por ano – o que não significou fornecimento de alimentos para as populações pobres do mundo. Está aí a fome na Somália como exemplo.

Outro ponto que gera preocupação no artigo é em relação às soluções apontadas para o aumento da produção, como a intensificação da irrigação. Sabe-se que hoje, quase 70% da água doce utilizada em atividades humanas no planeta é destinada à agricultura – uso que muitas vezes acarreta escassez justamente para populações mais pobres. Daí a importância do fator sustentabilidade no contexto da produção de alimentos: não adianta produzir mais gerando passivos ambientais que não só comprometem os recursos naturais como acabam ameaçando, em primeiro lugar, os pobres que teoricamente se espera ajudar.

Vale questionar também o leque de soluções tecnológicas indicadas no artigo. Os OGMs, por exemplo, carregam consigo uma série de questionamentos, que vão desde o princípio da precaução até questões como o impacto de estratégias como sementes estéreis para os pequenos produtores. A discussão é longa e conhecida e não cabe detalhá-la aqui (mas vale dar uma olhada na Página 22). A questão é que existem outras formas de se aumentar a quantidade de alimentos disponíveis para consumo, como atuando no desperdício ao longo da cadeia de produção e consumo, que segundo a ONU gira em torno de 1,3 bilhão de toneladas por ano.

As verdades absolutas, típicas das iniciativas do século XX, não combinam com os preceitos da sustentabilidade, que procura olhar para a complexidade da relação entre sociedade e natureza. A economia verde, que estará em discussão na Rio +20, em maio de 2012, deve primar por soluções inteligentes, que nem sempre passam por inovações tecnológicas de alto custo, mas por outros tipos de inovação. Das mais singelas, como o melhor aproveitamento dos alimentos, passando por iniciativas de produção de alimentos no espaço urbano, até a adoção de novos modelos como os sistemas agroflorestais. Inovação, criatividade e uma boa dose de perspectiva socioambiental são fundamentais para a construção de uma economia verde e justa.

Ricardo Barretto

© 2016 GVces - Coletivo Sustentável Suffusion theme by Sayontan Sinha