Na era da comunicação em rede, proliferam alertas e informações que apoiam mudança de hábitos cotidianos e rumos da economia mais conectados aos limites ambientais do planeta e a uma sociedade inclusiva. Mas a tal da sustentabilidade ainda enfrenta barreiras de forma e foco dos discursos para engajar mais adeptos.

Esta semana, captei duas referências pelo Twitter que ajudam a repensar a comunicação para sustentabilidade. A primeira,  um artigo no Guardian Sustainable Business, escrito pelo diretor da Narrative Leadership Associates, vai direto ao ponto: “Sustentabilidade necessita de nova narrativa, entre a utopia e a catástrofe“. O título do texto (em inglês) faz referência aos filmes de Hollywood que vem explorando o tema -como Avatar, O Dia Depois de Amanhã e 2012 – e defende abordagens mais elucidativas, como em “Indomável Sonhadora”. Mas a crítica poderia servir também para outros produtos da mídia mais tradicional, desde matérias jornalísticas até conteúdo gerado por empresas e ONGs, que ao exagerar nas tintas do bem e do mal podem causar afastamento pelo temor ou pelo excesso de otimismo, longe da realidade desafiadora que envolve nosso futuro comum, em meio a interesses diversos.

As tecnologias digitais e a comunicação em rede vêm trazendo boas dicas de como diversificar a forma de construir e proliferar os diálogos. Neste sentido que destaco outra referência que me chamou atenção esses dias no Twitter: as discussões sobre clima e comunicação, reunidas em #climatecomms. Boas matérias, apps, fóruns de discussão, questionamentos, dados, autores, obras, eventos, ferramentas … enfim, referências de quem atua em comunicação no contexto das mudanças climáticas, que ajudam a entender o potencial de novos modos de comunicar e como a comunicação é parte indissociável da sustentabilidade.

 

Ricardo Barretto

 

Abaixo, informações do site oficial.

Hackatona é a versão nacional de “Hackathon” – terminologia da língua inglesa significa “maratona hacker”, isto é, um período de esforço concentrado em que programadores, pesquisadores e outros interessados se dedicam ao desenvolvimento de softwares, aplicativos e outros tipos de soluções.

O intuito principal é melhorar a mobilidade urbana em São Paulo, mas também divulgar os esforços de abertura de dados da atual gestão e estimular o desenvolvimento de aplicações que melhorem a prestação de serviços públicos.

Quando será: Fim de semana dos dias 22 e 23 de março de 2014

Local: Rua Boa Vista, 136 (sobreloja) – Centro – São Paulo/SP.

Premiação: Em dinheiro para os três projetos mais bem avaliados.
1º lugar: R$ 10.000,00
2º lugar: R$ 7.000,00
3º lugar: R$ 5.000,00

Participação: Para participar, é necessário inscrever um projeto, cada equipe pode inscrever até três projetos. Será realizada uma seleção de dez projetos para participação no evento, sendo, no máximo, um projeto por equipe. As equipes poderão ter até cinco pessoas.

Desafios: Uma lista de desafios foi proposta pela CET, a partir das demandas e necessidades identificadas junto aos usuários do transporte público.

Avaliação dos projetos elaborados: Uma comissão julgadora vai avaliar os projetos no local, na tarde do domingo dia 23.

Critérios: Interesse público; monitoramento participativo; criatividade e qualidade técnica

Vencedores:
 Os vencedores serão anunciados no próprio domingo.

Saiba mais

 

Leeward Wang

 

As opiniões sobre as manifestações vão brotando pela rede. Tem gente explicando para quem foi ativista na ditadura que a história aqui é outra, mas ouvi mais de uma vez na caminhada “o povo unido jamais será vencido”; tem gente dizendo que os partidos não cabem, mas as bandeiras podem ser vistas aqui e ali; tem gente dizendo que a multidão não grita muito, fica até em silêncio e tira muita foto de si mesma e perde o “real motivo” da inquietação social; tem gente dizendo que os reaças têm de sair fora da “marcha” com seus papos antivandalismo e anticorrupção …

Parecem tentativas de dar um veredito para as manifestações, de definir qual é seu escopo, seu objetivo, sua essência.

Se as manifestações do dia 17 foram a expressão corporificada da rede, seus significados não têm autor, nem definição certa. Têm mensagens sem fronteiras que pressionam pela revogação dos 0,20, pelo passe livre, pelo não à PEC 37, pelo fim da corrupção, pelo não à violência, pelo quebra-tudo, por esse ou aquele jogador na seleção … tudo ao mesmo tempo agora. Impulsos como os gritos da caminhada que irrompem e contaminam e seguem ou se perdem em questões de instantes.

O que não cessa é a rede, que se mostra corporificada e caminhando e se mostra virtual e se mostra à distância. Vai dando expressão às percepções dos grupos que também não são fixos e se articulam e rearticulam de modos imprevisíveis, unindo e distanciando perfis que não se imaginavam afins e avessos, mas mantendo o fluxo contínuo de informação e de sentidos.

Os governantes, atônitos, revelam parte das vozes atônitas da rede. As TVs, aviltadas em seus modos de fazer e emitir tentam dizer “estou junto com vocês”, “agora vou falar tudo o que vocês querem dizer”. Tanto faz … são mais um post, mais uma imagem, mais um áudio em meio à rede que respira e que não se fixa em nada especificamente ou por muito tempo, mas que assim vai modificando as conexões e sentidos da sociedade.

Quem insistir que é preciso controlar, orientar ou revogar o “déficit de atenção” estará perdendo seu tempo. A rede vai seguir diluindo política em atos que não têm discurso específico, misturando pornografia a buscas de receitas culinárias e palavras de filósofos e melhores lances da partida e imagens da repressão policial.

Quanto importa que todos que estiveram nas avenidas apinhadas de gente em São Paulo saibam que a estimativa oficial de 65 mil nem passa perto do número de manifestantes? Que as TVs não sobrevoaram a Faria Lima lotada por quilômetros de extensão, que a imprensa não mostrou os manifestantes na Rede Globo ou na Assembleia Legislativa? A rede sabe de si, mostra-se para si mesma, não precisa da anuência dos números, da oficialidade dos governos, da lógica de centralidade da mídia do século passado. Ela segue perceptiva, orgânica e tecnológica, involuntária e conectiva em todas as dimensões imagináveis – como o próprio corpo – sem núcleo, sem autorias, sem objetivos únicos.

Ela não precisa nem mesmo de pessoas conectadas ao digital. Mesmo os desconectados estão na rede e bebem dela e a alimentam sem saber. E os dispositivos tecnológicos continuam fazendo parte dela, e as cidades, e a natureza, e as pessoas, e as ideias mutantes e mutáveis … uma trama que parece só não admitir bloqueio ao fluxo e à conectividade.

Ricardo Barretto

 

Abaixo, destaques da imprensa para o dia 22 de setembro. O clipping faz parte de serviço diário oferecido pelo GVces aqui

Transportes públicos de SP ampliam em duas horas horário de pico na quinta
22/09/2011 - Fonte: Agência Estado

Só 16% dos paulistanos não usam automóvel
22/09/2011 - Fonte: Agência Estado

Transporte público e dificuldade de mobilidade são desafios para o Dia Mundial sem Carro
22/09/2011 - Fonte: Agência Brasil

Aumenta número de paulistanos dispostos a trocar carro por transporte público
22/09/2011 - Fonte: Agência Brasil

Em SP, um mês por ano gasto ao volante
22/09/2011 - Fonte: O Globo

Cresce número de carros que transportam uma só pessoa
22/09/2011 - Fonte: Folha de S.Paulo

Pesquisa traça ‘rota de conforto’ para os ciclistas
22/09/2011 - Fonte: Folha de S.Paulo

Em Copenhague, congestionamento de bikes
22/09/2011 - Fonte: Página 22

64ª edição do Salão de Frankfurt mostrou o futuro da mobilidade
22/09/2011 - Fonte: Correio Braziliense

13% usam carro todos os dias em São Paulo
22/09/2011 - Fonte: O Estado de S. Paulo

Vá de bicicleta: custa menos e é mais rápido
22/09/2011 - Fonte: O Globo

Pegue um ‘BikeBus’ no Dia Mundial Sem Carro 2011
22/09/2011 - Fonte: Blog Vá de Bike!

Rede Nossa São Paulo e Ibope divulgam 5ª edição da pesquisa Dia Mundial Sem Carro
22/09/2011 - Fonte: Rede Nossa São Paulo

Paulistanos consideram que problema do trânsito está se agravando na cidade 
22/09/2011 - Fonte: Rede Nossa São Paulo

Ciclistas de São Paulo incentivam o uso de bikes no Dia Mundial sem Carro
22/09/2011 - Fonte: EcoDesenvolvimento

Prefeituras dependentes do setor automotivo divergem sobre IPI
22/09/2011 - Fonte: Valor Online

Mobilidade Urbana continua sendo maior desafio para o Brasil em grandes eventos
22/09/2011 - Fonte: EcoDesenvolvimento

Se essa rua fosse minha
22/09/2011 - Fonte: Página 22

Bicicleta ganha mais uma vez desafio no trânsito de São Paulo
22/09/2011 - Fonte: G1.com.br

 

A Folha de S. Paulo publicou ontem, 28/07, artigo de José Vicente Ferraz, engenheiro-agrônomo e diretor técnico da Informa Economics FNP, com o título “Maior desafio é produzir mais alimentos com o menor custo”. Se a importância do acesso aos alimentos pela população de baixa renda é indiscutível, é preciso ter cautela na afirmação do título, para que o argumento não vire um tranpolim para iniciativas não sustentáveis.

Em tempos de Rio +20 e discussões sobre economia verde, os dois eixos devem caminhar entrelaçados: a sustentabilidade na produção e no consumo e o direcionamento da nova economia para a redução da pobreza. Do contrário, há o perigo de se cair em discursos vazios como o de empresas produtoras de organismos geneticamente modificados, que defendem suas sementes como uma forma de aumentar a produção e fazer chegar alimento aos menos favorecidos. A produção de transgênicos no mundo cresce anualmente – só a soja já passou dos 260 milhões de toneladas por ano – o que não significou fornecimento de alimentos para as populações pobres do mundo. Está aí a fome na Somália como exemplo.

Outro ponto que gera preocupação no artigo é em relação às soluções apontadas para o aumento da produção, como a intensificação da irrigação. Sabe-se que hoje, quase 70% da água doce utilizada em atividades humanas no planeta é destinada à agricultura – uso que muitas vezes acarreta escassez justamente para populações mais pobres. Daí a importância do fator sustentabilidade no contexto da produção de alimentos: não adianta produzir mais gerando passivos ambientais que não só comprometem os recursos naturais como acabam ameaçando, em primeiro lugar, os pobres que teoricamente se espera ajudar.

Vale questionar também o leque de soluções tecnológicas indicadas no artigo. Os OGMs, por exemplo, carregam consigo uma série de questionamentos, que vão desde o princípio da precaução até questões como o impacto de estratégias como sementes estéreis para os pequenos produtores. A discussão é longa e conhecida e não cabe detalhá-la aqui (mas vale dar uma olhada na Página 22). A questão é que existem outras formas de se aumentar a quantidade de alimentos disponíveis para consumo, como atuando no desperdício ao longo da cadeia de produção e consumo, que segundo a ONU gira em torno de 1,3 bilhão de toneladas por ano.

As verdades absolutas, típicas das iniciativas do século XX, não combinam com os preceitos da sustentabilidade, que procura olhar para a complexidade da relação entre sociedade e natureza. A economia verde, que estará em discussão na Rio +20, em maio de 2012, deve primar por soluções inteligentes, que nem sempre passam por inovações tecnológicas de alto custo, mas por outros tipos de inovação. Das mais singelas, como o melhor aproveitamento dos alimentos, passando por iniciativas de produção de alimentos no espaço urbano, até a adoção de novos modelos como os sistemas agroflorestais. Inovação, criatividade e uma boa dose de perspectiva socioambiental são fundamentais para a construção de uma economia verde e justa.

Ricardo Barretto

 

O apagão na região Nordeste em início de fevereiro motivou manifestações da imprensa sobre a importância de se diversificar a matriz energética brasileira, apostando em outras fontes – com destaque para aquelas privilegiadas por caracterísitcas naturais do país, como a eólica e a solar.

Ilustração: Barun Patro

Ilustração: Barun Patro

A situação é propícia a esse tipo de demanda. É também reveladora de uma dinâmica que se repete no contexto das políticas públicas e do comportamento da mídia.

Em relação à esfera pública destacam-se alertas lançados nos últimos anos na forma de estudos de viabilidade e vantagem comparativa do Brasil quanto às fontes energéticas, cálculos sobre custos dessas alternativas e posicionamento do país em relação ao movimento global da economia do baixo carbono que se torna cada vez mais intenso e estratégico para as economias mundiais.

E a imprensa? Ao que parece, faz coro com especialistas e ambientalistas em momentos pontuais de crise energética, pedindo atenção às fontes alternativas, mas no dia-a-dia parece acompanhar o governo na ideia de que o importante é gerar uma quantidade de energia para suportar crescimento econômico, sem levar em conta variantes da matriz energética, impacto ambiental, vantagens comparativas do país, o contexto da nova economia.

Como exemplo, matéria de O Globo de 7/2, que lança a seguinte provocação: “O apagão que deixou sem energia oito estados do Nordeste na última sexta-feira gerou uma controvérsia: este é o momento de se fazer a reestruturação do abastecimento na região?” Certamente; assim como o apagão na era Fernando Henrique também serviu de alerta para a questão – não só no Nordeste mas em todo país. Entre um apagão e outro, foi lançado pelo governo Lula um Plano Decenal de Energia, fundamentado em matriz hidrelétrica e térmica. As alternativas energéticas passaram longe do PDE. Assim como das páginas da grande imprensa - fora as colunas da meia dúzia de jornalistas ligados na sustentabilidade e no movimento da nova economia.

A sensação que fica é que ao mesmo tempo em que o governo se contenta em se incomodar temporariamente com a sustentabilidade da matriz energética, a imprensa também se contenta em discutir mudanças apenas em momentos de crise ou pressão ambientalista. Ambos parecem satisfeitos com um modelo energético anacrônico, composto por empreendimentos megaimpactantes e linhas de transmissão pouco eficientes e, o mais sintomático, um modelo carente de estímulo estatal para renovação que chegue até as fontes que constituem a matriz energética.

Mais sobre esse assunto:

Para Greenpeace, sistema elétrico deve ter alternativas de geração e transmissão de energia
08/02/2011 – Fonte: Agência Brasil

Termelétricas e usinas nucleares no Nordeste, terra de vento e sol
07/02/2011 – Fonte: Ecopolítica

 

Ricardo Barretto
Comunicação GVces

 

Os desastres provocados pelo excesso de chuvas em várias regiões do país são o tema de maior destaque na mídia nesse começo de ano. A imprensa explora o tom dramático da tragédia, mas felizmente não deixou passar batido o discurso demagógico do governador do Rio de Janeiro, mostrando que sua indignação contradiz o decreto assinado por ele há seis meses, autorizando construções em áreas de proteção ambiental, e um estudo que alertava sobre a situação de risco, conforme anuncia OECO.

A exploração imobiliária com a conivência do poder público é algo bastante comum nas áreas costeiras fluminense e paulista. Aliás, a permissividade do poder público em relação a empreiteiras é bastante comum em quase todo lugar, o que explica em parte o caos que acomete grandes cidades quando as chuvas caem em demasia.

Mas estou desviando do assunto que queria tratar nesse post. Se por um lado a imprensa cumpre um papel importante ao relacionar políticas públicas nocivas a desastres socioambientais, por outro esse impulso ainda vem como reação a tragédias e raramente acontece por antecipação dos jornalistas. No caso das chuvas do começo do ano, há pouca relação nas matérias da imprensa entre esse tipo de evento e a necessidade de políticas e ações de adaptação às mudanças climáticas. As chuvas intensas são apontadas como um dos principais efeitos que o Brasil deverá experienciar numa situaçã de desequilíbrio climático. 

Mas há um outro exemplo que me chama mais atenção e também foi noticiado com destaque essa semana: pelo terceiro mês consecutivo, a indústria automobilística bateu recorde de vendas no Brasil. A notícia vem em geral envolta num tom positivo, tendo como único foco o desempenho da economia. Entretanto, menos de um mês após o fracasso da COP-15 ter sido alardeado pela mídia, não se lê sobre o impacto de emissões dos novos carros que passam a circular, ou sobre o impacto para a saúde e o trânsito nas cidades e nem mesmo sobre a falta de políticas que condicionem a produção e o consumo do transporte individual a iniciativas de descarbonização da economia e de sustentabilidade para o meio urbano.

Seguindo o mesmo estilo de cobertura dos desastres naturais, só ouviremos falar dos impactos negativos da indústria automobilística quando a cidade de São Paulo bater um novo recorde de congestionamento ou de internações por problemas respiratórios ou ainda acusar um aumento de emissões de carbono. Quando cientistas e ambientalistas dizem que é urgente novas formas de produção e consumo, isso significa que a socieade como um todo deve rever seu comportamento. E isso inclui a imprensa. Para cumprir o papel de guardiã da cidadania que muitas vezes se reserva, a mídia deve ter a ousadia de se antecipar aos fatos, deve inovar com pautas cotidianas pensadas a partir de uma perspectiva mais crítica e ter a coragem de colocar o dedo em feridas – mesmo que elas estejam associadas a patrocinadores de peso.

Ricardo Barretto

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