“O pó dos caminhos subia e espraiava-se, cobrindo-lhes as orlas e cobrindo mesmo boa parte dos campos de cultura. (…) Pouco a pouco, o céu escurecia sob as nuvens de poeira e os ventos mais e mais mergulhavam nos caminhos e se elevavam com novos carregamentos de poeira. (…) O céu ficava cada vez mais escuro e, oculto sob sua capa cinzenta, o sol parecia um disco sangrento, e havia um cheiro acre no ar. (…) Homens e mulheres permaneciam aborrecidos e inquietos em suas casas, e tapavam o nariz com lenços quando tinham que sair, e punham óculos contra poeira para proteger os olhos. (…) A poeira misturava-se ao ar, como se formassem um só corpo; era uma emulsão de ar e de poeira”.

Na introdução do clássico “As Vinhas da Ira”, John Steinbeck nos relata – com detalhes obsessivos – como nuvens de poeira varreram comunidades inteiras do Meio-Oeste norte-americano nos anos 1930, durante o chamado Dust Bowl, talvez o maior desastre ambiental da história dos Estados Unidos. O nome em si foi cunhado há exatos 80 anos, em 14 de abril de 1935 (o Black Sunday, domingo negro), quando uma única tempestade de poeira conseguiu transformar um dia com céu límpido e sol brilhante numa escuridão mais sombria que a própria noite. Os relatos sobre esse dia na imprensa e os testemunhos de quem viu a tempestade eram como se tivessem saídos de um pesadelo – e para aqueles que viviam isso na pele, o Dust Bowl era um pesadelo sem fim.

Uma das cenas mais características da época do Dust Bowl: densas e gigantescas nuvens de poeira, que chegavam a bloquear a luz do sol por horas durante o dia. Esta imagem foi tirada em 17 de abril de 1935, na cidade de Stratford, Texas (NOAA George E. Marsh Album)

As tempestades de poeira que afligiram as Grandes Planícies do Meio-Oeste causaram a maior migração da história do país num curto espaço de tempo: entre 1930 e 1940, quase 3,5 milhões de pessoas abandonaram (por opção ou forçadas por dívidas bancárias) suas terras (localizadas principalmente nos estados de Oklahoma e Texas) em direção à costa leste norte-americana.

O baque econômico causado pelo Dust Bowl não foi pequeno: a região afetada pelas tempestades de poeira era considerada um dos principais celeiros agrícolas do país, particularmente de trigo. No contexto da Grande Depressão, que já castigava os Estados Unidos desde 1929, o Dust Bowl foi fatal para muitos agricultores e suas famílias, incapazes de arcar com os custos econômicos de perdas sucessivas de safra e de gado – é nesse contexto que Steinbeck escreveu a saga de Tom Joad e sua família, expulsos de suas terras arruinadas em Oklahoma e forçados a migrar para a Califórnia, em meio às dificuldades causadas pela crise econômica.

As causas do Dust Bowl foram eminentemente humanas. Inicialmente, as Grandes Planícies eram territórios relativamente secos, cobertas por um capim característico que segurava o solo e dominadas por búfalos. Por isso, nos primeiros estágios da ocupação norte-americana na região, poucos se aventuraram em se assentar nessas áreas. Em 1862, através do Homestead Act, o governo federal começou a incentivar a ocupação desses territórios, demarcando propriedades de até 65 hectares por preços relativamente baixos. Com a chegada das estradas de ferro transcontinentais, os assentamentos agrícolas começaram a se proliferar nessa região. Mesmo com a agricultura se provando bastante complicada, por causa das características do solo e do clima, o governo continuou incentivando a chegada de mais colonos, oferecendo lotes maiores de terra por preços ainda mais baixos. Um dos slogans do governo e dos corretores fundiários era que a chuva seguia o arado (“the rain follows the plow”), ou seja, quanto mais plantação tivesse, mais chuva cairia.

Agricultores trabalhando na colheita de trigo no Colorado (foto de Arthur Rothstein, 1939)

Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com os distúrbios que tomaram conta da Rússia revolucionária (até então a maior produtora mundial de trigo), a região das Grandes Planícies tornou-se uma das principais produtoras de trigo do mundo. As plantações aumentavam na mesma medida em que os preços internacionais do trigo subiam. A mecanização da agricultura começava a virar uma realidade, empurrando a produtividade sempre para níveis superiores. A sorte também foi importante nessa expansão: na década de 1920, a região passou por um período prolongado atipicamente chuvoso, o que garantiu safras cada vez maiores e incentivou a expansão dos cultivos nas safras seguintes. Tudo isso financiado de forma fácil pelos bancos, em meio ao frenesi econômico característico daquela época. A “receita” da agricultura era a mesma da indústria pré-1929: produzir mais para obter mais renda, e sempre assim.

No final das contas, praticamente toda a extensão antes coberta por capim nativo acabou convertendo-se em monoculturas tradicionais. Consequentemente, o solo antes preso ao chão pelo capim acabou se soltando, o que não foi exatamente um problema até o começo dos anos 1930, quando a região começou a viver um período prolongado de seca.

Junto com a seca, veio a Grande Depressão. A queda nos preços internacionais do trigo começou a afetar mais diretamente a partir de 1931, quando a desvalorização chegou a quase 70% em apenas um ano. Mesmo com a queda brutal nos preços, os agricultores das Grandes Planícies continuaram apostando em mais produção e mais terreno cultivado. Não demorou muito para a bolha estourar.

Uma das imagens mais famosas relacionadas ao Dust Bowl, tirada por Arthur Rothstein em abril de 1936 no condado de Cimaroon, em Oklahoma

Com o tempo seco, principalmente a partir de 1934, o solo começou a levantar do chão, carregado pelas fortes correntes de ar, características da região. Assim, formaram-se nuvens gigantescas de poeira, que enterravam tudo o que estava na sua frente: plantações, gado, casas, cidades. Era praticamente impossível escapar da poeira: quando as tempestades de vento chegavam, as pessoas tinham que correr para suas casas, sob o risco de ficarem sufocadas pela densa poeira. Dentro das casas, as famílias tentavam selar todas as aberturas externas, como portas e janelas, mas partículas finas de poeira entravam facilmente pelo vão entre as tábuas de madeira utilizadas nas construções.

A penumbra daquele domingo de abril de 1935 chamou a atenção dos grandes jornais impressos dos Estados Unidos para o desastre no Meio-Oeste. Naquela época, o governo Roosevelt já discutia possíveis ações junto com o Congresso para aliviar os impactos do Dust Bowl e reverter o processo de erosão da terra naquela região, mas as conversas se arrastavam fazia meses. A própria natureza se encarregou de mostrar aos congressistas a urgência do problema: correntes de ar levaram algumas nuvens de poeira do Meio-Oeste para a Costa Leste dos EUA. Para quem estava em Washington, a centenas de quilômetros da região crítica, bastava abrir a janela e olhar para o céu empoeirado para perceber que a situação começava a fugir do controle.

O resultado disso tudo foi a aprovação do Soil Conservation Act, o ato de conservação do solo, pelo Congresso dos EUA em 27 de abril, semanas depois do Black Sunday. Essa iniciativa, acompanhada por outras ações menores, foi a base para a resposta governamental ao desastre ambiental do Dust Bowl. Nos anos seguintes, o governo comprou terras e estabeleceu unidades de conservação, implementando medidas de recuperação do solo e da vegetação nativa. Consequentemente, a degradação do solo diminuiu bastante: em 1935, quase 80% do território das Grandes Planícies sofriam com erosão do solo; quatro anos depois, essa porção tinha caído para 1/5 da área afetada.

Para as famílias que sofriam com as tempestades de poeira, o alívio era pequeno. Endividadas, sem produção e com os preços do trigo baixíssimos, milhares de pessoas perderam o único pedaço de chão que possuíam. Expulsas de suas antigas propriedades pelos mesmos bancos que financiaram o frenesi produtivo da década anterior, essas pessoas não tinham outra opção senão ir embora – muitas vezes, para sempre.

Cena de "As Vinhas da Ira", de John Ford (1940)

Uma das cenas mais marcantes da versão cinematográfica de “As Vinhas da Ira”, dirigida por John Ford e estrelada por Peter Fonda em 1940, é a passagem da família Joad por um acampamento de trânsito para “refugiados” do Dust Bowl, o primeiro da jornada deles até a Califórnia: a miséria crua, a precariedade das instalações, as condições indignas de vida – tudo isso no seio da maior economia do planeta, depois de uma década vibrante de crescimento “sem fim” (aliás, cenas desse trecho do filme chegaram a ser usadas/manipuladas pela propaganda da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra para mostrar a miséria da sociedade norte-americana).

O destino final nem sempre era melhor. Em muitas cidades norte-americanas, os deslocados do Dust Bowl acabaram engrossando as Hoovervilles – favelas que recebiam esse nome como uma “homenagem” ao presidente Herbert Hoover (1929-1933), considerado por muitos na época como o principal culpado pelo desastre econômico.

Uma das imagens mais marcantes do século XX: "Migrant Mother", tirada por Dorothea Lange em 1936. Seu nome era Florence Owens Thompson (1903-1983).

Para quem ficava – porque não tinha para onde ir e/ou não tinha perdido sua terra – o que sobrava era persistência: esperar até o tempo melhorar e viver com o que tinha. A recuperação foi lenta, com direito a mais uma temporada de tempestades de poeira na década de 1950, numa intensidade muito menor que a dos anos 1930. Mas os reflexos daquela época persistem até hoje: as cicatrizes continuam marcando aqueles que ficaram e aqueles que tiveram que ir embora. E, principalmente, a principal lição daquele episódio é frequentemente esquecida: vivemos em um mundo com limites; os recursos são finitos, a capacidade produtiva é finita, e os impactos de se empurrar demais esses limites podem ser pesados demais para se arcar – em tempos de discussão sobre clima e água, essa valiosa lição precisa ser retomada e reforçada em todo o mundo.

As imagens hoje icônicas de Dorothea Lange e Arthur Rothstein são um retrato fiel do desastre ambiental e de seus efeitos sociais: miséria, desolação, e poeira. As promessas do crescimento sem fim, enterradas na poeira.

Bruno Toledo

 

Passada a temporada de chuvas em SP, o alívio foi pouco: mesmo com os reservatórios mais cheios, o volume de água ainda está muito abaixo do desejado e o perigo de desabastecimento continua mais vivo do que nunca, principalmente nos próximos meses, com as estiagens de inverno.

Por isso, a economia de água continua sendo a ordem do dia no Estado de São Paulo. Para que possamos garantir melhores condições hídricas nos próximos meses, precisamos reduzir ainda mais o consumo de água. Os números continuam apontando para um desperdício grande de água no Brasil: o brasileiro consome em média 165 litros de água todos os dias, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que esse consumo poderia ser mais baixo, entre 50 e 100 litros, o que continuaria atendendo confortavelmente as necessidades diárias de cada pessoa.

E para nos ajudar nesse esforço de redução de consumo e uso mais racional de água, a Aliança pela Água, coalizão de organizações da sociedade civil preocupadas com a segurança hídrica do Brasil, lançou a publicação online Água – Manual de Sobrevivência para a Crise.

Além de dicas para economizar água, o manual ensina também estratégias para sobreviver ao colapso – ou seja, caso a falta de água se prolongue por muito tempo.

Para a Aliança pela Água, a segurança hídrica do país depende de três fatores fundamentais: zerar o desmatamento, despoluir os rios, e recuperar parte da cobertura florestal brasileira, a começar pelas áreas de manancial e margens dos rios. Além disso, o poder público, junto com a sociedade civil, precisa desenhar um planejamento de longo prazo para a gestão da água.

Confira algumas das dicas desse manual para enfrentar a crise hídrica atual:

- armazene a água do chuveiro enquanto ela esquenta e a use para lavar louça e roupas;

- água do banho pode ser utilizada para limpeza da casa, rega de plantas e descarga sanitária;

- escovar dentes com meio copo ou menos;

- alimentos que serão cozidos ou comidos sem casca não precisam passar por esterilização;

- embalagens descartáveis que serão recicladas podem ser limpas com guardanapo sujo ou resto de papel;

- carros podem ser limpos com pano ou bucha úmidos e calçada só com vassoura.

Bruno Toledo (publicado originalmente no blog do Observatório do Clima)

 

Com porte grave, James Inhofe tomou a palavra em sessão no Senado norte-americano no último dia 26 disposto a contestar da forma mais efetiva possível a ideia de que o planeta Terra esteja vivendo algum tipo de “aquecimento”. No meio de seu discurso, para um plenário relativamente vazio, Inhofe repentinamente desembala uma bola de neve e a levanta, mostrando-a para seus colegas. A constatação: como podemos estar no meio de um processo de aquecimento global, com as temperaturas médias globais subindo radicalmente nas últimas décadas, se está frio pra c… lá fora! Afinal, pelo segundo ano consecutivo, o norte dos EUA e o Canadá vivem invernos com recordes de temperaturas baixas. No ano passado, essa região ficou praticamente congelada por causa do chamado vértice polar. Ainda assim, para incômodo de Inhofe e de seus parceiros negacionistas, as agências científicas do governo norte-americano (NOAA e NASA) apontaram o ano de 2014 como o mais quente já registrado no país. Como isso é possível? Com bola de neve e tudo?

Essa tem sido uma luta particularmente difícil para o veterano senador republicano pelo estado de Oklahoma: nem mesmo a maior parte dos simpatizantes de seu partido concorda com sua posição. Pesquisa recente publicada pelo jornal The New York Times aponta que quase metade das pessoas que se identificam como republicanas apoiaria candidatos de seu partido que defendessem ações contra as mudanças climáticas. No público geral, 67% dos entrevistados estariam menos inclinados a votar em um candidato caso ele não acreditasse nas mudanças do clima. Os números, ainda que comparativamente pequenos, principalmente se olharmos para pesquisas desse tipo na Europa, mostram o quanto o público norte-americano aumentou seu grau de preocupação com esse problema desde o início do século. Na mídia e nas redes sociais, a batalha de Inhofe e sua “bola de neve” foi perdida: a cena do senador jogando uma bola de neve no plenário de senado transformou-se num meme constrangedor, alvo de críticas ácidas da direita e da esquerda norte-americana.

Para alívio de Inhofe e seus aliados, nesta legislatura o senador ganhou um palanque especial para contestar o que ele chama de “farsa” das mudanças do clima: a presidência do Comitê de Trabalhos Públicos e Meio Ambiente do Senado. Num ano particularmente importante para o processo político de negociação internacional no tema e num momento crucial anterior à disputa presidencial norte-americana em 2016, a presença de Inhofe numa posição de destaque no Senado é mais uma peça na estratégia republicana para desmontar as ações climáticas tomadas pelo governo Barack Obama nos últimos anos. Driblando a oposição republicana no Congresso, Obama tem editado decretos executivos para fazer valer seu objetivo de colocar os EUA num caminho mais racional no combate ao aquecimento do planeta – bem distante da inação política característica do mandato de seu antecessor, o republicano George W. Bush (2001-2009). Para os republicanos, derrubar essas medidas no Congresso imporia mais uma grande derrota ao presidente na véspera de uma disputa presidencial, com grande possibilidade de esse revés contaminar as chances políticas do/a futuro/a candidato/a democrata à Presidência no próximo ano.

Poucos lugares nesse mundo apresentam uma partidarização tão profunda da questão climática como os EUA. O debate político sobre o tema cultiva aquele tipo de radicalização tão comum nos chamados “grandes temas sociais”, como o uso de drogas, o direito ao aborto, e casamento civil de pessoas do mesmo sexo: ou você apoia ou você não apoia – ou seja, se você apoia, provavelmente você tende a se alinhar os democratas; se você não apoia, possivelmente você tenha mais apreço pelos republicanos. Inserido nessa disputa entre conservadores republicanos e liberais democratas (uma simplificação da realidade política de cada partido e das dezenas de outros partidos sem representação política no país), o problema climático tornou-se menos uma questão de constatação científica e mais uma questão de opinião política.

Como no resto do mundo, a principal variável na equação política do clima nos EUA é a economia. Para o governo Obama, os EUA não podem mais se isentar de sua responsabilidade pelo problema climático; mais do que simplesmente cortar emissões, o atual presidente norte-americano defende uma abordagem mais positiva do desafio climático, olhando-o como uma oportunidade para modernizar a economia do país e torná-la mais competitiva no pós-crise financeira. De acordo com o presidente, o governo deve trabalhar na transição para uma economia preparada para trabalhar com menos emissões de gases do efeito estufa, olhando para o que já está sendo feito na Europa e na China. Para a oposição republicana, essas políticas endereçam um problema que eles não concordam que existe e machucam gravemente a economia norte-americana, ao restringir o uso de fontes baratas e tradicionais de produção energética (leia-se carvão e petróleo).

O capítulo mais recente nessa seara foi a aprovação pelo Congresso da construção do oleoduto Keystone XL – quase 1.900 km de dutos para transportar petróleo da província canadense de Alberta para o estado norte-americano de Nebraska, num volume que chegaria a 830 mil barris de óleo por dia. Para os republicanos, a construção desse novo trecho da Keystone diminuiria a dependência de petróleo vindo do Oriente Médio, aumentaria a oferta desse produto (o que reduziria os preços no país) e geraria 42 mil vagas de trabalho durante os dois anos de implantação. Para os democratas, junto com ambientalistas, esse trecho de oleoduto poderia impactar gravemente o meio ambiente em regiões sensíveis previstas no traçado do projeto, em especial no estado de Montana, além de ir contra a proposta do atual governo em diminuir o uso de combustível fóssil por parte da indústria norte-americana.

Em fevereiro passado, aproveitando a nova maioria republicana no Senado, o Congresso aprovou sua construção. Pouco depois, Obama rejeitou a proposta aprovada pelos congressistas, afirmando que a decisão sobre essa questão deve ser tomada pelo poder executivo. Sem votos para derrubar o veto presidencial, os republicanos continuam defendendo a proposta e aguardam os próximos passos do governo Obama ou mesmo a eleição do próximo governo. A “vitória” dos grupos ambientalistas ainda é provisória: a atual administração não rejeita a possibilidade de aprovar a construção da Keystone XL, mas exige que alterações sejam feitas no projeto de construção. Essa aprovação pode vir a ser feita pelo próprio presidente Obama ou pelo seu sucessor.

No caso norte-americano, uma variável que complica ainda mais o debate político sobre clima é a crença religiosa. Para alguns conservadores cristãos, que compõem o famoso Tea Party, a narrativa da responsabilidade humana sobre as alterações recentes do clima replica a “arrogância” liberal de achar que os homens podem mais que Deus. Nesse ponto, a principal crítica vai para a ciência como um todo. O raciocínio que contesta a ciência por trás dos estudos sobre clima é similar àquele que rejeita o ensino da teoria da evolução natural das espécies nas escolas ou mesmo o movimento recente contra vacinação infantil: a ciência, arrogante em seu próprio conhecimento, é incapaz de explicar o que, para esses setores, tem uma resposta “transcendental”. Assim, as mudanças do clima são eventos naturais, nos quais a humanidade não tem responsabilidade alguma (leia-se vontade divina), ou elas são simples factoide, não passam de uma “farsa” propagada para atingir os Estados Unidos.

Em muitas análises da discussão política sobre clima nos Estados Unidos, frequentemente essa variável sociocultural é desconsiderada como um obstáculo efetivo para a ação política no país. De acordo com esse raciocínio, as variáveis econômicas são muito mais importantes para definir qual será o caminho tomado pelos EUA; se a ação climática se explicar em termos econômicos, ela se viabilizará. Concordo com isso, mas considero perigoso ignorar o potencial danoso que uma abordagem anticientífica pode ter sobre o processo decisório da maior potência do planeta – que possui regras eleitorais sui generis que permitem que um candidato com menos votos gerais, dependendo da distribuição de seus votos nos estados, consiga assegurar a presidência do país. A possível eleição de um negacionista iria derrubar todas as medidas tomadas e os avanços realizados pelo governo Obama em clima com apenas uma assinatura presidencial. Isso traria consequências sinistras para os Estados Unidos e para as discussões internacionais em clima, que já sofreram danos em outros momentos por causa da reticência de quem ocupava a Casa Branca.

Aos poucos, os republicanos começam a tentar a reconciliação com a ciência climática. Graças em boa medida à influência de grandes lideranças empresariais e de alguns líderes políticos do partido alinhados com o tema, como o ex-governador e astro de Hollywood Arnold Schwarzenegger, setores mais realistas do partido começam a defender algum grau de ação política para conter as mudanças do clima. Entretanto, olhando para as lideranças congressistas e estaduais do partido, o caminho para uma compreensão mais clara da relevância das mudanças climáticas será longo para os republicanos. Que a bola de neve da ignorância climática não esmague os eleitores norte-americanos em 2016!

Bruno Toledo

 

A Rede de Ação Política pela Sustentabilidade – RAPS – está com inscrições abertas para o processo seletivo 2015 da Rede de Líderes Políticos por um Brasil Sustentável. Até 11 de janeiro de 2015, os interessados podem se inscrever gratuitamente para participar dos projetos Líderes RAPS, Jovens RAPS e Empreendedores Cívicos.

O primeiro tem como objetivo ampliar o número de políticos com mandato comprometidos com os valores e princípios da ética, transparência e da sustentabilidade. O projeto Empreendedores Cívicos visa a potencializar a participação da sociedade na vida política do país por meio do engajamento os temas da política e do controle social. Já o projeto Jovem RAPS tem como foco estimular a participação da juventude nas experiências de práticas cidadãs, fomentando o surgimento de novos protagonistas na vida pública.

A partir de março de 2015, os selecionados para estes projetos receberão formação e capacitação gratuitas em cursos, palestras, seminários e eventos com os melhores consultores e cientistas políticos do Brasil e do exterior, como o professor Steve Jarding, da Universidade de Harvard (EUA), especialista em planejamento de campanhas eleitorais.

O processo seletivo contará com rigorosa análise curricular e entrevista. As inscrições devem ser feitas por meio do Portal RAPS.

Bruno Toledo (com informações da RAPS)

 

Os números são impressionantes: quase dois bilhões de pessoas poderiam ser sustentadas com a quantidade de alimentos desperdiçados pelo mundo todo ano, de acordo com estimativas das Nações Unidas divulgadas no último dia 24. Ou seja, quase um terço dos alimentos produzidos para consumo humano acaba na lata de lixo, mesmo com 800 milhões de pessoas passando fome em todo o mundo.

Assim, mais do que o simples aumento da produtividade, é fundamental que tenhamos uma estratégia eficiente de economia de alimentos, para evitar desperdícios e perdas desnecessárias que poderiam suprir a demanda de populações mais vulneráveis.

Nesse sentido, três agências da ONU – a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (IFAD) e o Programa Mundial de Alimentos (WFP) – se uniram para desenvolver uma plataforma online, a Comunidade Global de Prática sobre Redução de Perdas de Alimentos (FIDA). Essa plataforma tem como objetivo criar um ponto de referência global para a facilitação do intercâmbio de informações entre governos, entidades da sociedade civil e do setor privado em todo o mundo, melhorando assim a segurança alimentar e a geração de renda associada ao combate ao desperdício de alimentos.

Bruno Toledo

 

Outubro de 1985. Gro Harlem Brundtland, chefe da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas e ex-primeira-ministra da Noruega, fazia sua primeira visita ao Brasil.

Ciceroneada pelo ambientalista Fabio Feldmann, Brundtland teve uma das visões mais dantescas de sua jornada global de debates e reflexões sobre a deterioração do meio ambiente: a descida da Serra do Mar, na travessia entre São Paulo e Santos, e a fumaça cinza que cobria os céus de Cubatão. Era o “Vale da Morte”, um cenário que garantia àquela cidade o ingrato título de “cidade mais poluída do mundo”.

Não era apenas a poluição atmosférica resultante das indústrias presentes naquela cidade que colocava Cubatão numa situação tão singular. A precariedade em que vivia grande parte de sua população, em favelas escoradas na serra e próximas a dutos de gás, era ainda mais gritante. Era o progresso industrial, o descaso social e o desastre ambiental, tudo numa mesma cidade.

Dois anos depois, em seu relatório “Nosso Futuro Comum”, Brundtland e os membros de sua comissão defenderam uma nova abordagem sobre o desenvolvimento econômico, associada à necessidade de preservar os recursos e a qualidade do meio ambiente, equilibrando necessidades presentes e futuras e reduzindo o impacto humano sobre a natureza. Eram as bases do termo “desenvolvimento sustentável”, o “desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Esse termo reorientaria o movimento ambientalista a partir do final dos anos 1980 e colocaria a questão ambiental na grande agenda política global na década seguinte, um movimento que resultaria na Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992 (ECO-92), no Rio de Janeiro.

Curiosamente, Brundtland passaria ao largo das consequências de seu trabalho entre 1986 e 1996, quando reassumiu o governo norueguês. Posteriormente, ela dirigiu a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que a deixou distante das discussões sobre desenvolvimento sustentável até meados de 2003. Foi apenas a partir dessa época, mais de uma década depois da conferência do Rio, que Brundtland assumiu um papel mais ativo, particularmente no debate político sobre mudança do clima. Hoje, ela é representante especial da ONU para Mudanças Climáticas e uma das maiores referências globais na discussão sobre um futuro de baixo carbono para o planeta.

Gro Brundtland, em evento no Centro Ruth Cardoso (Foto: Vinicius Doti/Instituto Fernando Henrique Cardoso)

Em visita recente ao Brasil para participar de eventos do Fronteiras do Pensamento, a ex-primeira-ministra norueguesa expôs algumas reflexões sobre o quanto o enfrentamento das mudanças climáticas evoluiu nas últimas décadas e sobre os desafios de um mundo pós-carbono. Para ela, o entendimento básico sobre o perigo das mudanças climáticas já é praticamente unânime, mas as respostas ainda não estão plenamente alinhadas, o que pode nos colocar numa situação dramática nas próximas décadas.

De acordo com Gro Brundtland, dois elementos são fundamentais para que o enfrentamento às mudanças climáticas seja efetivo: o engajamento da iniciativa privada e a liderança dos gestores públicos. “Em Nova York ficou muito claro para mim que o setor privado agora vê os riscos do pensamento tradicional. Eles querem investir em um futuro com baixa emissão de carbono. Eles não querem investir em história. Eles veem as oportunidades, eles pedem muito mais ação governamental para inspirar e chegar às soluções para um mundo sustentável”.

Para ela, a nova geração de lideranças empresariais começa a fazer a diferença nos esforços globais para aplacar as alterações do clima, principalmente em uma das questões mais delicadas nessa luta: a precificação do carbono.

“O recente relatório Crescimento Melhor, Clima Melhor impressionou muita gente. Ficou claro que há muitos no setor privado que agora enxergam oportunidades, não apenas necessidade, em se adotar soluções de baixo carbono. Eles demandaram que se atribua um preço ao carbono, pediram um esclarecimento dos governos sobre regulação futura, estavam impacientes, pedindo ação”.

Brundtland citou o esforço norueguês para precificar suas emissões como um exemplo de como a precificação do carbono pode ser benéfica na luta para reduzir as emissões e para promover inovação tecnológica e investimentos verdes no setor privado. “Pagar pelas emissões não teve impacto sobre nossa indústria. Eles se adaptaram e conseguiram atrair investimentos para financiar essa adaptação”.

A precificação do carbono é um dos incentivos que Brundtland aponta como importantes para que o mundo consiga fazer uma transição efetiva para o baixo carbono. Nesse caso, o papel dos governos é fundamental para que se defina um contexto que impulsione a adoção de novas soluções e que facilite o abandono de tecnologias antigas.

“Políticas públicas são necessárias para estimular os mercados, para remover barreiras, para nivelar o campo de atuação e estabelecer objetivos e alvos claros para energia renovável e eficiente. Ao mesmo tempo, precisamos desfazer as políticas antiquadas que criam os incentivos errados e que nos mantêm presos a formas não sustentáveis de fazer negócios”.

Gro Brundtland e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em evento no Centro Ruth Cardoso (Foto: Vinicius Doti/iFHC)

No que tange às negociações internacionais para definir o novo acordo climático que sucederá o Protocolo de Quioto a partir de 2020, Gro Brundtland aponta a necessidade de uma liderança genuína por parte dos governos para que possamos chegar a algum resultado efetivo e cita a Conferência de Copenhague (COP 15) como um exemplo de falta de liderança e de confiança entre os negociadores. “Lá em Copenhague, tínhamos numa mesma sala o presidente norte-americano Barack Obama, tínhamos Angela Merkel da Alemanha, e o representante chinês na conversa era um diplomata de terceiro escalão, tudo isso porque o líder chinês não concordava que o país assumisse mais responsabilidades e por isso sequer participava das conversas”.

“Coragem e visão de longo prazo são importantes para que os líderes globais possam construir algo efetivo nos próximos meses”, aponta Gro Brundtland.

Um último aspecto ressaltado pela ex-primeira-ministra norueguesa é a importância da educação como ferramenta para catalisar a transição para um mundo de baixo carbono nas próximas décadas. “Educação é a chave para transformar o panorama ambiental universal”. Novamente, o exemplo da Noruega mostra como a educação facilita esse processo. “Quando precificamos as emissões na Noruega, a indústria petrolífera gritou e protestou, mas não conseguiu comover a população, que já sabia da importância e da necessidade de fazermos isso. Ter a informação correta e conscientizar a população da realidade do problema é fundamental”.

Bruno Toledo

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