Uma nova pesquisa do Instituto Datafolha mostra que o brasileiro está muito preocupado com as mudanças climáticas e acha que o governo não compartilha dessa preocupação.

Segundo o levantamento, encomendado pelo Observatório do Clima e pelo Greenpeace Brasil, 95% dos cidadãos acham que as mudanças climáticas já estão afetando o Brasil. Para nove em cada dez entrevistados, as crises da água e energia têm relação direta com o tema, sendo que para 74% há muita relação entre a falta de água e energia e as mudanças do clima. No entanto, para 84% dos entrevistados, o poder público não faz nada ou faz muito pouco para enfrentar o problema. O Datafolha ouviu 2.100 pessoas em todas as regiões do país.

Os entrevistados também apontaram possíveis formas para resolver o problema. Entre as soluções apontadas estão a redução do desmatamento, melhorias no transporte coletivo e investimentos em energias renováveis. Mais de 80% dos brasileiros acham que essas ações inclusive trarão benefícios para a economia nacional.

A pesquisa mostrou, ainda, que o brasileiro se enxerga como parte da solução: 62% dos entrevistados estão dispostos a instalar um sistema de microgeração de energia solar em casa – equipamentos conhecidos por 74% do público consultado. Diante da hipótese de ter acesso a uma linha de crédito com juros baixos e a possibilidade de vender o excesso de energia para a rede elétrica, o percentual e interessados sobre para 71%.

Sobre a atuação do governo, a pesquisa Datafolha mostra que o brasileiro tem uma percepção bastante crítica: para 48%, o governo federal está fazendo menos do que deveria em relação às mudanças climáticas; para 36%, ele simplesmente não está fazendo nada. Os mais críticos são os brasileiros das regiões Nordeste e Sudeste. Mas, para 2/3 dos entrevistados, o Brasil deveria assumir uma posição de liderança no enfrentamento do problema em nível internacional. No Nordeste, esse índice chega a 74%.

A pesquisa também confirma que existe um bom entendimento das causas das mudanças do clima. Apresentados a nove possíveis causas, os entrevistados apontaram com mais frequência desmatamento (95%), queima de petróleo (93%), atividades industriais (92%), queima de carvão mineral (90%) e tratamento de lixo (87%).

A pesquisa foi realizada entre 11 e 13 de março de 2015. O Datafolha utilizou metodologia quantitativa, realizando entrevistas pessoais e individuais em pontos de fluxo populacional de 143 municípios de pequeno, médio e grande porte com pessoas com mais de 16 anos de idade. A margem de erro para o total da amostra é de 2,0 pontos percentuais para mais ou para menos. Clique aqui para acessar a pesquisa na íntegra. Confira também a matéria exibida no Fantástico (TV Globo) no último dia 17 sobre a pesquisa.

Bruno Toledo (com informações do Observatório do Clima)

 

7o Fórum Mundial da Água ocorreu entre os dias 12 e 17 de abril nas cidades Daegu (foto) e Gyeongbuk, na Coreia do Sul. Promovido pelo Conselho Mundial da Água, o maior evento internacional sobre o tema ocorre a cada três anos e, em 2015, contou com a participação de 40 mil visitantes de 168 países, incluindo nove chefes de estado, 80 ministros e 100 delegações oficiais.

Durante o Fórum, este conjunto de atores multilaterais buscou soluções inovadoras para os atuais e futuros desafios da gestão sustentável da água, um bem público cada vez mais escasso e precioso. Em Daegu, o “Pavilhão Brasil” reuniu os brasileiros que participaram do Fórum, onde foram feitas apresentações por diversos atores envolvidos no tema. Foram apresentados, entre outros, os projetos que receberam o Prêmio ANA 2014 (categorias empresa, ensino, governo, imprensa, ONG, organismos de bacia e pesquisa e inovação tecnológica).

Os pesquisadores do Programa Política e Economia Ambiental do GVces, Alexandre Gross e Guilherme Lefèvre, foram convidados pela Agência Nacional de Águas (ANA) a apresentar os resultados da pesquisa “Análise custo-benefício de medidas de adaptação às mudanças climáticas na bacia hidrográfica do PCJ”.  O Estudo (pdf), encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente e realizado em parceria com a ANA, buscou aprofundar o entendimento sobre a aplicação de análises custo-benefício para a priorização de medidas adaptativas em um cenário de mudanças climáticas na Bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. A pesquisa foi apresentada na programação do Fórum durante o evento “Enhancing resilience through robust water policies and appropriate water management”, organizado pelo Alliance for Global Water Adaptation (AGWA) e UNESCO (International Hydrological Programme) e na agenda do Pavilhão Brasil.

Os resultados encontrados mostram que, sem processos adaptativos, as perdas econômicas incrementais na bacia representariam um percentual significativo do PIB da região em 2050. Em especial, só as perdas causadas pela mudança climática podem representar cerca de 25% a 40% destas perdas incrementais totais estimadas. Em outras palavras, um planejamento que não levasse em conta a mudança do clima estaria negligenciando pelo menos um quarto das perdas potenciais futuras causadas pela escassez hídrica nos usos analisados, ou seja, deixando de ver uma boa parte do problema.

O estudo também avaliou custos e benefícios da adoção de 10 medidas adaptativas, tais como a construção de barragens, reuso de águas cinzas, irrigação eficiente, incentivos econômicos etc.

As mudanças climáticas trazem impactos, traduzidos em desastres naturais e escassez de recursos ambientais, que já afetam e tendem a afetar ainda mais a economia e a sociedade brasileira. Medidas adaptativas devem ser pensadas como alternativas para evitar danos maiores às pessoas e ativos sob risco. Nesse contexto, a pesquisa apresentada durante o Fórum faz parte de um trabalho mais amplo realizado pelo GVces, que desenvolveu uma base teórica para a criação do Plano Nacional de Adaptação. O Plano, que vem sendo construído pelo governo federal, oferecerá uma estrutura regulatória para nortear a política brasileira em relação ao tema Adaptação. Seu objetivo maior é fortalecer a capacidade adaptativa do País, tornando nossa sociedade cada vez mais preparada para enfrentar os impactos da mudança global do clima.

Guilherme Lefèvre e Alexandre Gross

 

O Greenpeace Brasil e o Fluxo – redação independente de jornalismo – promovem neste mês uma série de debates sobre meio ambiente, política e eleições.

A intenção dessa série é dialogar sobre como Energia, Mobilidade Urbana, Agronegócio e Clima, entre outros temas da sustentabilidade, devem ser abordados nos programas de governo dos candidatos à Presidência da República.

O primeiro programa vai ao ar nesta terça 09/9, a partir das 21h30, com Ricardo Abramovay (USP) e Ricardo Sennes (PUC-SP) debatendo como a política aborda a questão do meio ambiente muitas vezes de maneira indireta, como um fator externo. O debate desta terça também terá a participação de Adriana Ramos (Instituto Socioambiental/ISA) e coluna de Idelber Avelar (Revista Fórum), e mediação de Bruno Torturra (Fluxo) e Sérgio Leitão (Greenpeace).

Os encontros acontecerão todas as terça-feiras de setembro, às 21h30, no site http://www.fluxo.net/aovivo

Ricardo Barretto

 

Reportagem do jornal o Estado de S. Paulo mostra como um dos maiores consumidores de energia elétrica do país está lidando com a falta de água e consequente alta nos preços da energia elétrica: a Alcoa suspendeu parte da produção de alumínio e está vendendo a energia elétrica que não utiliza.

Ainda que não se possa afirmar com absoluta certeza que a atual falta de chuva seja um efeito direto das mudanças climáticas, esse é o tipo de desafio que as empresas enfrentarão de modo cada vez mais frequente no contexto das alterações globais do clima.

É neste sentido que o aumento da resiliência às mudanças climáticas é estratégico para as empresas. A resiliência pode ser fortalecida reduzindo a vulnerabilidade do ambiente onde as empresas atuam, por meio da definição de estratégias para lidar de modo preventivo com situações climáticas que podem interferir em algum ponto da sua cadeia produtiva. No setor energético, por exemplo, podemos pensar em estratégias de adaptação ao excesso ou escassez de chuvas na área onde está alocado um reservatório de uma usina hidrelétrica. Também pode-se pensar em medidas a serem adotadas para uma resposta mais rápida a condições extremas que o clima alterado pode impor. Um exemplo disto seria o fortalecimento de ações de resposta a situações de chuvas mais intensas e raios, que podem danificar torres e linhas de transmissão. Um setor energético bem adaptado às mudanças climáticas poderia reduzir situações de queda do abastecimento e de aumento dos preços da energia.

Tudo isso, sem descuidar das ações de mitigação, ou seja, a adoção de processos de produção e consumo que resultem em menos emissões de gases de efeito estufa.

Bastante complexo o futuro próximo que se desenha para as empresas do século XXI…

Guilherme Lefevre

 

Segundo a Organização Meteorológica Mundial, o ano de 2013 foi o sexto mais quente da história; além disso, 13 dos 14 anos mais quentes também foram registrados no século XXI. Os cientistas não têm dúvidas de que o aquecimento global é uma realidade e esse fenômeno é decorrência da atividade humana.

A cidade de São Paulo nunca havia registrado um mês tão quente na história quanto janeiro de 2014; os registros começaram a ser feitos em 1943. Em Porto Alegre, onde as medições começaram em 1916, este mês foi o mais quente entre os meses de janeiro desde que as medições começaram. Os motivos que levaram a essas altas temperaturas são diversos e a ciência ainda não consegue comprovar uma relação direta entre as mudanças climáticas e tais eventos do início de 2014. Dentro desse cenário, temos duas opções: acreditar que não temos nada a ver com o assunto e torcer para as coisas melhorarem ou utilizar o princípio da precaução. O princípio da precaução foi formulado pelos gregos e significa ter cuidado e estar ciente. Precaução relaciona-se com a associação respeitosa e funcional do homem com a natureza. Trata das ações antecipatórias para proteger a saúde das pessoas e dos ecossistemas. Precaução é um dos princípios que guia as atividades humanas e incorpora parte de outros conceitos como justiça, equidade, respeito, senso comum e prevenção.

Por conta das altas temperaturas, a utilização de aparelhos de ar condicionado disparou no país e o consumo de energia elétrica nacional também subiu. O Sistema Interligado Nacional não suportou e na última terça-feira (4 de fevereiro), ocorreu o apagão que atingiu 13 estados. Para evitar novos apagões, o governo pretende utilizar força máxima nas usinas termelétricas, aumentando ainda mais as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Além disso, como existe a preocupação de novos apagões, muitas empresas já começam a investir em geradores de energia elétrica a óleo diesel, aumentando também as emissões de GEE e a poluição local.

Ao invés de focar na origem do problema, as soluções adotadas tendem a criar um ciclo vicioso, no qual as emissões aumentam a temperatura do planeta, que provoca mais emissões por conta do aumento da queima de combustíveis fósseis, que aumenta mais a temperatura do planeta e assim por diante. Muitas pessoas me perguntam quando vamos começar a sentir os efeitos das mudanças climáticas, pois acham que se trata de um fenômeno que vai atingir nossos netos e bisnetos. As mudanças estão aí e, pelo que as últimas semanas vêm demonstrando, não estamos nos esforçando o suficiente para reverter esse quadro.

Ricardo Dinato

 

Em mais uma aplicação do jogo Celsius – o desafio dos 2 graus* , com grupo de 20 alunos intercambistas do Programa de Mestrado Profissional da FGV, pudemos observar fatos bastante curiosos a respeito do comportamento e atitudes dos gestores frente ao desafio das mudanças climáticas. Três aspectos nos chamaram a atenção em especial. O primeiro diz respeito à diferença de atitude e posicionamento entre os gêneros: as mulheres se mostraram mais colaborativas e preocupadas com o futuro do planeta do que os homens. São elas que, no jogo, pressionaram os homens a serem mais altruístas, a pensarem no bem coletivo e a dialogarem mais entre si, focando na cooperação.

O segundo aspecto diz respeito a uma possível comparação com jogadores brasileiros que participaram de rodadas do Celsius no passado. O grupo de europeus foi mais consciente no que diz respeito ao seu papel como cidadão e gestor de empresas na articulação e influência de políticas públicas. Suas jogadas mostraram que entendem o papel crucial do governo na mudança para uma economia de baixo carbono e que têm o direito, o poder e a obrigação de participar da discussão política.

Por fim, o terceiro e curioso aspecto foi a tomada de consciência, ali, durante o jogo, de um dos jogadores: a constatação de que o sistema educacional que temos hoje em vigor, principalmente os das escolas de negócio, ainda operam na mentalidade do business as usual, reproduzindo o conhecimento e a formação de futuros gestores numa lógica que simplesmente não dá conta de atender os desafios da realidade atual. Por exemplo, os dilemas entre as decisões empresariais e as mudanças climáticas.

Sobre os resultados dessa aplicação: das quatro mesas, apenas uma foi capaz de manter o aumento da temperatura do planeta abaixo dos 2oC. Todas as outras não conseguiram reduzir as emissões e estouraram o termômetro! Isso nos mostra como ainda temos um longo caminho a percorrer…       

Fernanda Carreira, com a colaboração de Mariana Nicolletti
Foto: Beatriz Kiss

* “Celsius – o desafio dos 2 graus” é um jogo desenvolvido pelo GVces em parceria com a Fabiano Onça Games com o objetivo de promover a reflexão a respeito dos papéis das empresas, cidadãos e governo na transição para a economia de baixo carbono e da importância da articulação entre esses atores. Saiba mais nesse vídeo e nesse post.

 

Além das campanhas que já estavam em evidência, como a “Veta Dilma” – contra o Código Florestal proposto pelo Congresso Nacional – novas campanhas de membros do Observatório do Clima estão em destaque no site do OC: a Hora do Planeta, do WWF Brasil, pede para todos apagarem as luzes no dia 31/3, às 20h30. Já a Liga das Florestas, que tem participação do Greenpeace Brasil, pede uma grande mobilização nas redes para a aprovação do projeto de lei de origem popular que pede Desmatamento Zero

Luiza Xavier

 

Quem acompanha as conferências da ONU sobre mudança do clima deve estar com a sensação de que essa é uma das mais mornas já realizadas nos últimos anos. A possibilidade de não se definir uma continuidade para o Protocolo de Kyoto, a baixa expectativa de decisões relevantes e o pouco debate sobre o tema na mídia, há pouco mais de um mês do 17o. encontro, dão a noção de como a coisa anda tépida.

Mas existe um elemento de novidade que distingue a Conferência de Durban das que a precederam: a COP 17 é a primeira que acontece após a onda de movimentos sociais que estão questionando as estruturas de liderança, controle e rumos políticos em diversas partes do mundo. Dos levantes no Oriente Médio, aos protestos na Europa, passando por respingos na China e na América Latina, e agora um movimento que toma força nos Estados Unidos.

De modo geral, esses movimentos afirmam não ser mais possível manter o mesmo padrão de tomada de decisão nas políticas econômicas e sociais, muitas vezes voltadas ao interesse de grupos reduzidos em detrimento da sociedade como um todo. Essa insatisfação generalizada, ainda que sobre realidades diferentes, clama por decisões políticas consistentes, focadas de fato no bem comum. Nesse sentido, teríamos um ambiente global propício para a renovação dos esforços e dos resultados da Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima. Afinal, estamos falando também aqui de governos lidando com um problema fundamental para o curso das sociedades que os sustentam e cujo histórico de decisões e sua aplicação na prática têm deixado a desejar. As evidências estão tanto no endereçamento tímido dos desafios e soluções relacionados à mudança do clima, por parte dos diferentes países, quanto na perda de legitimidade da ONU enquanto instituição que promove o entendimento para uma ação comum entre os países no combate ao maior desafio socioambiental da história recente do planeta.

Quando as manifestações sociais em diferentes parte do globo impõem às nações uma demanda por revisão de suas opções e estratégias políticas, acabam por colocar também um questionamento sobre como tem sido o posicionamento de cada um deles no contexto global. E o ambiente da COP não poderia estar de fora. Países que bloqueiam o avanço das negociações, países que boicotam medidas fundamentais para o combate às mudanças climáticas, países que se esquivam de compromissos com políticas de reestruturação do sistema produtivo para atender a lobbies específicos em detrimento da sociedade como um todo e ainda, só para citar alguns arquétipos encontrados no ambiente da COP, os países que propõem globalmente iniciativas que não correspondem a suas políticas em solo nacional.

Para o Brasil, a exemplo das outras nações, se coloca uma oportunidade de renovação da postura adotada no contexto da COP e principalmente de seu posicionamento interno. No caso brasileiro, um movimento social que pode ser tomado como termômetro do ambiente propício a uma ação governamental mais contundente e integrada no contexto das mudanças climáticas é a recente onda de protestos contra a corrupção, que parece ganhar força nas ruas. Nas manifestações contra corrupção é possível identificar como subtexto o descontentamento com ações (nesse caso, ilegais) voltadas a atender grupos específicos em detrimento do resto da sociedade e com as respostas paliativas do poder público, que não resolvem um problema crônico no Brasil.

Esse termômetro da sociedade indica o anseio por medidas de longo prazo e a adoção de políticas que redefinam os rumos do país nas mais diferentes esferas, de modo a garantir um futuro melhor para toda a sociedade. Esse é o mesmo preceito necessário a uma estratégia efetiva de combate e de adaptação à mudança do clima, capaz de reduzir a deterioração do meio ambiente em solo brasileiro e de colocar o país em rota de competitividade de sua economia frente a uma nova realidade que se desenha mundialmente nessa área, marcada pela inovação e pela redução dos impactos sobre a natureza.

Se a COP 17 e cada um dos países envolvidos no processo estiverem atentos para os sinais que a sociedade global emite nas manifestações que vêm ocorrendo nos últimos tempos, enxergarão aí uma demanda contundente por ações concretas e duradouras em prol do “nosso futuro comum” (o lema do desenvolvimento sustentável) e o ambiente inequívoco para que o combate às mudanças climáticas se torne um norte permanente à atuação política e econômica das nações.

Ricardo Barretto

 

Com as sucessivas ressacas das últimas COPs do clima, pouco se tem ouvido falar da 17a. Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima. Isso não quer dizer que o desafio que a originou – a alteração do regime climático do planeta pela ação humana – esteja sendo tratado de modo apropriado. Pelo contrário, estudo do Joint Research Centre da União Europeia, divulgado esta semana pela imprensa, mostra que as emissões de gases do efeito estufa cresceram 45% entre 1990 e 2010, batendo a marca inédita de 33 bilhões de toneladas.

Para quem acha o dado alarmante, é importante ter em mente que os números poderiam ser piores, não fosse a crise mundial que causou desaceleração da economia. Ainda assim, os Estados Unidos tiveram aumento de 5% de suas emissões e no Japão elas se mantiveram estáveis. A Comunidade Europeia conseguiu reduzir suas emissões em 7% – abaixo do patamar de 5,2% sobre os índices a 1990, estipulado pelo Protocolo de Kyoto – e a Rússia em incríveis 28%. Ou seja, o cenário que se apresenta é de forte crescimento das emissões dos países em desenvolvimento, que em números absolutos ainda são menores que das nações desenvolvidas. Entre 2009 e 2010, as emissões aumentaram em 10% na China, 9% na Índia e 5% no Brasil, no México e na Coreia do Sul.

Se desafio é o que não falta para os países que estarão representados na COP 17, o mesmo não se pode falar da vontade política, essa anda bem escassa quando o assunto é mudança de modelo econômico – algo essencial para combater as mudanças climáticas. Em parte por conta de lobbies existentes nos diferentes contextos nacionais de setores contrários a um redesenho e em parte pelo custo inicial necessário.

Um indicador da urgência das mudanças vem do Banco Mundial, que produziu um relatório a ser apresentado na reunião de ministros do G20 em novembro, definindo recomendações para levantar recursos para ações de mitigação e adaptação, como corte nos subsídios dos combustíveis fósseis, piso de US$ 25 para créditos de carbono e taxação das emissões do setor de transportes, conforme informa o The Guardian.

Para adotar esse tipo de iniciativa, os países desenvolvidos certamente cobrarão por uma ação mais compartilhada com os emergentes, cuja responsabilidade no contexto do aquecimento global aumenta não só pela intensificação de suas emissões, mas pelo maior peso político e econômico que vêm alcançando nos últimos anos.

E o caso brasileiro deve ganhar destaque nas discussões. O desmatamento voltou a aumentar nos últimos meses, os sinais de enfraquecimento da legislação ambiental interna se multiplicam e a Política Nacional sobre Mudança do Clima, bem recebida na COP 15, ainda não saiu do papel. O país apresentará na Conferência de Durban os planos setoriais que correspondem às propostas internas do país para mitigação. Mas para que as ações brasileiras sejam consistentes, é necessário que sejam estabelecidas de modo integrado com as diferentes áreas do governo federal, bem como com as esferas estadual e municipal.

O marco regulatório tem sido considerado um dos principais entraves ao combate às mudanças climáticas pelo Brasil. O setor privado já leva adiante iniciativas como a plataforma Empresas pelo Clima (EPC), coordenada pelo GVces, mas não tem os parâmetros da atuação governamental e da legislação para planejar a longo prazo e empreender modificações operacionais e de estratégia que sejam compatíveis com uma economia de baixo carbono.

É preciso que o Estado brasileiro entre no compasso dos atores internacionais e nacionais que estão olhando para o futuro do planeta e da sociedade, para garantir a parte do país no esforço global pelo clima e a sincronização do Brasil com um processo de renovação da economia mundial.

Ricardo Barretto

 

2010 e 2011 imprimem a noção de que a mudança do clima virou realidade global e cotidiana. Uma leitura do Twitter nessa segunda quinzena de janeiro traz alguns exemplos:

  • SC tem 43 cidades em situação de emergência por causa de chuvas http://bit.ly/eqA7Rs
  • SC: + d 872 mil pessoas e 21,8 mil residências foram afetadas, 21.413 pessoas desalojadas e 1.862 desabrigadas. 5 pessoas morreram
  • Já são 814 mortos e 513 desaparecidos na Região Serrana do Rio // Doe sangue, água mineral, alimentos… http://migre.me/3BBoH
  • Briefing sobre a Plataforma Global para Redução de Desastres 2011 que acontece em 27 de janeiro, em Genebra – http://tinyurl.com/635cr3o
  • Desastres naturais mataram quase 300 mil pessoas em 2010 http://ecodebate.com.br/90N
  • 2010: Um ano de calor recorde e condições de tempo fora do comum http://bit.ly/fuUT1c

Não houve continente no planeta que não tenha passado por situações climáticas extremas nos últimos meses, das nevascas no Hemisfério Norte às enchentes no Hemisfério Sul. Se a dinâmica climática é cruelmente democrática, a capacidade de resposta dos países tem sido em parte propocional às políticas públicas estabelecidas pelos diferentes governos. Caso emblemático repetido pela mídia brasileira foi a salvação de centenas de vidas na Austrália, graças a um eficiente sistema de alerta, e a perda de vidas humanas na casa do milhar no Brasil – onde não havia qualquer sistema do tipo, ainda que o fenômeno venha se repetindo ano após ano, de maneira crescente ao que parece.

walk, dont walk, por carlos sotelo

Mas não podemos acusar o governo de falta de coerência em sua política ambiental. Assistimos a uma sequência histórica de belos discursos do Brasil na esfera internacional e algumas boas iniciativas, como a adoção de metas para redução de emissões de gases do efeito estufa. No contexto interno, entretanto, a prática não acompanha os planos de intenções e sim as aspirações de crescimento econômico inadvertido, como se esse fosse um fenômeno social isolado do fator ambiental – seja na sua origem, seja nas suas consequências.

Assim como Dilma no Rio de Janeiro, Lula também se chocou e se mostrou solidário às vítimas dos temporais que arrasaram regiões inteiras de Santa Catarina em 2009. Mas nem assim surgiu na época o tal sistema de alertas ou medidas para se reforçar a cobertura vegetal de áreas de risco daquele estado ou outros igualmente vulneráveis. Pelo contrário, o governo fez vista grossa ao rolo compressor que impôs ameaça contínua ao Código Florestal brasileiro durante todo o ano de 2010 e que continua a rondar a lei que protege os biomas.

Em outras palavras, a coerência foi mantida: o discurso é uma coisa, a prática é outra. E a questão não se restringe aos fatos diretamente relacionados à mudança do clima, mas faz parte da dinâmica da política estatal brasileira que ainda entende que desenvolvimento significa privilegiar a produção em detrimento do meio ambiente. Como se fossem dissociáveis …

Exemplo disso, que também tomou o Twitter de assalto nos últimos dias – e também é uma discussão que se arrasta há um bom tempo – é a construção da hidrelética de Belo Monte: apesar de tantos pontos contra o empreendimento, o governo insiste em avançar com o projeto, passando por cima das leis ambientais que deveriam assegurar sua mínima sustentabilidade.

A queda do presidente do Ibama e do secretário-executivo do MMA dá um sinal claro de que a presidente Dilma Roussef pretende manter essa coerência que tem sido marca do governo nas políticas de desenvolvimento para o Brasil. O alerta, no entanto, está dado à presidente: a mudança do clima revela a deficiência das políticas internas, e essa deficiência irá potencializar os efeitos das mudanças climáticas no país.

Ricardo Barretto
Comunicação GVce

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