Nos dias 23 e 24 de novembro aconteceu o 2º World Forum on Natural Capital em Edimburgo (Escócia) que se propunha a reunir líderes e compartilhar os últimos desenvolvimentos, aprendizados e casos reais para contribuir para o diálogo consistente sobre capital natural.

As sessões paralelas e conversas de corredor durante o Fórum deixaram evidente que a discussão no âmbito internacional sobre capital natural moveu do “se devemos medir e valorar o capital natural” para “quais os meios de gerenciá-lo de forma inteligente e qual o papel dos diversos atores”. Philipe Joubert (CEO da Green Option) conclui que não precisamos ter receio de valorar monetariamente pois os recursos naturais hoje já tem um preço, e esse preço é zero – o que significa que estamos mandando a conta para as próximas gerações.

Assim, o evento jogou luz às diversas iniciativas, programas, relatórios, casos, guias, ferramentas que buscam compreender e gerenciar o uso do capital natural pela sociedade de uma melhor forma.

Iniciativas pelo mundo

World Forum on Natural Capital

Os Objetivos Desenvolvimento Sustentável (ODS) foram claramente pano de fundo para diversas conversas já que muitos deles são relacionados diretamente com o capital natural.

Pavan Sukhder, Líder do estudo do TEEB (The Economics of Ecossystems and Biodiversity), falou sobre um novo estudo em desenvolvimento - TEEB for Agriculture & FOOD - que reunirá diversos atores para fazer uma avaliação econômica global da complexa tríade ecossistema-agricultura-alimentos. O objetivo é demonstrar que o ambiente econômico em que os agricultores operam é distorcido por externalidades significativas, tanto negativas como positivas, além da falta de consciência da dependência do capital natural.

Pushpam Kemar, Coordenador do Ecosystem Services Economics Unit da UNEPfalou sobre a necessidade de descolar o crescimento do consumo de capital natural e o projeto VANTAGE (Valuation & Accounting of Natural Capital for Green Economy).

No hall de índices que buscam ir além das métricas financeiras, foram citados: i) Índice do Capital Natural contido na Estratégia Nacional para o Capital Natural da Escócia que visa monitorar as mudanças anuais no capital natural baseado na avaliação do potencial de serviços ecossistêmicos; e ii) o Inclusive Wealth Index, que  mede a riqueza de um país em termos de progresso, bem-estar e sustentabilidade no longo prazo, a partir da medida do estoque de condições indutoras de riqueza.

A discussão chegou também âmbito da International Organization for Standardization (ISO) que começa agora a discutir a ISO 14008 sobre Valoração monetária de impactos ambientais de emissões específicas e recursos naturais.

Movimento empresarial

O discurso neste âmbito foi marcado pela inovação para uma economia verde como meio de garantir competividade e boa reputação. Philipe Joubert (CEO da Green Option) acredita que “nós mudamos o mundo se mudarmos os negócios”. Ele afirma que o setor privado é parte da solução e enfatizou que em um ambiente extremamente competitivo, devemos mudar a maneira que se mede sucesso dentro das empresas para mudar o comportamento delas.

Phillipe entende que as empresas não estão esperando pela regulação e que parte delas já estão se preparando para pagar um premium por capital natural. Para ele, o dinheiro existe e é uma questão de alocá-lo nos caminhos certos. Ainda, comentou que as grandes empresas já estão gerenciando o capital natural nas suas cadeias de valor.

World Forum on Natural Capital

Um exemplo é a Desso, uma empresa líder no mercado de carpetes que optou por uma estratégia diferenciada de valorar o capital natural do cradle to cradle” (berço ao berço), e então focando esforços nos elos mais relevantes em termos de impactos para o capital natural – que não são os mais evidentes à primeira vista. A madeira, por exemplo, representa 2% da sua matéria prima e 50% do seu impacto sobre o capital natural!

Outros mostraram como a parceria com outros setores pode ser muito produtiva. É o caso da Dow Chemical que em conjunto com a TNC desenvolveu a ferramenta ESII (Ecosystem Service Identification and inventory tool) para auxiliar na mensuração e valoração dos SEs como inputs para a estratégia de conservação da empresa. Uma das soluções foi incluir um “filtro” na análise dos projetos para checar como este influencia nos SEs (Nature´s Future Value – NFV).

No setor de seguros, Jayne Plunkett da Swiss Re falou sobre o desafio da precificação dos riscos futuros – uma vez que o mundo está mudando e os riscos são complexos e interconectados. Ela falou sobre o estudo “Shaping climate-resilient development: a framework for decision-making” que auxilia na mensuração dos riscos climáticos.

Ferramentas

Infográfico TeSE

Clique na imagem para vizualizar o infográfico da TeSE

Uma das sessões de discussão tratou de Inovação & Ferramentas – onde a TeSE (Tendências em Serviços Ecossistêmicos, projeto do GVces) foi apresentada como uma das iniciativas para as empresas compreenderem sua relação com os SE.

Katherine Garrett da Alliance Trust, falou da grande diversidade de ferramentas existentes para empresas medirem seu capital natural como um movimento normal em um momento de inovação. No entanto, entende que existe a necessidade de padronizar a forma como capital natural é medido.

Neste contexto, a provocação sobre se a existência de tantas ferramentas contribui ou atrapalha dividiu a plateia igualmente entre aqueles que acreditam que é bom, tendo em vista a diversidade de necessidades das empresas; e aqueles que acham ruim, dada a dificuldade de comparar e entender qual a melhor abordagem.

Em meio a tantas ferramentas, foram apresentados “guias para os guias”, isto é, guias sobre como escolher a melhor abordagem para medir o capital natural, por exemplo o Eco – 4Biz (WBCSD) e Natural Capital Accounting for Business: Guide to selecting an approach (Programa de Business and Biodiversity da UE).

O evento também foi palco para o lançamento da consulta pública do The Natural Capital Protocol, que visa contribuir para a padronização em nível global da abordagem para valoração qualitativa, quantitativa e monetária das dependências e impactos das empresas no capital natural a partir da sistematização das fermentas existentes e preenchimento dos gaps encontrados no processo.

Disclosure – o que e para quem

Concordado em medir e valorar, falou-se na necessidade de reportar informações sobre o capital natural. Os acionistas estão esperando estas informações? O que os financiadores e acionistas querem saber? Jane Stevensen, Diretora da Climate Disclosure Standards Board (CDSB), ressalta o desafio de que a informação disponibilizada seja usada e que é difícil comparar empresas. Comentou que neste momento é importante a possibilidade de comparar as empresas com elas mesmas (no tempo e em relação a metas) e não necessariamente com outras. Ainda trouxe que os fundos de investimento começaram a entrar na discussão.

Do discurso inspirador da primeira ministra da Escócia Nicola Sturgeon sobre a relevância da união dos conhecimentos de dois pensadores escoceses John Muir e Adam Smith ao panorama trazido pelo Fórum, ficou evidente que a discussão sobre capital natural se tornou uma tendência mundial. Mais do que isso, há um desejo claro de que a gestão inteligente do capital natural pela sociedade seja o “novo normal”.

Natalia Lutti

 

No período de 01 a 07 de novembro estive em Pequim, na China, onde participei do Sustainable Infrastructure Development – Challenges and Opportunities for Emerging Economies. O evento foi promovido pela GIZ, agência vinculada ao Ministério de Desenvolvimento Econômico e Cooperação da Alemanha, no contexto da iniciativa Economic Policy Forum – uma rede global de think tanks de economias emergentes.

Não bastasse a riqueza e diversidade dos conteúdos apresentados pelos participantes, pude viver a incrível experiência de estar em Pequim, uma cidade em permanente transformação, símbolo do apetite chinês pelo crescimento e expressão de uma cultura Oriental milenar que tenta construir uma nova identidade a partir da crescente aproximação com o Ocidente.

Apesar de tudo ter ocorrido muito rápido entre o convite para participar do evento e a viagem em si, tentei me preparar minimamente para a experiência. Afinal era um sonho antigo, inspirado pela ideia de que quem milita no campo da sustentabilidade precisa conhecer a China para, de fato, ampliar o entendimento sobre os desafios do desenvolvimento sustentável. Nessa preparação conversei com várias pessoas e li o quanto pude. Me ajudou muito a conversa com o Leeward Wang, colega antenadíssimo, descendente de chineses e que já visitou o país algumas vezes, além das leituras da edição 92 da Revista Página 22 sobre a China; dos livros Age of Ambition – chasing fortune, truth and faith in the new China, de Evan Osnos; e Mudança, do escritor chinês Mo Yan, Nobel de Literatura em 2012.

A agenda começou no dia 2 de novembro com uma visita à Grande Muralha da China. Não sei se a intenção dos organizadores foi essa, mas para mim que ainda estava sob os efeitos do jet lag, significou a imediata conexão com a realidade de um país que convive com tradições ancestrais e taxas de crescimento sem precedentes na era moderna: em 1978 o país tinha uma renda per capita de $ 200, enquanto em 2014 ela alcançou $ 7.500, num cenário em que se projeta, segundo o 13º Plano Quinquenal do Governo (2016-2020), um crescimento médio e constante do PIB de 6,5 a 7% ao ano até 2020.

Nos dias 3 e 4 tivemos vários painéis de diálogo relacionados a projetos de infraestrutura, com foco nos desafios e oportunidades no campo da sustentabilidade. Destes painéis participaram cerca de 30 profissionais de países como China, México, Turquia, Alemanha, Suíça, EUA, Índia, Bangladesh, África do Sul e Singapura. Eu era o único representante do Brasil e fiz parte do painel Designing Infrastructure Policy, que foi mediado por Mariana Silva, do International Institute for Sustainable Development, da Suíça, e também contou com Yüksel Görmez, do Banco Central da Turquia; Emmanuel Owusu-Sekyere, do Africa Institute of South Africa; Wajid Hasan Shah, do Bangladesh Institute for Development Studies; e Shubh Soni, do Observer Research Foundation da Índia. Minha apresentação abordou a experiência do GVces no âmbito do programa Desenvolvimento Local, com destaque para o projeto “Diretrizes para Políticas Públicas e Práticas Empresariais em Territórios para Instalação e Operação de Grandes Empreendimentos na Amazônia”, que estamos desenvolvendo em parceria com o IFC (International Finance Corporation).

Dos dois dias de diálogos vários conteúdos merecem destaque, entre eles a explicação do Diretor da GIZ, Oliver Auge, sobre o novo perfil de atuação da organização na China a partir do reconhecimento, pelo governo da Alemanha, de que a China não é mais um país em desenvolvimento. Com isso o papel da GIZ passou a ser de construção conjunta de soluções com a China, a exemplo das iniciativas de comércio de emissões de gases de efeito estufa (Emission Trading Systems) que estão em curso em diversas províncias chinesas. Quanto ao tom dos diálogos, esteve muito presente uma frase de Robert Lucas, prêmio Nobel de economia em 1995, citada no primeiro painel, segundo o qual “once you start thinking about growth, it’s hard to think about anything else.”

Na perspectiva dos chineses, certamente essa frase acima gerou múltiplas reações e ficou como pano de fundo para dois aspectos que me chamaram muito a atenção sobre a China contemporânea. O primeiro diz respeito ao reconhecimento e priorização dos desafios da sustentabilidade, entre eles a poluição atmosférica e seus efeitos, os quais já impactam fortemente os custos da saúde pública. O segundo refere-se à liderança cada vez maior que a China vem assumindo no cenário internacional, de modo deliberado e planejado, como investidor direto em países estrangeiros; e as inevitáveis consequências disto sob o ponto de vista da geopolítica.

Um exemplo contundente desta ação planejada no cenário internacional é a Belt and Road Initiative (BRI), lançada pelo presidente da China, Xi Jinping, em 2013. Trata-se de uma estratégia de desenvolvimento baseada em conectividade e cooperação entre países da Ásia, Europa e África com dois eixos principais: a via terrestre Silk Road Economic Belt; e a Maritime Silk Road, pelo oceano. A iniciativa conta com cinco grandes áreas de cooperação: política de comunicação, conectividade dos modais de transporte, redução de barreiras ao comércio, circulação de dinheiro e compreensão cultural.

Apesar de não explicitado pelos chineses com quem tive contato, todos porta vozes entusiasmados da BRI, há uma evidente preocupação da China em garantir os fluxos de exportação e importação do país, de modo a manter o ritmo de crescimento da sua economia.

Na tarde do segundo dia do workshop nos dedicamos a identificar oportunidades de atuação conjunta entre os participantes, que pudessem se desdobrar em publicações ou projetos reunindo mais de um think tank. Várias frentes de trabalho foram mapeadas, entre elas os instrumentos financeiros, a atuação dos bancos nacionais e multilaterais de desenvolvimento, as PPPs, a necessidade de standards para projetos de infraestrutura, entre outros. A mim coube a liderança de um grupo de trabalho composto por colegas dos EUA e México, que irá tratar dos standards.

Passados os dois dias de workshop, a programação previa visitas a duas organizações chinesas, o que se deu no dia 5 de novembro. A primeira visita foi na Beijing New Century Academy on Transnational Corporations (BNCATC), um think tank vinculado ao Ministério do Comércio da China, onde fomos recebidos pela Vice-Presidente, Dra. Jenny Jiangheng. Constituída a partir do trabalho de pesquisa da Dra. Jiangheng, a organização se dedica a mapear e avaliar os riscos éticos e socioambientais associados aos países onde as empresas chinesas têm ou planejam ter investimentos. Esses estudos são base para influenciar as tomadas de decisão junto ao governo e ao setor privado. Uma constatação decorrente da conversa foi a necessidade imperiosa de uma rede de organizações locais confiáveis, dos países analisados, que pudesse alimentar a BNCATC com informações e recomendações.

Na segunda visita fomos recebidos na Renmin University of China por uma equipe do Chongyang Institute for Financial Studies, um dos principais think tanks chineses com atuações relevantes nas áreas de macroeconomia, modernização da governança, finanças para internet, reforma bancária, microfinanças e green finance. Aqui um dos destaques foi a atuação do Instituto no aconselhamento ao governo chinês, incluindo o Banco Central da China, em temas de green finance. Entre os aconselhamentos em curso está a participação do Instituto na Inquiry into the Design of a Sustainable Financial System, promovida pelo Programa da ONU para Meio Ambiente (PNUMA).
Terminada a agenda do evento pude dedicar dois dias para visitar Pequim, numa semana que começou ensolarada na Grande Muralha e terminou com neve na sexta-feira, a qual chegou bem antes do previsto segundo os padrões climáticos da região. Esta neve antecipada levou a cidade a ativar mais cedo o aquecimento das residências e prédios comerciais, pressionando a já elevada queima de combustíveis fósseis. E tome poluição!

Mas é claro que nem neve, nem chuva, muito menos o frio, foram suficientes para aplacar meu ânimo em conhecer um pouco da cidade. E foi o que fiz num breve mas atento mergulho pelas largas avenidas, ruelas, monumentos, prédios modernos, estações de metrô (que metrô!), restaurantes e mercados de Pequim.

Desse breve e atento mergulho em Pequim, emergi com a certeza de que, assim como o Brasil, a China não é para principiantes. Conhecê-la leva tempo. E esse tempo para mim apenas começou!

Paulo D. Branco

 

Baía de Paranaguá – agosto de 2015

Entre os dias 26 e 28 de agosto, 12 representantes de empresas-membros das Iniciativas Empresariais do GVces participaram da Jornada Empresarial Terceira Margem, em que os participantes são convidados a ir a campo e questões relativas aos temas de cada Iniciativa podem ser compreendidas de maneira integrada e na complexidade com que se dão na prática.

Nesta edição – a primeira foi em 2013 em Extrema/MG para conhecer o Programa Conservador das Águas – o grupo foi à Baía de Paranaguá, no litoral norte do Paraná, região com o pior IDH do estado e que conta com a presença de um dos maiores portos do país e diversas unidades de conservação ambiental, que compõem o maior remanescente de mata atlântica brasileira.

Tendo em vista o paradigma presente na região, que coloca como conflitantes o desenvolvimento socioeconômico e a conservação ambiental, o grupo teve como desafio a investigação dos diversos modelos de desenvolvimento presentes no território a partir da conversa com atores como representantes do porto, de organizações ligadas à preservação ambiental e de comunidades ligadas à pesca e outros pequenos empreendedores.

Os três dias em campo e o conteúdo e percepções das visitas e conversas são relatados no diário a seguir:

1º dia

Após a chegada em Paranaguá pela manhã, fizemos uma roda de conversa para apresentação do grupo e levantamento de expectativas, na qual cada um também respondeu à pergunta “O que é desenvolvimento para você?”. As respostas ajudaram o grupo a se conhecer e iniciar as conversas da Jornada já com um olhar investigativo sobre os modelos de desenvolvimento presentes naquele território, que retomaríamos no último dia.

Dali partimos para nossa primeira visita: o porto de Paranaguá.

Fomos recebidos na sede da APPA – Administração do Portos de Paranaguá e Antonina pelo André Oliveira, profissional ligado à superintendência do porto e responsável pela estatística. Depois de fazer uma apresentação para o grupo trazendo os números surpreendentes ligados à operação, por cujo corredor passam anualmente 14 milhões de toneladas de soja, milho, farelo de soja e açúcar, além de serem movimentados 680 mil contêineres, 230 mil veículos, gerando uma receita cambial das exportações de 17,6 bilhões de reais, fomos levados a percorrer o cais e ver de perto as embarcações operando.

Foi um momento importante para o grupo relacionar as contradições ligadas à importância do porto para nossa sociedade – como porta de entrada e saída de bens essenciais, gerador de emprego e renda etc. – e aos fortes impactos socioambientais consequentes.

No final do dia, recebemos em nosso hotel o Clóvis Borges, fundador e diretor-executivo da SPVS – Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, que foi acompanhado da Sueli Alves, representante da Cooperguará – Cooperativa de Turismo de Base Comunitária de Guaraqueçaba, e do Antônio e do Mateus, da Acriapa – Associação de Criadores de Abelhas Nativas da APA de Guaraqueçaba.

A SPVS tem um papel importante na conservação da natureza na região, mantendo algumas reservas na APA de Guaraqueçaba, entre outras atividades, como o incentivo à criação da Cooperaguará e da Acriapas, organizações que buscam gerar renda à comunidade aliada à preservação da floresta. Vale destacar que a Cooperguará foi nossa parceira em campo para articular as nossas visitas e viabilizar transporte, acomodação e alimentação para o grupo.

O Clóvis trouxe para o grupo um panorama geral dos atores mais importantes na região e a falta de articulação entre eles para se pensar uma agenda de desenvolvimento para o local que contemplasse a conservação da floresta.

Na conversa com a Sueli, o Antônio e o Mateus ouvimos as dificuldades de manter um negócio, como a burocracia, a gestão etc., em especial no caso de produtos e serviços como os oferecidos por eles (mel de abelhas nativas e turismo de base comunitária). Os três falaram, por outro lado, sobre como mudou a vida deles e a realidade da região após a criação das organizações de que fazem parte, pois antes eles trabalhavam em fazendas de búfalo que foram convertidas em reserva florestal, para a qual contribuem agora com sua preservação.

2º dia

O nosso segundo dia seria mais intenso: após quase 3 horas em um barco, chegamos à Ilha Superagüi, Parque Nacional de 33.988 ha em que vivem algumas espécies ameaçadas de extinção e uma comunidade de cerca de 700 famílias, a maioria de pescadores.

Após uma breve caminhada – que teve o percurso alterado por causa de uma ponte quebrada (isso sim é conhecer o lugar de perto!) – chegamos à sede do ICMbio.

Conversando com a equipe do Instituto, soubemos dos desafios de se gerenciar uma Unidade de Conservação em que vive uma comunidade e para a qual está sendo desenvolvido um plano de manejo: como acolher todos os interesses divergentes?  A comunidade, que já estava lá antes da Ilha se tornar um Parque, se sente prejudicada por não poder mais cultivar sua roça e por não ter sido devidamente ouvida; os órgãos responsáveis pelo plano alegam terem sido mais inclusivos e permissivos do que o exigido (a rigor, em uma Unidade de Conservação não deveria ter uma comunidade estabelecida).

Todas essas provocações, feitas em contato direto com a natureza exuberante do local e com o modo de vida das comunidades, contribuiram bastante para as reflexões do grupo sobre os modelos de desenvolvimento para a região e para a percepção de que há uma dificuldade muito grande de diálogo entre os diversos atores.

Após a conversa no ICMbio, almoçamos no restaurante Golfinho, associado da Cooperguará, e conversamos com o marido da proprietária, o Seu Nagib, um pescador da Ilha, que nos contou sobre sua atividade e as dificuldades que os pescadores artesanais têm tido de competir com barcos maiores, de pesca industrial.

Depois de todas essas conversas e novas informações sobre aquela realidade, subimos de novo no barco, tendo como destino a cidade de Guaraqueçaba.

Em nosso caminho presenciamos um espetáculo único naquela região: a revoada do papagaio-da-cara-roxa, espécie que habita a ilha do Pinheirinho, no caminho de Superagüi para Guaraqueçaba, e passa o dia na ilha em frente. Todos os dias, no final do dia, os papagaios fazem uma revoada, sempre de dois em dois, para “ voltar para casa”.

3º dia

No nosso último dia em campo, acordamos bem cedo e fomos para o Salto Morato, uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

Foi importante para o grupo conhecer as diferenças entre os modelos público e privado de gestão de áreas de conservação, bem como as características de áreas habitadas e não habitadas – que é o caso do Salto Morato.

Aproveitamos a beleza cênica do local para fazer o encerramento de nossa jornada com vista para a cachoeira que dá nome à Reserva.

Em uma roda de conversa, o grupo pôde compartilhar suas percepções sobre o território e sobre a experiência, além de revisitar a pergunta “O que é desenvolvimento para você?”.

Ficou muito forte para todos a necessidade de maior articulação, diálogo e busca por convergência de interesses entre os atores da região, situação que é similar à de muitos territórios em que as empresas do grupo atuam e deve inspirar sua atuação.

Com essa segunda experiência integradora no âmbito das Iniciativas Empresariais o GVces fortaleceu a sua crença de que experiências em campo são um espaço privilegiado de aprendizagem, troca de experiências e desenvolvimento pessoal.

Para os próximos ciclos, esperamos contar com cada vez mais representantes de empresas conosco nessa jornada e explorar temas em sustentabilidade que representem ao mesmo tempo desafio e inspiração às empresas.

Por Manuela Santos

 

Efeitos das mudanças climáticas na pequena nação insular de Kiribati (foto: UN Photo/Eslinder Debebe)

Em 2013, UNESCO, Fundação Avina e cinco universidades da América Latina fundaram uma rede com o objetivo de debater e atuar articuladamente para a aproximação entre conhecimento científico sobre mudanças climáticas e processos de tomada de decisão no âmbito de políticas públicas e privadas. Desde então foram promovidos dois simpósios regionais, o segundo, do qual participei, aconteceu nos dias 19 e 20 de agosto de 2015, em Montevidéu.

O evento uniu representantes de governos nacionais e subnacionais de Chile, Uruguai, Paraguai e Argentina, organizações internacionais, como CDKN e CEPAL, instituições de pesquisa de Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Peru, Uruguai e América Central e algumas poucas empresas. A Escola de Direito da FGV e o GVces estavam lá.

Alinhado ao objetivo da rede, o Simpósio promoveu reflexões e debate sobre:

  • integração entre ciência, política e sociedade; e
  • caminhos para a articulação das disciplinas, necessária à compreensão da realidade e inserção da agenda de mudanças climáticas nas instituições e seus processos.

Partindo de desafios compartilhados na região, questões para reflexão comuns aos países e organizações foram propostas pelos palestrantes e mediadores. Não foram encontradas respostas contundentes, mas compartilhadas lições aprendidas, conclusões de pesquisas e apontados possíveis caminhos.

Entre os desafios regionais, destacam-se:

  • estabelecer uma relação de apoio das comunidades científicas aos governos;
  • que o conhecimento acadêmico tenha sentido para e seja capilar na sociedade, empresas e governos;
  • a preparação do sistema científico e instituições acadêmicas para a interdisciplinaridade na produção de conhecimento e na extensão;
  • superação da noção geral e individualista de que o que cada organização faz é a peça mais importante do quebra-cabeça;
  • a dedicação à efetiva criação de conhecimento junto a outros atores, como comunidades e empresas, que por vezes são entendidas apenas como fontes de informações, para consulta; e
  • sistematização de casos em que mitigação e adaptação tenham sido integradas à agenda de desenvolvimento na América Latina.

As questões provocadoras mais interessantes foram:

  • quem financia a pesquisa científica na região e quais os interesses imbricados?
  • busca-se excelência no ensino e pesquisa, mas o que é “excelência”, que indicadores deveriam estar sendo monitorados?
  • as instituições possuem espaços efetivos para que o conhecimento flua? Que espaços são ou como poderiam ser?

O norte adotado em diversas falas, pano de fundo para os desafios, questões e caminhos apontados é a construção de um modelo de desenvolvimento em que as agendas ambiental e social sejam tão relevantes e tenham tanto peso quanto a econômica. Por isso provocações giraram em torno e desembocaram em como influenciar a tomada de decisão nas instâncias governamentais que respondem pela agenda de desenvolvimento.

Um dos painéis foi elucidativo ao enfrentar diretamente essa questão e trouxe quatro barreiras, que os palestrantes enxergam como mais importantes, para a inserção das mudanças climáticas nos critérios e processos de tomada de decisão relacionada à agenda de desenvolvimento:

  • falta de transversalidade horizontal e vertical entre os níveis e instâncias governamentais;
  • decisões de curto prazo (tempo dos mandatos) versus os horizontes mais longos das mudanças climáticas;
  • assimetria de poder entre as áreas e agendas de governo; e
  • falta de sistemas de monitoramento das políticas públicas.

Os desenhos organizacionais que vêm se desenhando na região logram responder a uma parcela dessas barreiras, dependendo do contexto político-institucional:

  • Comissões ou unidades de coordenação interministerial – congregam diferentes agendas e visões, mas tendem a replicar a assimetria de poder.
  • Escritórios de mudanças climáticas em diferentes ministérios – a experiência mostra baixa capacidade de influência.
  • Funções de coordenação em organismos de planejamento – pouco efetivo na integração e construção de agenda interdisciplinar.
  • Organismos relativamente autônomos de poder político, desvinculados dos ciclos de mandato e, portanto, capazes de liderar projetos de longo prazo (ex.: Dirección General de Irrigación de Mendonza) – dificuldade em conectar os projetos e programas a outros liderado por ministérios e agências nacionais.
  • Alocação do tema na presidência (ex.: PPCDAM coordenado pela Casa Civil no Brasil) – dependência em relação ao líder político no cargo.
  • Alocação em ministérios-chave (ex.: Política Energética 2050 do Uruguai) – risco da agenda mudanças climáticas ser “fagocitada” pelas outras.

Dessa forma, não haveria (ainda) uma configuração institucional que solucione todos os desafios, mas sim relações de trade-offs estabelecidas entre os arranjos mapeados. Combinado a qualquer um deles, devem ser estruturados sistemas de monitoramento e avaliação de políticas, projetos e metas. Como suporte a esse processo, faltam estudos que mapeiem os sistemas e indicadores em utilização.

Menos palpáveis, os caminhos para o alcance da interdisciplinaridade (ou ainda, na fala mais ambiciosa de alguns, a transdisciplinar idade) e as mudanças climáticas como agenda transversal a todas as pastas, áreas e tomadas de decisão passam necessariamente pela formação dos atuais e futuros líderes. A revisão do modelo de educação, especialmente em nível superior, já que se trata de uma rede de universidades, parece ser uma medida fundamental, mas ainda complexa demais para que se saiba por onde começar. Inevitável lembrar aqui da eletiva Formação Integrada para Sustentabilidade – FIS, uma das inovadoras e corajosas empreitadas do GVces que enfrentam questões estruturais como essa, do modelo educacional.

Mariana Nicolletti

 

 

Que o comércio de emissões tem sido adotado por um número crescente de jurisdições no mundo para limitar as emissões de gases de efeito estufa (GEE) não é novidade. O que chama atenção é o fato de muitas delas serem economias em desenvolvimento, como a China e a Coréia do Sul.

Durante os dias 12 e 17 de julho, especialistas de 14 países em desenvolvimento se reuniram em Londres para discutir como conciliar desafios associados à redução de pobreza e à disponibilidade de tecnologia para mitigação, entre outros, com o desenho de sistemas de comércio de emissões. O curso avançado em comércio de emissões foi organizado pelo ICAP e contou com a palestrantes de diversas organizações envolvidas na concepção e operação do European Union Emissions Trading System (EU ETS), principal mercado de permissões para emitir GEE.  A pesquisadora Inaiê Santos representou o GVces no evento, compartilhando algumas experiências da Simulação de Sistema de Comércio de Emissões da Plataforma Empresas Pelo Clima (SCE EPC).

Ficou claro que esse instrumento de mitigação ainda se insere numa área do conhecimento que está em evolução, à medida que entram em operação outros mercados (como os da Califórnia-Québec e os pilotos chineses) e o EU ETS tem alguns de seus mecanismos de funcionamento revisados. Portanto, o desafio de implementação desse instrumento não se restringe às circunstâncias socioeconômicas de economias emergentes; ele ainda é alvo de debate nos países em que se encontra relativamente consolidado.

Uma das principais polêmicas que giram em torno do EU ETS tem a ver com o fato de o preço das permissões estar muito baixo. Para alguns especialistas, os preços observados recentemente não são suficientes para que os agentes econômicos busquem alternativas de insumos e tecnologias menos intensivas em emissões. Outros acreditam que os preços baixos refletem justamente o sucesso do instrumento, uma vez que seu objetivo é atingir a meta de redução de emissões ao menor custo possível.

Uma interessante observação que emergiu em mais de uma ocasião durante o curso foi que os sinais para que investidores e outros tomadores de decisão façam a transição para uma economia de baixo carbono não precisam necessariamente estar nos preços. A percepção de que existe e continuará a existir no futuro uma restrição sobre as emissões de GEE – mensagem subjacente ao cap decrescente no EU ETS, por exemplo – também contribui para que os agentes econômicos comecem a tomar decisões que favorecem tecnologias menos intensivas em carbono hoje, sobretudo para investimentos que têm um longo prazo de maturação.

Apresentação do desafio colocado ao grupo integrado pela pesquisadora do GVces: ‘Ways towards a global carbon market – bottom-up or top-down? What impulses can be expected from Paris?’

Representantes da América Latina – México, Colômbia, Costa Rica e Brasil

 

Entre os meses de abril e maio o coordenador do Programa Política e Economia Ambiental do GVces, Guarany Osório, participou do Programa de Liderança para Visitantes Internacionais patrocinado pelo Governo dos Estados Unidos da América.

O tema do Programa foi Climate Change Adaptation and Infrastructure Planning com duração de três semanas e contou com a participação de três profissionais, todos do Brasil.

O Programa, dentre seus objetivos específicos, buscou cobrir os seguintes tópicos:

- Estratégias de adaptação nos níveis federal, estadual e local;

- Melhores práticas em planejamento;

- Diferentes arranjos institucionais para lidar com Adaptação;

- Programas e tecnologias para prever e mitigar enchentes urbanas, elevação do nível do mar e secas prolongadas;

- Parcerias público-privado no tema mudanças climáticas;

- Programas de recuperação desenvolvidos após desastres naturais.

O programa foi iniciado em Washington DC, passando pelos estados de Minnesota, Colorado, Califórnia e Florida com uma programação intensa com governo federal, governos estaduais e locais, terceiro setor, empresas e universidades.

O programa foi uma oportunidade para compreender melhor a diversidade de ideias, diferentes soluções desenvolvidas e desafios existentes para o fortalecimento da resiliência do país face às mudanças climáticas. Ao mesmo tempo em aprendemos nas interações com diferentes instituições e iniciativas, também foi possível contar um pouco das experiências do GVces e de iniciativas brasileiras relacionas aos temas.

A seguir uma série de highlights sobre o Programa:

Reunião com o time de clima do Departamento de Estado norte-americano, em Washington DC. Equipe mantendo o otimismo para a Conferência do Clima de Paris, a COP21, que acontece em dezembro.

Este é o Minnesota Interagency Climate Adaptation Team (ICAT), um grupo de representantes de diferentes instituições estaduais comprometido com trabalhar de forma colaborativa e coordenar esforços para adaptação climática no Estado de Minnesota.

Esta é a vista da sala de reunião do National Center for Atmospheric Research (NCAR), em Boulder, Colorado. Eles estão desenvolvendo uma base de dados global sobre mudanças climáticas de domínio público, além de ferramentas para planejamento em conjunto com vários atores.

Este é o Staples Center, casa dos Los Angeles Lakers e do Clippers, espaço que une esporte e sustentabilidade, com o uso de energia solar, captação de água da chuva, tratamento e redução de resíduos, além de eficiência no uso de energia e água.

Finalmente, na Florida, participei de um painel de discussão com governos locais, acadêmicos e outros membros da delegação brasileira sobre o Plano de Ação do Sudeste da Florida sobre mudança do clima. Eles estão “replanejando” a infraestrutura das cidades costeiras – já que o mar segue invadindo partes da região e as projeções da FEMA indicam potencial elevação do nível do mar para as próximas décadas.

 

7o Fórum Mundial da Água ocorreu entre os dias 12 e 17 de abril nas cidades Daegu (foto) e Gyeongbuk, na Coreia do Sul. Promovido pelo Conselho Mundial da Água, o maior evento internacional sobre o tema ocorre a cada três anos e, em 2015, contou com a participação de 40 mil visitantes de 168 países, incluindo nove chefes de estado, 80 ministros e 100 delegações oficiais.

Durante o Fórum, este conjunto de atores multilaterais buscou soluções inovadoras para os atuais e futuros desafios da gestão sustentável da água, um bem público cada vez mais escasso e precioso. Em Daegu, o “Pavilhão Brasil” reuniu os brasileiros que participaram do Fórum, onde foram feitas apresentações por diversos atores envolvidos no tema. Foram apresentados, entre outros, os projetos que receberam o Prêmio ANA 2014 (categorias empresa, ensino, governo, imprensa, ONG, organismos de bacia e pesquisa e inovação tecnológica).

Os pesquisadores do Programa Política e Economia Ambiental do GVces, Alexandre Gross e Guilherme Lefèvre, foram convidados pela Agência Nacional de Águas (ANA) a apresentar os resultados da pesquisa “Análise custo-benefício de medidas de adaptação às mudanças climáticas na bacia hidrográfica do PCJ”.  O Estudo (pdf), encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente e realizado em parceria com a ANA, buscou aprofundar o entendimento sobre a aplicação de análises custo-benefício para a priorização de medidas adaptativas em um cenário de mudanças climáticas na Bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. A pesquisa foi apresentada na programação do Fórum durante o evento “Enhancing resilience through robust water policies and appropriate water management”, organizado pelo Alliance for Global Water Adaptation (AGWA) e UNESCO (International Hydrological Programme) e na agenda do Pavilhão Brasil.

Os resultados encontrados mostram que, sem processos adaptativos, as perdas econômicas incrementais na bacia representariam um percentual significativo do PIB da região em 2050. Em especial, só as perdas causadas pela mudança climática podem representar cerca de 25% a 40% destas perdas incrementais totais estimadas. Em outras palavras, um planejamento que não levasse em conta a mudança do clima estaria negligenciando pelo menos um quarto das perdas potenciais futuras causadas pela escassez hídrica nos usos analisados, ou seja, deixando de ver uma boa parte do problema.

O estudo também avaliou custos e benefícios da adoção de 10 medidas adaptativas, tais como a construção de barragens, reuso de águas cinzas, irrigação eficiente, incentivos econômicos etc.

As mudanças climáticas trazem impactos, traduzidos em desastres naturais e escassez de recursos ambientais, que já afetam e tendem a afetar ainda mais a economia e a sociedade brasileira. Medidas adaptativas devem ser pensadas como alternativas para evitar danos maiores às pessoas e ativos sob risco. Nesse contexto, a pesquisa apresentada durante o Fórum faz parte de um trabalho mais amplo realizado pelo GVces, que desenvolveu uma base teórica para a criação do Plano Nacional de Adaptação. O Plano, que vem sendo construído pelo governo federal, oferecerá uma estrutura regulatória para nortear a política brasileira em relação ao tema Adaptação. Seu objetivo maior é fortalecer a capacidade adaptativa do País, tornando nossa sociedade cada vez mais preparada para enfrentar os impactos da mudança global do clima.

Guilherme Lefèvre e Alexandre Gross

 

No período de 3 a 5 de novembro tive o privilégio de participar de um grupo convidado pela Natura para visitar uma de suas comunidades fornecedoras e sua planta industrial em Benevides, no estado do Pará.

Formado por 31 pessoas ligadas aos temas de comunicação, moda e sustentabilidade, este grupo pôde ver de perto a execução de um modelo de negócios ousado, complexo e inspirado pela possibilidade de transformar os desafios do desenvolvimento sustentável em oportunidades de criação de valor compartilhado.

No primeiro dia chegamos em Belém no início da tarde, ainda em tempo de uma rápida visita a lugares que expressam os encantos desta cidade alegre, acolhedora e fortemente influenciada pelo convívio com a floresta amazônica, da qual herdou ingredientes que são base para uma culinária que explode em aromas e sabores.

Na manhã do segundo dia, após três horas de carro em estradas com asfalto precário ou mesmo de terra, começamos a experimentar um pouco da complexidade de uma cadeia de valor que optou pelo uso sustentável de ativos da sociobiodiversidade. Ativos como murumuru, açai, cupuaçu, castanha do Brasil e andiroba, que são fornecidos por cerca de três mil e quinhentas famílias organizadas em 35 comunidades, das quais 25 na região amazônica, como é o caso da Associação Jauarí, que há oito anos se relaciona com a Natura. Localizada nas margens do rio Moju, caudaloso como só os rios da Amazônia sabem ser, esta comunidade nos proporcionou uma experiência inesquecível do que a Natura chama de bem estar bem, ou seja, o convívio harmonioso consigo mesmo, com os outros e com o mundo à nossa volta.

Entre caminhadas na mata, banho de rio, alimentação saudável, dança do carimbó e conversas com significado, nosso grupo conheceu pessoas que têm clareza do que é liberdade e, por isso, optaram por um modelo de desenvolvimento que lhes permite viver com dignidade e em estreita sintonia com o ambiente em que estão inseridas.

Se a ida para a comunidade de Moju revelou os obstáculos logísticos do transporte rodoviário, a volta para Belém nos mostrou a faceta da imprevisibilidade com a qual esta cadeia de valor convive. Foram duas correias de motor quebradas em uma viagem de barco que durou cerca de cinco horas.

O terceiro e último dia começou ainda mais cedo e teve como destino a unidade fabril da Natura. Inaugurada em março deste ano, esta fábrica é parte de uma iniciativa complexa e ambiciosa denominada pela Natura de Programa Amazônia, o qual possui três pilares: ciência, tecnologia e inovação com foco nos ativos provenientes da floresta; cadeias produtivas que agregam valor aos recursos da região e fortalecimento institucional pautado nos desafios prioritários para o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Fundamentada no conceito de simbiose industrial a fábrica de Benevides é o embrião do Ecoparque, um empreendimento que se propõe a abrigar empresas que, junto com a Natura, estabeleçam uma rede comprometida com o uso sustentável da biodiversidade da região. Entre as práticas desta rede espera-se que os resíduos de uma empresa sejam utilizados como matéria prima por outra, com se dará na relação entre Natura e Symrise (www.symrise.com), uma das empresas que já decidiu se estabelecer no Ecoparque.

Dedicada exclusivamente à produção de sabonetes, esta unidade da Natura emprega 228 colaboradores e 130 funcionários terceirizados, dos quais cerca de 90% são originados dos municípios do entorno. Para esses que já ocupam o Ecoparque, chama atenção alguns elementos deste condomínio industrial, como os jardins filtrantes que processam 50% dos resíduos industriais e o sistema de refrigeração, que faz uso de tubos subterrâneos pelos quais circula água de chuva capturada em diferentes pontos, como nas estruturas de convivência.

Após três dias intensos e inspiradores, em que reencontrei colegas e fiz novos, deixei Belém com muitas lembranças. Nenhuma maior do que o sorriso das crianças a jovens que conheci às margens do rio Moju. Sorrisos que reforçaram em mim a convicção de que negócios podem, e devem, estar a serviço de propósitos e valores.

Para saber mais sobre o Ecoparque e outras iniciativas da Natura na Amazônia, clique aqui.

Paulo Branco

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