(Foto: Bo Eide/Flickr/Creative Commons)

Em 2050, os oceanos da Terra poderão ter mais plásticos do que peixes em termos de peso. O recado é do Fórum Econômico Mundial, que acontece nesta semana em Davos, na Suíça.

O plástico se tornou um dos materiais mais populares do mundo, que combina funcionaçidade e custos baixíssimos de produção. Seu uso aumentou em praticamente 20 vezes nos últimos 50 anos, e espera-se que ele dobre novamente nas próximas duas décadas. No entanto, segundo relatório publicado pelo Fórum nesta terça (19/01), apenas 14% das embalagens de plástico do mundo é coletada para reciclagem – para efeitos de comparação, 58% do papel produzido no mundo acaba destinado para reciclagem; no caso de ferro e outros metais, esse índice chega a 90%.

Para piorar, quase 1/3 de todas as embalagens de plástico acabam inutilizadas na natureza, uma perda que gera prejuízos entre 80 a 120 bilhões de dólares anuais.

A tendência para o futuro é preocupante. Na medida em que o consumo de plástico aumentará bastante nos próximos anos, a representatividade desse material no chamado “orçamento do carbono” também crescerá. O Fórum Econômico Mundial estima que, até 2050, os plásticos poderão consumir 15% desse orçamento global, comparado ao 1% que ele consome hoje. Num mundo que se prepara para reduzir massivamente suas emissões nas próximas décadas, o plástico pode ser um vilão e tanto para essas pretensões.

De acordo com o relatório publicado pelo Fórum, a única forma de evitar um desastre é investir massivamente na economia desse material e na infraestrutura de coleta e reciclagem em todo o mundo, particularmente nos países mais pobres. Se não houver avanços nessas frentes, os oceanos do planeta servirão como verdadeiros lixões flutuantes, nos quais existirão mais plásticos do que peixes.

Bruno Toledo

 

Pôr-do-sol nas dunas em Abu Dhabi (Creative Commons)

No livro “Não Verás País Nenhum”, publicado em 1981, o escritor Ignácio de Loyola Brandão retrata um futuro quase apocalíptico para o Brasil. Tomado pela catástrofe ambiental, o país não tem mais sua esplendorosa Floresta Amazônica, transformada em deserto; as metrópoles sofrem com a falta de árvores e com o calor intenso; não há comida, água ou moradia para todos, sendo que os grupos mais inferiores e pobres sobrevivem do lixo acumulado nos arredores dessas cidades.

Um aspecto interessante desse livro – considerando que ele foi escrito há mais de 30 anos, quando mudanças climáticas e aquecimento global ainda eram temas insipientes na agenda global – é a forma como Ignácio traz as cidades sofrendo com o calor insuportável: na São Paulo “futurista” (relevando o fato de que a história se passa em 2003, que já faz parte do passado para nós em 2015), as pessoas não conseguiriam andar na rua sem algum tipo de proteção contra o sol, como sombrinhas e marquises. É simplesmente insuportável viver ao ar livre, sem árvores nem água para aliviar o calor inclemente que torra o asfalto na selva de pedra.

Isso me veio à mente quando li uma matéria recente no Guardian sobre os efeitos das mudanças climáticas em uma das regiões mais inóspitas e difíceis de estabelecer assentamentos humanos: o Golfo Pérsico. De acordo com estudo conduzido por dois pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT), essa região deverá sofrer com o calor intenso nas próximas décadas, superando os limites que permitem a vida humana.

O estudo aponta que ondas de calor extremo, que já ocorrem com mais frequência nos últimos anos, deverão se intensificar, ao ponto que, em 2070, os dias mais quentes de hoje podem se tornar o dia-a-dia do futuro. Muitas localidades do Golfo Pérsico, como Abu Dhabi, Dubai e Doha, além da costa iraniana, poderão ter o clima similar ao clima atual do deserto de Afar, no lado africano do Mar Vermelho, um dos lugares mais quentes do mundo, onde não existe assentamento humano permanente.

Ironicamente, os países do Golfo Pérsico, em particular a Arábia Saudita, entre os grandes exportadores mundiais de petróleo, frequentemente atuam para bloquear as negociações internacionais sobre mudanças climáticas. Alguns deles, como os sauditas e o Catar, sequer entregaram suas contribuições pretendidas para redução de emissões para o novo acordo climático internacional, que será finalizado em dezembro na cidade de Paris.

A Caaba e a Mesquita de al-Haram durante o começo do Hajj, cerimônia fundamental do islamismo em Meca (foto: Al Jazeera English/Flickr/Creative Commons)

No livro de Loyola Brandão, o Brasil futurista seria governado por uma estrutura ditatorial chamada de “Esquema”, que impõe regras bastante rígidas à vida dos brasileiros no meio da catástrofe ambiental. Coincidentemente, muitos desses países do Golfo são ditaduras ou possuem regimes políticos claramente autoritários. São também países com desigualdades sociais gigantescas, ampliadas cada vez mais pelos rendimentos do petróleo direcionados para pouquíssimas pessoas. Obviamente, quem sofrerá mais com os efeitos desse superaquecimento serão as comunidades mais pobres, que já vivem em situação delicada. Mesmo cerimônias religiosas importantes para o islamismo, como a peregrinação à Meca, seriam praticamente inviabilizadas, já que o calor intenso dificultaria qualquer tipo de movimento à luz do sol.

O caminho para evitar esse cenário apocalíptico continua sendo o mesmo: reduzir as emissões de gases do efeito estufa (GEE) em todo o mundo, de forma efetiva e contínua, nas próximas décadas, de maneira a conter o aumento da temperatura média global em até 2ºC neste século.

Para tanto, o desafio dos países pérsicos não é pequeno: esse caminho de ação climática significa reduzir de forma ambiciosa o uso de combustíveis fósseis, o que atinge em cheio as economias nacionais da região, altamente dependentes dos rendimentos do petróleo local. Para esses países, a transição para uma economia de baixo carbono é uma revolução absoluta de suas economias. O medo disso tudo explica em grande parte a reticência desses países em torno do debate sobre clima, mas talvez eles venham a confrontar um medo muito maior, que os forçará a repensar a necessidade dessa transição: a inviabilidade da vida humana futura em seus territórios.

Bruno Toledo

 

Se o mundo deseja evitar danos irreversíveis ao planeta, todos os governos precisam concordar com um plano claro, justo e ambicioso nas negociações climáticas na Conferência de Paris, a COP 21. Esta é a conclusão da Assembleia Parlamentar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em resolução aprovada na segunda passada, que soma sua voz a de outros órgãos e atores relevantes no cenário internacional em prol da definição de um novo regime climático internacional com metas de redução efetiva para todos os países.

Na resolução, representantes parlamentares dos países da OTAN reconheceram as mudanças climáticas como uma ameaça significativa à segurança internacional, algo que já está sendo sentido hoje. Os riscos associados às mudanças do clima representam uma “ameaça multiplicadora”, na medida em que temperaturas crescentes e alterações nos padrões de precipitação tendem a acentuar competição por estoques de comida e água, a modificar padrões de migração e a criar novos perigos à saúde humana. Além disso, o perigo climático também pode exacerbar conflitos violentos, como observado na Síria a partir de 2011.

O documento também conclama a seus estados-membros que promovam mais discussão e reflexão sobre o tema, examinando como isso poderá afetar sua própria segurança.

Nos últimos anos, forças militares de países como Estados Unidos e Reino Unido vêm apontando as mudanças climáticas como um perigo grave à segurança global e à prosperidade econômica de todos os países. O que destaca o anúncio recente da OTAN é o apelo por um acordo claro, justo e ambicioso em Paris no final deste ano: este é um chamado importante para que os governos do mundo assumam compromissos efetivos na COP 21, que consigam manter o aumento da temperatura global entre 1,5ºC e 2ºC acima dos níveis pré-industriais até 2100. Na semana que vem, os negociadores da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima (UNFCCC, sigla em inglês) se reunirão em Bonn (Alemanha) pela última vez antes da COP 21 para finalizar a proposta final de acordo internacional sobre clima, para ser concluído e assinado em Paris.

Bruno Toledo

 

Músicos no French Quarter, em Nova Orleans, em 1989 (foto: Brenda Anderson/Flickr)

O “berço do jazz”. A “rainha do Mississippi”. A cidade perdida no tempo, perdida em seu próprio tempo – “the city that care forgot”. Nova Orleans nunca foi uma cidade comum: com sua história peculiar, palco do encontro de diferentes culturas (franceses, espanhóis, norte-americanos, negros africanos, além de nativos), Nova Orleans sempre teve um ritmo diferente de qualquer outra cidade – uma receita que juntava uma sensação incomum de abandono, rebeldia, liberdade criativa e fervura cultural e racial. Não é à toa que ela reúne o maior número de músicos per capital nos Estados Unidos!

Há dez anos, Nova Orleans vivia um longo ostracismo. Submersa num fatalismo bastante característico, a cidade parecia caminhar para algum tipo de conclusão. Depois da luta racial que tomou conta da cidade nos anos 1950 e 1960, a maioria negra de Nova Orleans sentia-se desiludida com os resultados dessa luta histórica. A pobreza ainda era a marca da cidade, junto com as construções históricas erguidas pelos colonizadores franceses no século XVIII no hoje célebre French Quarter.

O fatalismo de Nova Orleans tem causa histórica. Em 1722, apenas quatro anos após sua fundação por exploradores franceses, a cidade foi devastada por um furacão, que destruiu praticamente todas as construções existentes. A Nova Orleans do French Quarter foi construída sobre as ruínas dessa antiga cidade, e carrega consigo as marcas desse desastre. Diques foram erguidos para conter a água do mar em tormentas, de forma a preservar as regiões mais baixas de Nova Orleans, ocupadas no decorrer do século XX para alimentar sua expansão urbana. Essas áreas foram sendo ocupadas por comunidades negras, que representam a maioria da população de Nova Orleans (em torno de 60%, o maior índice dentre as grandes cidades dos EUA).

No entanto, a manutenção desse sistema de proteção era bastante precária, e o poder público estadual e federal ignorava repetidos alertas sobre a vulnerabilidade de Nova Orleans em situações climáticas extremas, como furacões. Na véspera daquele final de agosto de 2005, a cidade parecia abandonada a sua própria desventura.

Aí, veio o Katrina.

Vista aérea da região central de Nova Orleans em 1º de setembro de 2005, com destaque para o Superdome (foto: US Navy/Wikimedia)

Três informações nos dão uma noção mais clara do estrago causado pela passagem do Katrina em Nova Orleans. Primeiro, o prejuízo de US$ 108 bilhões (valores de 2005), que permanece sendo um recorde mesmo após outros desastres naturais da mesma dimensão, como a passagem do furacão Sandy na costa leste nos EUA em 2012. Segundo, o fato de que, em 31 de agosto, cerca de 80% da cidade estava debaixo d’água (em alguns locais, a água subiu mais de 4 metros), com exceção de zonas urbanas localizadas em áreas mais altas (entre elas, a do French Quarter), construídas num plano mais elevado. E, finalmente, o fato de Nova Orleans ter perdido sua condição histórica de cidade mais populosa da Louisiana, posição que não foi recuperada até hoje.

Refugiados de Nova Orleans concentrados no Louisiana Superdome em 03 de setembro de 2005 (foto: tiger_in_houston/Flickr)

Obviamente, é ilusório pensar que o estrago foi causado pelo Katrina em si: se olharmos atentamente para a sequência de eventos e decisões tomadas, podemos ver a tragédia de Nova Orleans como o “pior desastre de engenharia do mundo desde Chernobyl”, como disse Raymond B. Seed, professor da University of California Berkeley à época do Katrina. Boa parte dos danos decorrentes da passagem do furacão na costa da Louisiana poderia ter sido evitada se as autoridades locais, estaduais e federais tivessem tomado decisões corretas e no tempo adequado. Infelizmente, nenhuma dessas autoridades estava preparada para lidar com isso: o impacto do Katrina em si foi potencializado de forma brutal com o despreparo das forças públicas em todos os níveis; num momento em que os EUA tinham tropas ativas em dois países do Oriente Médio, com toda logística e infraestrutura preparada para apoiá-las naquela distante região, as forças armadas do país não tinham condições logísticas de levar garrafas de água potável para um estádio de futebol abarrotado de desabrigados dentro do seu próprio território.

O Katrina fez emergir preocupações sobre a resiliência de grandes cidades para enfrentar desastres associados a eventos climáticos extremos, um perigo que pode tornar-se mais frequente com o avanço das mudanças climáticas. Mais do que ter uma infraestrutura resiliente em si, o caso de Nova Orleans deixou claro a necessidade de uma articulação coerente e efetiva entre os atores públicos e privados tanto na preparação quanto na resposta imediata ao desastre. Na era das mudanças climáticas, o custo da desarticulação, do despreparo e da inação pode ser grande demais, como o foi em Nova Orleans.

Membros de força tarefa de resgate em operação de busca e resgate em Nova Orleans (foto: Jocelyn Augustino/FEMA/Flickr)

Dez anos depois da passagem do Katrina, Nova Orleans ainda é uma cidade em reconstrução. Alimentada com bilhões de dólares destinados para os esforços de recuperação da cidade, Nova Orleans tornou-se um laboratório para experiências de inovação urbanística. Novos habitantes chegaram para auxiliar no esforço, trazendo um espírito diferente de empreendedorismo social em Nova Orleans. O fatalismo tão característico daquela cidade deu lugar para esperança: mais aberta e mais viva, pela primeira vez em muito tempo, Nova Orleans tem a oportunidade de construir um futuro melhor para si mesma. No entanto, as feridas abertas pelo vento do Katrina persistem.

Milhares de desabrigados do Katrina continuam distantes de Nova Orleans, em particular os mais pobres. Entre 2005 e 2015, a cidade perdeu quase 110 mil habitantes. As clivagens raciais são marcantes nesse cenário pós-Katrina: a população negra de Nova Orleans diminuiu consideravelmente, ainda que se mantenha majoritária na composição demográfica da cidade. Antigos bairros pobres, ocupados por comunidades negras, deram espaço para empreendimentos imobiliários ocupados em sua maioria por brancos de renda mais elevada. O custo de vida aumentou consideravelmente na região, penalizando bastante os mais pobres. Assim, no caso de Nova Orleans, um efeito colateral nítido da tragédia e dos esforços posteriores de reconstrução é a gentrificação da cidade.

Dez anos depois dos ventos do Katrina atingirem Nova Orleans, a cidade ainda luta para recuperar e manter o espírito rebelde e criativo que a fez célebre, ao mesmo tempo em que tenta se afastar do fatalismo que sempre carregou sobre si mesma.

Bruno Toledo

 

Depois de meses de espera, finalmente o Vaticano divulgou hoje a primeira encíclica do papa Francisco, Laudato Si’, na qual o sumo pontífice católico aborda a crise ambiental e as relações entre homem, espiritualidade e natureza. Como é repetido diversas vezes no texto papal, “tudo está conectado” – as ações humanas sobre a natureza, a degradação dos recursos naturais e as mudanças do clima, e a necessidade de um esforço comum da humanidade para recuperar sua própria “casa”.

Na encíclica, Francisco vai além da simples constatação da realidade dramática do meio ambiente: a encíclica se desenvolve a partir de uma interpretação própria sobre a relação entre Deus, a humanidade e o meio ambiente, enveredando em questões políticas mais espinhosas (como a lentidão das negociações internacionais, a dificuldade de se abandonar os combustíveis fósseis, e até mesmo o modelo atual de licenciamento ambiental), e avançando mesmo em temas ainda radicais em alguns círculos não-religiosos, como o conceito de decrescimento.

Nas últimas semanas, existia uma expectativa muito grande sobre o conteúdo da primeira encíclica integralmente escrita por Francisco em seu papado (a primeira encíclica publicada por Francisco, Lumen fidei, publicada em 2013, foi escrita em grande parte pelo seu antecessor, o papa emérito Bento XVI). Faltando menos de seis meses para a decisiva Conferência do Clima de Paris, a COP 21, as lideranças políticas globais ainda não demonstraram o engajamento necessário para que tenhamos um acordo climático efetivo na luta contra as mudanças do clima. A entrada do papa Francisco no rol dos “champions” dessa luta é um fato importante, pois coloca a maior igreja cristã do planeta no esforço global para preservar o meio ambiente e, mais especificamente, reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

Na semana passada, o Observatório do Clima publicou um vídeo hilário sobre a encíclica climática de Francisco, produzido pela OurVoices (EUA). Esse vídeo rodou o mundo e fez bastante sucesso, chamando a atenção das pessoas para o texto que Francisco divulgaria nesta semana. Caso você ainda não o tenha visto, confira o vídeo abaixo:

Confira também uma análise detalhada da encíclica Laudato Si’ feita pelo OC.

Bruno Toledo

 

Com a conclusão dos trabalhos dos negociadores em mais uma rodada de discussão política em Bonn, na quinta passada, chegamos à reta final de um dos processos de negociação mais importantes e problemáticos dos últimos anos no âmbito das Nações Unidas. Faltam menos de seis meses para a abertura da decisiva Conferência do Clima de Paris, a COP 21, na qual os governos de 192 países deverão assinar um novo acordo climático global.

Nunca estivemos tão perto desse novo regime global para enfrentar as mudanças do clima. Ao mesmo tempo, na medida em que os entendimentos necessários não acontecem, também nunca estivemos tão distantes de um resultado final claro, robusto e eficiente. Faltando menos de um semestre para o martelo final em Paris, a sensação que se tem é que todas as definições necessárias para o acordo estão ficando para o último momento: a estrutura do acordo, os compromissos e a diferenciação das responsabilidades de cada país, o financiamento de esforços de mitigação e adaptação no mundo em desenvolvimento… Esses não são pontos triviais: são questões que atravancam as negociações internacionais em clima desde sempre, e, até o momento, não conseguimos chegar perto de entendimentos claros sobre elas.

Nas últimas duas semanas, os negociadores presentes em Bonn tinham como tarefa escrutinar detalhadamente o texto-base construído na última sessão de conversas, em fevereiro passado. Esse texto nada mais era do que uma sistematização de todas as opções possíveis de acordo, contemplando todos os interesses envolvidos na negociação – até por isso, o documento em si era um jumbo de 90 páginas, incongruente e incoerente. Mesmo depois de dez dias de discussões, os negociadores conseguiram rever apenas cinco páginas. Isso mesmo: pouco mais de 5% em dez dias!

Para que a situação não se tornasse irreversivelmente negativa, os negociadores concordaram em delegar aos co-presidentes do grupo de trabalho da Plataforma de Durban (ADP), que negocia os termos do futuro acordo no âmbito da UNFCCC, a tarefa de organizar uma revisão aprofundada do texto, a partir de consultas com diferentes coalizões negociadoras.

A promessa dos co-presidentes é apresentar uma proposta de texto no final de julho, de forma a facilitar as conversas nas próximas rodadas de negociação (em agosto e outubro). Laurent Fabius (foto ao lado), ministro do exterior francês e futuro presidente da COP 21, continua com a expectativa de concluir um texto final em outubro, dois meses antes da abertura da Conferência de Paris.  Mas o tempo, nesse caso, é ilusório: nesses seis meses, os negociadores terão apenas dez dias dedicados a essa tarefa de construção do texto final, o que aperta bastante a agenda de negociação até Paris.

A vagarosidade não é exatamente algo surpreendente nessa agenda de negociação – afinal, o que estamos discutindo hoje deveria ter sido finalizado, “num mundo perfeito”, há seis anos, quando os principais chefes de governo do mundo se reuniram para pagar um mico “tamanho-gorilha” na Conferência do Clima de Copenhague, a malfadada COP 15. Por ora, os principais negociadores, observadores e analistas preferem enxergar o cenário com uma dose cavalar de cautela. Sim, o avanço em Bonn foi risível, mas nos bastidores as impressões continuam mais otimistas. O anúncio do G7 sobre a concordância das maiores potências econômicas globais sobre a descarbonização da economia mundial ainda neste século, feito no domingo passado, foi bastante celebrado e teve ressonância nas conversas em Bonn. Mas nada concreto foi anunciado: metas, compromissos, iniciativas unilaterais… Apenas boas intenções.

Na verdade, até o momento, temos pouca coisa definida – e, do pouco definido, muita coisa pode ser insuficiente para termos um acordo consistente em Paris. O único avanço efetivo em Bonn foi a concordância dos negociadores em incluir REDD+, o mecanismo de redução de emissões por desmatamento, no futuro acordo.

“Não há nada de novo quanto ao conteúdo, nem sobre o formato leal. Ficou de fora da agenda [de Bonn] compromissos de países desenvolvidos. Os EUA, por exemplo, afirmam que estão dispostos a contribuir, mas não expressam compromissos reais”, argumentou Mark Lutes, do WWF Brasil, ao Observatório do Clima.

A falta de novidades é bastante incômoda, faltando apenas seis meses para a COP 21. Poucos países apresentaram à UNFCCC suas contribuições nacionalmente determinadas (INDCs, sigla em inglês), que são documentos nos quais os governos expressam suas possibilidades de ação e meta de redução para o futuro acordo. Desse pouco apresentado (que inclui países e grupos importantes, como Estados Unidos, Japão e União Europeia), estima-se que as pretensões expressas por estes países nas INDCs sejam insuficientes para estabelecer uma trajetória de redução das emissões que impeça o aumento da temperatura média global neste século acima dos 2°C. O Brasil é um dos países que ainda não submeteu sua INDC, que ainda está em processo de construção dentro do governo. A expectativa é de que as metas e contribuições brasileiras sejam apresentadas apenas no limite do deadline definido pela UNFCCC – outubro.

Em suma, faltando seis meses para a Conferência de Paris, precisamos superar barreiras e interesses divergentes que nos atrapalham há seis anos, se quisermos chegar a um acordo efetivo. Precisamos que os países assumam uma postura construtiva e proativa, que dê confiança a negociadores e observadores de que tudo será feito para se chegar a um resultado final concreto. Ao final deste ano, chegaremos à conclusão de mais um capítulo da luta da humanidade contra as mudanças climáticas: que essa conclusão nos dê as condições necessárias para escrever os próximos capítulos num tom mais otimista.

Bruno Toledo (fotos: IISD)

 

7o Fórum Mundial da Água ocorreu entre os dias 12 e 17 de abril nas cidades Daegu (foto) e Gyeongbuk, na Coreia do Sul. Promovido pelo Conselho Mundial da Água, o maior evento internacional sobre o tema ocorre a cada três anos e, em 2015, contou com a participação de 40 mil visitantes de 168 países, incluindo nove chefes de estado, 80 ministros e 100 delegações oficiais.

Durante o Fórum, este conjunto de atores multilaterais buscou soluções inovadoras para os atuais e futuros desafios da gestão sustentável da água, um bem público cada vez mais escasso e precioso. Em Daegu, o “Pavilhão Brasil” reuniu os brasileiros que participaram do Fórum, onde foram feitas apresentações por diversos atores envolvidos no tema. Foram apresentados, entre outros, os projetos que receberam o Prêmio ANA 2014 (categorias empresa, ensino, governo, imprensa, ONG, organismos de bacia e pesquisa e inovação tecnológica).

Os pesquisadores do Programa Política e Economia Ambiental do GVces, Alexandre Gross e Guilherme Lefèvre, foram convidados pela Agência Nacional de Águas (ANA) a apresentar os resultados da pesquisa “Análise custo-benefício de medidas de adaptação às mudanças climáticas na bacia hidrográfica do PCJ”.  O Estudo (pdf), encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente e realizado em parceria com a ANA, buscou aprofundar o entendimento sobre a aplicação de análises custo-benefício para a priorização de medidas adaptativas em um cenário de mudanças climáticas na Bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. A pesquisa foi apresentada na programação do Fórum durante o evento “Enhancing resilience through robust water policies and appropriate water management”, organizado pelo Alliance for Global Water Adaptation (AGWA) e UNESCO (International Hydrological Programme) e na agenda do Pavilhão Brasil.

Os resultados encontrados mostram que, sem processos adaptativos, as perdas econômicas incrementais na bacia representariam um percentual significativo do PIB da região em 2050. Em especial, só as perdas causadas pela mudança climática podem representar cerca de 25% a 40% destas perdas incrementais totais estimadas. Em outras palavras, um planejamento que não levasse em conta a mudança do clima estaria negligenciando pelo menos um quarto das perdas potenciais futuras causadas pela escassez hídrica nos usos analisados, ou seja, deixando de ver uma boa parte do problema.

O estudo também avaliou custos e benefícios da adoção de 10 medidas adaptativas, tais como a construção de barragens, reuso de águas cinzas, irrigação eficiente, incentivos econômicos etc.

As mudanças climáticas trazem impactos, traduzidos em desastres naturais e escassez de recursos ambientais, que já afetam e tendem a afetar ainda mais a economia e a sociedade brasileira. Medidas adaptativas devem ser pensadas como alternativas para evitar danos maiores às pessoas e ativos sob risco. Nesse contexto, a pesquisa apresentada durante o Fórum faz parte de um trabalho mais amplo realizado pelo GVces, que desenvolveu uma base teórica para a criação do Plano Nacional de Adaptação. O Plano, que vem sendo construído pelo governo federal, oferecerá uma estrutura regulatória para nortear a política brasileira em relação ao tema Adaptação. Seu objetivo maior é fortalecer a capacidade adaptativa do País, tornando nossa sociedade cada vez mais preparada para enfrentar os impactos da mudança global do clima.

Guilherme Lefèvre e Alexandre Gross

 

“O pó dos caminhos subia e espraiava-se, cobrindo-lhes as orlas e cobrindo mesmo boa parte dos campos de cultura. (…) Pouco a pouco, o céu escurecia sob as nuvens de poeira e os ventos mais e mais mergulhavam nos caminhos e se elevavam com novos carregamentos de poeira. (…) O céu ficava cada vez mais escuro e, oculto sob sua capa cinzenta, o sol parecia um disco sangrento, e havia um cheiro acre no ar. (…) Homens e mulheres permaneciam aborrecidos e inquietos em suas casas, e tapavam o nariz com lenços quando tinham que sair, e punham óculos contra poeira para proteger os olhos. (…) A poeira misturava-se ao ar, como se formassem um só corpo; era uma emulsão de ar e de poeira”.

Na introdução do clássico “As Vinhas da Ira”, John Steinbeck nos relata – com detalhes obsessivos – como nuvens de poeira varreram comunidades inteiras do Meio-Oeste norte-americano nos anos 1930, durante o chamado Dust Bowl, talvez o maior desastre ambiental da história dos Estados Unidos. O nome em si foi cunhado há exatos 80 anos, em 14 de abril de 1935 (o Black Sunday, domingo negro), quando uma única tempestade de poeira conseguiu transformar um dia com céu límpido e sol brilhante numa escuridão mais sombria que a própria noite. Os relatos sobre esse dia na imprensa e os testemunhos de quem viu a tempestade eram como se tivessem saídos de um pesadelo – e para aqueles que viviam isso na pele, o Dust Bowl era um pesadelo sem fim.

Uma das cenas mais características da época do Dust Bowl: densas e gigantescas nuvens de poeira, que chegavam a bloquear a luz do sol por horas durante o dia. Esta imagem foi tirada em 17 de abril de 1935, na cidade de Stratford, Texas (NOAA George E. Marsh Album)

As tempestades de poeira que afligiram as Grandes Planícies do Meio-Oeste causaram a maior migração da história do país num curto espaço de tempo: entre 1930 e 1940, quase 3,5 milhões de pessoas abandonaram (por opção ou forçadas por dívidas bancárias) suas terras (localizadas principalmente nos estados de Oklahoma e Texas) em direção à costa leste norte-americana.

O baque econômico causado pelo Dust Bowl não foi pequeno: a região afetada pelas tempestades de poeira era considerada um dos principais celeiros agrícolas do país, particularmente de trigo. No contexto da Grande Depressão, que já castigava os Estados Unidos desde 1929, o Dust Bowl foi fatal para muitos agricultores e suas famílias, incapazes de arcar com os custos econômicos de perdas sucessivas de safra e de gado – é nesse contexto que Steinbeck escreveu a saga de Tom Joad e sua família, expulsos de suas terras arruinadas em Oklahoma e forçados a migrar para a Califórnia, em meio às dificuldades causadas pela crise econômica.

As causas do Dust Bowl foram eminentemente humanas. Inicialmente, as Grandes Planícies eram territórios relativamente secos, cobertas por um capim característico que segurava o solo e dominadas por búfalos. Por isso, nos primeiros estágios da ocupação norte-americana na região, poucos se aventuraram em se assentar nessas áreas. Em 1862, através do Homestead Act, o governo federal começou a incentivar a ocupação desses territórios, demarcando propriedades de até 65 hectares por preços relativamente baixos. Com a chegada das estradas de ferro transcontinentais, os assentamentos agrícolas começaram a se proliferar nessa região. Mesmo com a agricultura se provando bastante complicada, por causa das características do solo e do clima, o governo continuou incentivando a chegada de mais colonos, oferecendo lotes maiores de terra por preços ainda mais baixos. Um dos slogans do governo e dos corretores fundiários era que a chuva seguia o arado (“the rain follows the plow”), ou seja, quanto mais plantação tivesse, mais chuva cairia.

Agricultores trabalhando na colheita de trigo no Colorado (foto de Arthur Rothstein, 1939)

Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com os distúrbios que tomaram conta da Rússia revolucionária (até então a maior produtora mundial de trigo), a região das Grandes Planícies tornou-se uma das principais produtoras de trigo do mundo. As plantações aumentavam na mesma medida em que os preços internacionais do trigo subiam. A mecanização da agricultura começava a virar uma realidade, empurrando a produtividade sempre para níveis superiores. A sorte também foi importante nessa expansão: na década de 1920, a região passou por um período prolongado atipicamente chuvoso, o que garantiu safras cada vez maiores e incentivou a expansão dos cultivos nas safras seguintes. Tudo isso financiado de forma fácil pelos bancos, em meio ao frenesi econômico característico daquela época. A “receita” da agricultura era a mesma da indústria pré-1929: produzir mais para obter mais renda, e sempre assim.

No final das contas, praticamente toda a extensão antes coberta por capim nativo acabou convertendo-se em monoculturas tradicionais. Consequentemente, o solo antes preso ao chão pelo capim acabou se soltando, o que não foi exatamente um problema até o começo dos anos 1930, quando a região começou a viver um período prolongado de seca.

Junto com a seca, veio a Grande Depressão. A queda nos preços internacionais do trigo começou a afetar mais diretamente a partir de 1931, quando a desvalorização chegou a quase 70% em apenas um ano. Mesmo com a queda brutal nos preços, os agricultores das Grandes Planícies continuaram apostando em mais produção e mais terreno cultivado. Não demorou muito para a bolha estourar.

Uma das imagens mais famosas relacionadas ao Dust Bowl, tirada por Arthur Rothstein em abril de 1936 no condado de Cimaroon, em Oklahoma

Com o tempo seco, principalmente a partir de 1934, o solo começou a levantar do chão, carregado pelas fortes correntes de ar, características da região. Assim, formaram-se nuvens gigantescas de poeira, que enterravam tudo o que estava na sua frente: plantações, gado, casas, cidades. Era praticamente impossível escapar da poeira: quando as tempestades de vento chegavam, as pessoas tinham que correr para suas casas, sob o risco de ficarem sufocadas pela densa poeira. Dentro das casas, as famílias tentavam selar todas as aberturas externas, como portas e janelas, mas partículas finas de poeira entravam facilmente pelo vão entre as tábuas de madeira utilizadas nas construções.

A penumbra daquele domingo de abril de 1935 chamou a atenção dos grandes jornais impressos dos Estados Unidos para o desastre no Meio-Oeste. Naquela época, o governo Roosevelt já discutia possíveis ações junto com o Congresso para aliviar os impactos do Dust Bowl e reverter o processo de erosão da terra naquela região, mas as conversas se arrastavam fazia meses. A própria natureza se encarregou de mostrar aos congressistas a urgência do problema: correntes de ar levaram algumas nuvens de poeira do Meio-Oeste para a Costa Leste dos EUA. Para quem estava em Washington, a centenas de quilômetros da região crítica, bastava abrir a janela e olhar para o céu empoeirado para perceber que a situação começava a fugir do controle.

O resultado disso tudo foi a aprovação do Soil Conservation Act, o ato de conservação do solo, pelo Congresso dos EUA em 27 de abril, semanas depois do Black Sunday. Essa iniciativa, acompanhada por outras ações menores, foi a base para a resposta governamental ao desastre ambiental do Dust Bowl. Nos anos seguintes, o governo comprou terras e estabeleceu unidades de conservação, implementando medidas de recuperação do solo e da vegetação nativa. Consequentemente, a degradação do solo diminuiu bastante: em 1935, quase 80% do território das Grandes Planícies sofriam com erosão do solo; quatro anos depois, essa porção tinha caído para 1/5 da área afetada.

Para as famílias que sofriam com as tempestades de poeira, o alívio era pequeno. Endividadas, sem produção e com os preços do trigo baixíssimos, milhares de pessoas perderam o único pedaço de chão que possuíam. Expulsas de suas antigas propriedades pelos mesmos bancos que financiaram o frenesi produtivo da década anterior, essas pessoas não tinham outra opção senão ir embora – muitas vezes, para sempre.

Cena de "As Vinhas da Ira", de John Ford (1940)

Uma das cenas mais marcantes da versão cinematográfica de “As Vinhas da Ira”, dirigida por John Ford e estrelada por Peter Fonda em 1940, é a passagem da família Joad por um acampamento de trânsito para “refugiados” do Dust Bowl, o primeiro da jornada deles até a Califórnia: a miséria crua, a precariedade das instalações, as condições indignas de vida – tudo isso no seio da maior economia do planeta, depois de uma década vibrante de crescimento “sem fim” (aliás, cenas desse trecho do filme chegaram a ser usadas/manipuladas pela propaganda da Alemanha nazista durante a Segunda Guerra para mostrar a miséria da sociedade norte-americana).

O destino final nem sempre era melhor. Em muitas cidades norte-americanas, os deslocados do Dust Bowl acabaram engrossando as Hoovervilles – favelas que recebiam esse nome como uma “homenagem” ao presidente Herbert Hoover (1929-1933), considerado por muitos na época como o principal culpado pelo desastre econômico.

Uma das imagens mais marcantes do século XX: "Migrant Mother", tirada por Dorothea Lange em 1936. Seu nome era Florence Owens Thompson (1903-1983).

Para quem ficava – porque não tinha para onde ir e/ou não tinha perdido sua terra – o que sobrava era persistência: esperar até o tempo melhorar e viver com o que tinha. A recuperação foi lenta, com direito a mais uma temporada de tempestades de poeira na década de 1950, numa intensidade muito menor que a dos anos 1930. Mas os reflexos daquela época persistem até hoje: as cicatrizes continuam marcando aqueles que ficaram e aqueles que tiveram que ir embora. E, principalmente, a principal lição daquele episódio é frequentemente esquecida: vivemos em um mundo com limites; os recursos são finitos, a capacidade produtiva é finita, e os impactos de se empurrar demais esses limites podem ser pesados demais para se arcar – em tempos de discussão sobre clima e água, essa valiosa lição precisa ser retomada e reforçada em todo o mundo.

As imagens hoje icônicas de Dorothea Lange e Arthur Rothstein são um retrato fiel do desastre ambiental e de seus efeitos sociais: miséria, desolação, e poeira. As promessas do crescimento sem fim, enterradas na poeira.

Bruno Toledo

 

Com porte grave, James Inhofe tomou a palavra em sessão no Senado norte-americano no último dia 26 disposto a contestar da forma mais efetiva possível a ideia de que o planeta Terra esteja vivendo algum tipo de “aquecimento”. No meio de seu discurso, para um plenário relativamente vazio, Inhofe repentinamente desembala uma bola de neve e a levanta, mostrando-a para seus colegas. A constatação: como podemos estar no meio de um processo de aquecimento global, com as temperaturas médias globais subindo radicalmente nas últimas décadas, se está frio pra c… lá fora! Afinal, pelo segundo ano consecutivo, o norte dos EUA e o Canadá vivem invernos com recordes de temperaturas baixas. No ano passado, essa região ficou praticamente congelada por causa do chamado vértice polar. Ainda assim, para incômodo de Inhofe e de seus parceiros negacionistas, as agências científicas do governo norte-americano (NOAA e NASA) apontaram o ano de 2014 como o mais quente já registrado no país. Como isso é possível? Com bola de neve e tudo?

Essa tem sido uma luta particularmente difícil para o veterano senador republicano pelo estado de Oklahoma: nem mesmo a maior parte dos simpatizantes de seu partido concorda com sua posição. Pesquisa recente publicada pelo jornal The New York Times aponta que quase metade das pessoas que se identificam como republicanas apoiaria candidatos de seu partido que defendessem ações contra as mudanças climáticas. No público geral, 67% dos entrevistados estariam menos inclinados a votar em um candidato caso ele não acreditasse nas mudanças do clima. Os números, ainda que comparativamente pequenos, principalmente se olharmos para pesquisas desse tipo na Europa, mostram o quanto o público norte-americano aumentou seu grau de preocupação com esse problema desde o início do século. Na mídia e nas redes sociais, a batalha de Inhofe e sua “bola de neve” foi perdida: a cena do senador jogando uma bola de neve no plenário de senado transformou-se num meme constrangedor, alvo de críticas ácidas da direita e da esquerda norte-americana.

Para alívio de Inhofe e seus aliados, nesta legislatura o senador ganhou um palanque especial para contestar o que ele chama de “farsa” das mudanças do clima: a presidência do Comitê de Trabalhos Públicos e Meio Ambiente do Senado. Num ano particularmente importante para o processo político de negociação internacional no tema e num momento crucial anterior à disputa presidencial norte-americana em 2016, a presença de Inhofe numa posição de destaque no Senado é mais uma peça na estratégia republicana para desmontar as ações climáticas tomadas pelo governo Barack Obama nos últimos anos. Driblando a oposição republicana no Congresso, Obama tem editado decretos executivos para fazer valer seu objetivo de colocar os EUA num caminho mais racional no combate ao aquecimento do planeta – bem distante da inação política característica do mandato de seu antecessor, o republicano George W. Bush (2001-2009). Para os republicanos, derrubar essas medidas no Congresso imporia mais uma grande derrota ao presidente na véspera de uma disputa presidencial, com grande possibilidade de esse revés contaminar as chances políticas do/a futuro/a candidato/a democrata à Presidência no próximo ano.

Poucos lugares nesse mundo apresentam uma partidarização tão profunda da questão climática como os EUA. O debate político sobre o tema cultiva aquele tipo de radicalização tão comum nos chamados “grandes temas sociais”, como o uso de drogas, o direito ao aborto, e casamento civil de pessoas do mesmo sexo: ou você apoia ou você não apoia – ou seja, se você apoia, provavelmente você tende a se alinhar os democratas; se você não apoia, possivelmente você tenha mais apreço pelos republicanos. Inserido nessa disputa entre conservadores republicanos e liberais democratas (uma simplificação da realidade política de cada partido e das dezenas de outros partidos sem representação política no país), o problema climático tornou-se menos uma questão de constatação científica e mais uma questão de opinião política.

Como no resto do mundo, a principal variável na equação política do clima nos EUA é a economia. Para o governo Obama, os EUA não podem mais se isentar de sua responsabilidade pelo problema climático; mais do que simplesmente cortar emissões, o atual presidente norte-americano defende uma abordagem mais positiva do desafio climático, olhando-o como uma oportunidade para modernizar a economia do país e torná-la mais competitiva no pós-crise financeira. De acordo com o presidente, o governo deve trabalhar na transição para uma economia preparada para trabalhar com menos emissões de gases do efeito estufa, olhando para o que já está sendo feito na Europa e na China. Para a oposição republicana, essas políticas endereçam um problema que eles não concordam que existe e machucam gravemente a economia norte-americana, ao restringir o uso de fontes baratas e tradicionais de produção energética (leia-se carvão e petróleo).

O capítulo mais recente nessa seara foi a aprovação pelo Congresso da construção do oleoduto Keystone XL – quase 1.900 km de dutos para transportar petróleo da província canadense de Alberta para o estado norte-americano de Nebraska, num volume que chegaria a 830 mil barris de óleo por dia. Para os republicanos, a construção desse novo trecho da Keystone diminuiria a dependência de petróleo vindo do Oriente Médio, aumentaria a oferta desse produto (o que reduziria os preços no país) e geraria 42 mil vagas de trabalho durante os dois anos de implantação. Para os democratas, junto com ambientalistas, esse trecho de oleoduto poderia impactar gravemente o meio ambiente em regiões sensíveis previstas no traçado do projeto, em especial no estado de Montana, além de ir contra a proposta do atual governo em diminuir o uso de combustível fóssil por parte da indústria norte-americana.

Em fevereiro passado, aproveitando a nova maioria republicana no Senado, o Congresso aprovou sua construção. Pouco depois, Obama rejeitou a proposta aprovada pelos congressistas, afirmando que a decisão sobre essa questão deve ser tomada pelo poder executivo. Sem votos para derrubar o veto presidencial, os republicanos continuam defendendo a proposta e aguardam os próximos passos do governo Obama ou mesmo a eleição do próximo governo. A “vitória” dos grupos ambientalistas ainda é provisória: a atual administração não rejeita a possibilidade de aprovar a construção da Keystone XL, mas exige que alterações sejam feitas no projeto de construção. Essa aprovação pode vir a ser feita pelo próprio presidente Obama ou pelo seu sucessor.

No caso norte-americano, uma variável que complica ainda mais o debate político sobre clima é a crença religiosa. Para alguns conservadores cristãos, que compõem o famoso Tea Party, a narrativa da responsabilidade humana sobre as alterações recentes do clima replica a “arrogância” liberal de achar que os homens podem mais que Deus. Nesse ponto, a principal crítica vai para a ciência como um todo. O raciocínio que contesta a ciência por trás dos estudos sobre clima é similar àquele que rejeita o ensino da teoria da evolução natural das espécies nas escolas ou mesmo o movimento recente contra vacinação infantil: a ciência, arrogante em seu próprio conhecimento, é incapaz de explicar o que, para esses setores, tem uma resposta “transcendental”. Assim, as mudanças do clima são eventos naturais, nos quais a humanidade não tem responsabilidade alguma (leia-se vontade divina), ou elas são simples factoide, não passam de uma “farsa” propagada para atingir os Estados Unidos.

Em muitas análises da discussão política sobre clima nos Estados Unidos, frequentemente essa variável sociocultural é desconsiderada como um obstáculo efetivo para a ação política no país. De acordo com esse raciocínio, as variáveis econômicas são muito mais importantes para definir qual será o caminho tomado pelos EUA; se a ação climática se explicar em termos econômicos, ela se viabilizará. Concordo com isso, mas considero perigoso ignorar o potencial danoso que uma abordagem anticientífica pode ter sobre o processo decisório da maior potência do planeta – que possui regras eleitorais sui generis que permitem que um candidato com menos votos gerais, dependendo da distribuição de seus votos nos estados, consiga assegurar a presidência do país. A possível eleição de um negacionista iria derrubar todas as medidas tomadas e os avanços realizados pelo governo Obama em clima com apenas uma assinatura presidencial. Isso traria consequências sinistras para os Estados Unidos e para as discussões internacionais em clima, que já sofreram danos em outros momentos por causa da reticência de quem ocupava a Casa Branca.

Aos poucos, os republicanos começam a tentar a reconciliação com a ciência climática. Graças em boa medida à influência de grandes lideranças empresariais e de alguns líderes políticos do partido alinhados com o tema, como o ex-governador e astro de Hollywood Arnold Schwarzenegger, setores mais realistas do partido começam a defender algum grau de ação política para conter as mudanças do clima. Entretanto, olhando para as lideranças congressistas e estaduais do partido, o caminho para uma compreensão mais clara da relevância das mudanças climáticas será longo para os republicanos. Que a bola de neve da ignorância climática não esmague os eleitores norte-americanos em 2016!

Bruno Toledo

 

Outubro de 1985. Gro Harlem Brundtland, chefe da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas e ex-primeira-ministra da Noruega, fazia sua primeira visita ao Brasil.

Ciceroneada pelo ambientalista Fabio Feldmann, Brundtland teve uma das visões mais dantescas de sua jornada global de debates e reflexões sobre a deterioração do meio ambiente: a descida da Serra do Mar, na travessia entre São Paulo e Santos, e a fumaça cinza que cobria os céus de Cubatão. Era o “Vale da Morte”, um cenário que garantia àquela cidade o ingrato título de “cidade mais poluída do mundo”.

Não era apenas a poluição atmosférica resultante das indústrias presentes naquela cidade que colocava Cubatão numa situação tão singular. A precariedade em que vivia grande parte de sua população, em favelas escoradas na serra e próximas a dutos de gás, era ainda mais gritante. Era o progresso industrial, o descaso social e o desastre ambiental, tudo numa mesma cidade.

Dois anos depois, em seu relatório “Nosso Futuro Comum”, Brundtland e os membros de sua comissão defenderam uma nova abordagem sobre o desenvolvimento econômico, associada à necessidade de preservar os recursos e a qualidade do meio ambiente, equilibrando necessidades presentes e futuras e reduzindo o impacto humano sobre a natureza. Eram as bases do termo “desenvolvimento sustentável”, o “desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Esse termo reorientaria o movimento ambientalista a partir do final dos anos 1980 e colocaria a questão ambiental na grande agenda política global na década seguinte, um movimento que resultaria na Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992 (ECO-92), no Rio de Janeiro.

Curiosamente, Brundtland passaria ao largo das consequências de seu trabalho entre 1986 e 1996, quando reassumiu o governo norueguês. Posteriormente, ela dirigiu a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que a deixou distante das discussões sobre desenvolvimento sustentável até meados de 2003. Foi apenas a partir dessa época, mais de uma década depois da conferência do Rio, que Brundtland assumiu um papel mais ativo, particularmente no debate político sobre mudança do clima. Hoje, ela é representante especial da ONU para Mudanças Climáticas e uma das maiores referências globais na discussão sobre um futuro de baixo carbono para o planeta.

Gro Brundtland, em evento no Centro Ruth Cardoso (Foto: Vinicius Doti/Instituto Fernando Henrique Cardoso)

Em visita recente ao Brasil para participar de eventos do Fronteiras do Pensamento, a ex-primeira-ministra norueguesa expôs algumas reflexões sobre o quanto o enfrentamento das mudanças climáticas evoluiu nas últimas décadas e sobre os desafios de um mundo pós-carbono. Para ela, o entendimento básico sobre o perigo das mudanças climáticas já é praticamente unânime, mas as respostas ainda não estão plenamente alinhadas, o que pode nos colocar numa situação dramática nas próximas décadas.

De acordo com Gro Brundtland, dois elementos são fundamentais para que o enfrentamento às mudanças climáticas seja efetivo: o engajamento da iniciativa privada e a liderança dos gestores públicos. “Em Nova York ficou muito claro para mim que o setor privado agora vê os riscos do pensamento tradicional. Eles querem investir em um futuro com baixa emissão de carbono. Eles não querem investir em história. Eles veem as oportunidades, eles pedem muito mais ação governamental para inspirar e chegar às soluções para um mundo sustentável”.

Para ela, a nova geração de lideranças empresariais começa a fazer a diferença nos esforços globais para aplacar as alterações do clima, principalmente em uma das questões mais delicadas nessa luta: a precificação do carbono.

“O recente relatório Crescimento Melhor, Clima Melhor impressionou muita gente. Ficou claro que há muitos no setor privado que agora enxergam oportunidades, não apenas necessidade, em se adotar soluções de baixo carbono. Eles demandaram que se atribua um preço ao carbono, pediram um esclarecimento dos governos sobre regulação futura, estavam impacientes, pedindo ação”.

Brundtland citou o esforço norueguês para precificar suas emissões como um exemplo de como a precificação do carbono pode ser benéfica na luta para reduzir as emissões e para promover inovação tecnológica e investimentos verdes no setor privado. “Pagar pelas emissões não teve impacto sobre nossa indústria. Eles se adaptaram e conseguiram atrair investimentos para financiar essa adaptação”.

A precificação do carbono é um dos incentivos que Brundtland aponta como importantes para que o mundo consiga fazer uma transição efetiva para o baixo carbono. Nesse caso, o papel dos governos é fundamental para que se defina um contexto que impulsione a adoção de novas soluções e que facilite o abandono de tecnologias antigas.

“Políticas públicas são necessárias para estimular os mercados, para remover barreiras, para nivelar o campo de atuação e estabelecer objetivos e alvos claros para energia renovável e eficiente. Ao mesmo tempo, precisamos desfazer as políticas antiquadas que criam os incentivos errados e que nos mantêm presos a formas não sustentáveis de fazer negócios”.

Gro Brundtland e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em evento no Centro Ruth Cardoso (Foto: Vinicius Doti/iFHC)

No que tange às negociações internacionais para definir o novo acordo climático que sucederá o Protocolo de Quioto a partir de 2020, Gro Brundtland aponta a necessidade de uma liderança genuína por parte dos governos para que possamos chegar a algum resultado efetivo e cita a Conferência de Copenhague (COP 15) como um exemplo de falta de liderança e de confiança entre os negociadores. “Lá em Copenhague, tínhamos numa mesma sala o presidente norte-americano Barack Obama, tínhamos Angela Merkel da Alemanha, e o representante chinês na conversa era um diplomata de terceiro escalão, tudo isso porque o líder chinês não concordava que o país assumisse mais responsabilidades e por isso sequer participava das conversas”.

“Coragem e visão de longo prazo são importantes para que os líderes globais possam construir algo efetivo nos próximos meses”, aponta Gro Brundtland.

Um último aspecto ressaltado pela ex-primeira-ministra norueguesa é a importância da educação como ferramenta para catalisar a transição para um mundo de baixo carbono nas próximas décadas. “Educação é a chave para transformar o panorama ambiental universal”. Novamente, o exemplo da Noruega mostra como a educação facilita esse processo. “Quando precificamos as emissões na Noruega, a indústria petrolífera gritou e protestou, mas não conseguiu comover a população, que já sabia da importância e da necessidade de fazermos isso. Ter a informação correta e conscientizar a população da realidade do problema é fundamental”.

Bruno Toledo

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