Músicos no French Quarter, em Nova Orleans, em 1989 (foto: Brenda Anderson/Flickr)

O “berço do jazz”. A “rainha do Mississippi”. A cidade perdida no tempo, perdida em seu próprio tempo – “the city that care forgot”. Nova Orleans nunca foi uma cidade comum: com sua história peculiar, palco do encontro de diferentes culturas (franceses, espanhóis, norte-americanos, negros africanos, além de nativos), Nova Orleans sempre teve um ritmo diferente de qualquer outra cidade – uma receita que juntava uma sensação incomum de abandono, rebeldia, liberdade criativa e fervura cultural e racial. Não é à toa que ela reúne o maior número de músicos per capital nos Estados Unidos!

Há dez anos, Nova Orleans vivia um longo ostracismo. Submersa num fatalismo bastante característico, a cidade parecia caminhar para algum tipo de conclusão. Depois da luta racial que tomou conta da cidade nos anos 1950 e 1960, a maioria negra de Nova Orleans sentia-se desiludida com os resultados dessa luta histórica. A pobreza ainda era a marca da cidade, junto com as construções históricas erguidas pelos colonizadores franceses no século XVIII no hoje célebre French Quarter.

O fatalismo de Nova Orleans tem causa histórica. Em 1722, apenas quatro anos após sua fundação por exploradores franceses, a cidade foi devastada por um furacão, que destruiu praticamente todas as construções existentes. A Nova Orleans do French Quarter foi construída sobre as ruínas dessa antiga cidade, e carrega consigo as marcas desse desastre. Diques foram erguidos para conter a água do mar em tormentas, de forma a preservar as regiões mais baixas de Nova Orleans, ocupadas no decorrer do século XX para alimentar sua expansão urbana. Essas áreas foram sendo ocupadas por comunidades negras, que representam a maioria da população de Nova Orleans (em torno de 60%, o maior índice dentre as grandes cidades dos EUA).

No entanto, a manutenção desse sistema de proteção era bastante precária, e o poder público estadual e federal ignorava repetidos alertas sobre a vulnerabilidade de Nova Orleans em situações climáticas extremas, como furacões. Na véspera daquele final de agosto de 2005, a cidade parecia abandonada a sua própria desventura.

Aí, veio o Katrina.

Vista aérea da região central de Nova Orleans em 1º de setembro de 2005, com destaque para o Superdome (foto: US Navy/Wikimedia)

Três informações nos dão uma noção mais clara do estrago causado pela passagem do Katrina em Nova Orleans. Primeiro, o prejuízo de US$ 108 bilhões (valores de 2005), que permanece sendo um recorde mesmo após outros desastres naturais da mesma dimensão, como a passagem do furacão Sandy na costa leste nos EUA em 2012. Segundo, o fato de que, em 31 de agosto, cerca de 80% da cidade estava debaixo d’água (em alguns locais, a água subiu mais de 4 metros), com exceção de zonas urbanas localizadas em áreas mais altas (entre elas, a do French Quarter), construídas num plano mais elevado. E, finalmente, o fato de Nova Orleans ter perdido sua condição histórica de cidade mais populosa da Louisiana, posição que não foi recuperada até hoje.

Refugiados de Nova Orleans concentrados no Louisiana Superdome em 03 de setembro de 2005 (foto: tiger_in_houston/Flickr)

Obviamente, é ilusório pensar que o estrago foi causado pelo Katrina em si: se olharmos atentamente para a sequência de eventos e decisões tomadas, podemos ver a tragédia de Nova Orleans como o “pior desastre de engenharia do mundo desde Chernobyl”, como disse Raymond B. Seed, professor da University of California Berkeley à época do Katrina. Boa parte dos danos decorrentes da passagem do furacão na costa da Louisiana poderia ter sido evitada se as autoridades locais, estaduais e federais tivessem tomado decisões corretas e no tempo adequado. Infelizmente, nenhuma dessas autoridades estava preparada para lidar com isso: o impacto do Katrina em si foi potencializado de forma brutal com o despreparo das forças públicas em todos os níveis; num momento em que os EUA tinham tropas ativas em dois países do Oriente Médio, com toda logística e infraestrutura preparada para apoiá-las naquela distante região, as forças armadas do país não tinham condições logísticas de levar garrafas de água potável para um estádio de futebol abarrotado de desabrigados dentro do seu próprio território.

O Katrina fez emergir preocupações sobre a resiliência de grandes cidades para enfrentar desastres associados a eventos climáticos extremos, um perigo que pode tornar-se mais frequente com o avanço das mudanças climáticas. Mais do que ter uma infraestrutura resiliente em si, o caso de Nova Orleans deixou claro a necessidade de uma articulação coerente e efetiva entre os atores públicos e privados tanto na preparação quanto na resposta imediata ao desastre. Na era das mudanças climáticas, o custo da desarticulação, do despreparo e da inação pode ser grande demais, como o foi em Nova Orleans.

Membros de força tarefa de resgate em operação de busca e resgate em Nova Orleans (foto: Jocelyn Augustino/FEMA/Flickr)

Dez anos depois da passagem do Katrina, Nova Orleans ainda é uma cidade em reconstrução. Alimentada com bilhões de dólares destinados para os esforços de recuperação da cidade, Nova Orleans tornou-se um laboratório para experiências de inovação urbanística. Novos habitantes chegaram para auxiliar no esforço, trazendo um espírito diferente de empreendedorismo social em Nova Orleans. O fatalismo tão característico daquela cidade deu lugar para esperança: mais aberta e mais viva, pela primeira vez em muito tempo, Nova Orleans tem a oportunidade de construir um futuro melhor para si mesma. No entanto, as feridas abertas pelo vento do Katrina persistem.

Milhares de desabrigados do Katrina continuam distantes de Nova Orleans, em particular os mais pobres. Entre 2005 e 2015, a cidade perdeu quase 110 mil habitantes. As clivagens raciais são marcantes nesse cenário pós-Katrina: a população negra de Nova Orleans diminuiu consideravelmente, ainda que se mantenha majoritária na composição demográfica da cidade. Antigos bairros pobres, ocupados por comunidades negras, deram espaço para empreendimentos imobiliários ocupados em sua maioria por brancos de renda mais elevada. O custo de vida aumentou consideravelmente na região, penalizando bastante os mais pobres. Assim, no caso de Nova Orleans, um efeito colateral nítido da tragédia e dos esforços posteriores de reconstrução é a gentrificação da cidade.

Dez anos depois dos ventos do Katrina atingirem Nova Orleans, a cidade ainda luta para recuperar e manter o espírito rebelde e criativo que a fez célebre, ao mesmo tempo em que tenta se afastar do fatalismo que sempre carregou sobre si mesma.

Bruno Toledo

 

Com a conclusão dos trabalhos dos negociadores em mais uma rodada de discussão política em Bonn, na quinta passada, chegamos à reta final de um dos processos de negociação mais importantes e problemáticos dos últimos anos no âmbito das Nações Unidas. Faltam menos de seis meses para a abertura da decisiva Conferência do Clima de Paris, a COP 21, na qual os governos de 192 países deverão assinar um novo acordo climático global.

Nunca estivemos tão perto desse novo regime global para enfrentar as mudanças do clima. Ao mesmo tempo, na medida em que os entendimentos necessários não acontecem, também nunca estivemos tão distantes de um resultado final claro, robusto e eficiente. Faltando menos de um semestre para o martelo final em Paris, a sensação que se tem é que todas as definições necessárias para o acordo estão ficando para o último momento: a estrutura do acordo, os compromissos e a diferenciação das responsabilidades de cada país, o financiamento de esforços de mitigação e adaptação no mundo em desenvolvimento… Esses não são pontos triviais: são questões que atravancam as negociações internacionais em clima desde sempre, e, até o momento, não conseguimos chegar perto de entendimentos claros sobre elas.

Nas últimas duas semanas, os negociadores presentes em Bonn tinham como tarefa escrutinar detalhadamente o texto-base construído na última sessão de conversas, em fevereiro passado. Esse texto nada mais era do que uma sistematização de todas as opções possíveis de acordo, contemplando todos os interesses envolvidos na negociação – até por isso, o documento em si era um jumbo de 90 páginas, incongruente e incoerente. Mesmo depois de dez dias de discussões, os negociadores conseguiram rever apenas cinco páginas. Isso mesmo: pouco mais de 5% em dez dias!

Para que a situação não se tornasse irreversivelmente negativa, os negociadores concordaram em delegar aos co-presidentes do grupo de trabalho da Plataforma de Durban (ADP), que negocia os termos do futuro acordo no âmbito da UNFCCC, a tarefa de organizar uma revisão aprofundada do texto, a partir de consultas com diferentes coalizões negociadoras.

A promessa dos co-presidentes é apresentar uma proposta de texto no final de julho, de forma a facilitar as conversas nas próximas rodadas de negociação (em agosto e outubro). Laurent Fabius (foto ao lado), ministro do exterior francês e futuro presidente da COP 21, continua com a expectativa de concluir um texto final em outubro, dois meses antes da abertura da Conferência de Paris.  Mas o tempo, nesse caso, é ilusório: nesses seis meses, os negociadores terão apenas dez dias dedicados a essa tarefa de construção do texto final, o que aperta bastante a agenda de negociação até Paris.

A vagarosidade não é exatamente algo surpreendente nessa agenda de negociação – afinal, o que estamos discutindo hoje deveria ter sido finalizado, “num mundo perfeito”, há seis anos, quando os principais chefes de governo do mundo se reuniram para pagar um mico “tamanho-gorilha” na Conferência do Clima de Copenhague, a malfadada COP 15. Por ora, os principais negociadores, observadores e analistas preferem enxergar o cenário com uma dose cavalar de cautela. Sim, o avanço em Bonn foi risível, mas nos bastidores as impressões continuam mais otimistas. O anúncio do G7 sobre a concordância das maiores potências econômicas globais sobre a descarbonização da economia mundial ainda neste século, feito no domingo passado, foi bastante celebrado e teve ressonância nas conversas em Bonn. Mas nada concreto foi anunciado: metas, compromissos, iniciativas unilaterais… Apenas boas intenções.

Na verdade, até o momento, temos pouca coisa definida – e, do pouco definido, muita coisa pode ser insuficiente para termos um acordo consistente em Paris. O único avanço efetivo em Bonn foi a concordância dos negociadores em incluir REDD+, o mecanismo de redução de emissões por desmatamento, no futuro acordo.

“Não há nada de novo quanto ao conteúdo, nem sobre o formato leal. Ficou de fora da agenda [de Bonn] compromissos de países desenvolvidos. Os EUA, por exemplo, afirmam que estão dispostos a contribuir, mas não expressam compromissos reais”, argumentou Mark Lutes, do WWF Brasil, ao Observatório do Clima.

A falta de novidades é bastante incômoda, faltando apenas seis meses para a COP 21. Poucos países apresentaram à UNFCCC suas contribuições nacionalmente determinadas (INDCs, sigla em inglês), que são documentos nos quais os governos expressam suas possibilidades de ação e meta de redução para o futuro acordo. Desse pouco apresentado (que inclui países e grupos importantes, como Estados Unidos, Japão e União Europeia), estima-se que as pretensões expressas por estes países nas INDCs sejam insuficientes para estabelecer uma trajetória de redução das emissões que impeça o aumento da temperatura média global neste século acima dos 2°C. O Brasil é um dos países que ainda não submeteu sua INDC, que ainda está em processo de construção dentro do governo. A expectativa é de que as metas e contribuições brasileiras sejam apresentadas apenas no limite do deadline definido pela UNFCCC – outubro.

Em suma, faltando seis meses para a Conferência de Paris, precisamos superar barreiras e interesses divergentes que nos atrapalham há seis anos, se quisermos chegar a um acordo efetivo. Precisamos que os países assumam uma postura construtiva e proativa, que dê confiança a negociadores e observadores de que tudo será feito para se chegar a um resultado final concreto. Ao final deste ano, chegaremos à conclusão de mais um capítulo da luta da humanidade contra as mudanças climáticas: que essa conclusão nos dê as condições necessárias para escrever os próximos capítulos num tom mais otimista.

Bruno Toledo (fotos: IISD)

 

Entre os meses de abril e maio o coordenador do Programa Política e Economia Ambiental do GVces, Guarany Osório, participou do Programa de Liderança para Visitantes Internacionais patrocinado pelo Governo dos Estados Unidos da América.

O tema do Programa foi Climate Change Adaptation and Infrastructure Planning com duração de três semanas e contou com a participação de três profissionais, todos do Brasil.

O Programa, dentre seus objetivos específicos, buscou cobrir os seguintes tópicos:

- Estratégias de adaptação nos níveis federal, estadual e local;

- Melhores práticas em planejamento;

- Diferentes arranjos institucionais para lidar com Adaptação;

- Programas e tecnologias para prever e mitigar enchentes urbanas, elevação do nível do mar e secas prolongadas;

- Parcerias público-privado no tema mudanças climáticas;

- Programas de recuperação desenvolvidos após desastres naturais.

O programa foi iniciado em Washington DC, passando pelos estados de Minnesota, Colorado, Califórnia e Florida com uma programação intensa com governo federal, governos estaduais e locais, terceiro setor, empresas e universidades.

O programa foi uma oportunidade para compreender melhor a diversidade de ideias, diferentes soluções desenvolvidas e desafios existentes para o fortalecimento da resiliência do país face às mudanças climáticas. Ao mesmo tempo em aprendemos nas interações com diferentes instituições e iniciativas, também foi possível contar um pouco das experiências do GVces e de iniciativas brasileiras relacionas aos temas.

A seguir uma série de highlights sobre o Programa:

Reunião com o time de clima do Departamento de Estado norte-americano, em Washington DC. Equipe mantendo o otimismo para a Conferência do Clima de Paris, a COP21, que acontece em dezembro.

Este é o Minnesota Interagency Climate Adaptation Team (ICAT), um grupo de representantes de diferentes instituições estaduais comprometido com trabalhar de forma colaborativa e coordenar esforços para adaptação climática no Estado de Minnesota.

Esta é a vista da sala de reunião do National Center for Atmospheric Research (NCAR), em Boulder, Colorado. Eles estão desenvolvendo uma base de dados global sobre mudanças climáticas de domínio público, além de ferramentas para planejamento em conjunto com vários atores.

Este é o Staples Center, casa dos Los Angeles Lakers e do Clippers, espaço que une esporte e sustentabilidade, com o uso de energia solar, captação de água da chuva, tratamento e redução de resíduos, além de eficiência no uso de energia e água.

Finalmente, na Florida, participei de um painel de discussão com governos locais, acadêmicos e outros membros da delegação brasileira sobre o Plano de Ação do Sudeste da Florida sobre mudança do clima. Eles estão “replanejando” a infraestrutura das cidades costeiras – já que o mar segue invadindo partes da região e as projeções da FEMA indicam potencial elevação do nível do mar para as próximas décadas.

 

Passadas as eleições, a crise hídrica que se agrava em diversos estados se tornou a pauta do momento. Uma das vertentes dessa discussão trata diretamente de como nos adaptaremos às mudanças climáticas.

Na última semana, dois acontecimentos deram o que falar sobre o assunto e trouxeram informações importantes. Da perspectiva do Brasil, houve o lançamento do relatório “O Futuro Climático da Amazônia”, evento que teve apoio do Observatório do Clima. Já no panorama local da Cidade de São Paulo, aconteceu o lançamento da Aliança Água para São Paulo, puxada pelo Instituto Socioambiental, membro do OC, em parceria com outras instituições.

Para entender melhor a questão da água, será lançado esta semana, em São Paulo, o vídeo Água e Cooperação: Reflexões para um Novo Tempo, de João Amorim. O lançamento será na Sala Crisantempo, no dia 7/11, às 20h. Mais informações aqui.

Ricardo Barretto

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