Estima-se que cada brasileiro consuma cerca de cinco litros de agrotóxico por ano. De acordo com dados da ANVISA (2011-2012) uma média de 30% dos alimentos que consumimos contém substâncias proibidas no país ou estão acima do nível de uso permitido.

Feiras Orgânicas ou Agroecológicas são ótimas como alternativa para compra direta com o produtor, o que diminui intermediários (supermercados) e por consequência os preços dos alimentos, ao mesmo tempo que estimula a produção local.

O Mapa de Feiras Orgânicas é uma ferramenta de busca rápida, idealizada pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), que tem como objetivo tornar os produtos orgânicos mais acessíveis e fomentar uma alimentação saudável em todo Brasil.

Pelo Mapa é possível filtrar as buscas de acordo com a localização, horário de funcionamento e outras informações enviadas pelos usuários.

Manuela Maluf

 

 

 

Faz tempo que a gente vem falando no GVces sobre o potencial mobilizador da arte, seja por meio de seu processo criativo ou pela contemplação de uma obra ou performance, no sentido de ampliar o olhar do indivíduo e promover um contato com a realidade por meio de outros sentidos menos cognitivos e racionais.

Já que os números e estatísticas alarmantes não têm sido suficientes para nos fazer mudar de postura em relação a questões como as mudanças climáticas, a mobilidade nos grandes centros, a escassez de recursos, a ameaça a povos tradicionais e a desigualdade socioeconômica, talvez um pouco de poesia tenha esse poder!

O artista Eduardo Srur já conseguiu chamar a atenção dos paulistanos algumas vezes, criando instalações pela cidade como a “PET”, em que garrafas gigantes foram colocadas no Rio Tietê, e a “Sobrevivência”, que vestiu monumentos icônicos, como a estátua do Borba Gato, de coletes salva-vidas.

Agora esse movimento vai se aproximando de círculos antes mais restritos a governos, empresas e organizações multilaterais na construção de uma agenda para a sustentabilidade.

Um bom exemplo é o Art of Change 21, um grupo de artistas (que inclui um coletivo brasileiro, o Opavivará), empreendedores sociais e ativistas reunidos para conceber e realizar intervenções na COP 21 em Paris.

Eles divulgaram um vídeo essa semana com entrevistas aos participantes e questionamentos que têm muito a ver com o que falamos aqui no GVces e vale uma conferida!

Foi-se o tempo dos “eco-chatos”…a voz da sustentabilidade ganha novos ecos, cada vez mais sutis, necessários e potentes.

Manuela Santos

 

 

A marcha pelo clima levou uma multidão às ruas de Nova York juntando pais, filhos, jovens, celebridades e autoridades para discutir mudanças climáticas dois dias antes da Cúpula de Clima que ocorre no dia 23/9, na Sede da ONU.

Em Nova York para acompanhar eventos ligados à Cúpula, tive o privilégio de testemunhar a marcha, que foi replicada em várias partes do mundo e tinha uma mensagem clara para os líderes de todo o planeta: #NowNotTomorrow (agora, não amanhã). A hashtag que se espalhou nas redes sociais, entre tantas outras, traz dois alertas simultâneos: já estamos vivendo as mudanças climáticas e é preciso ação imediata em escala global para evitarmos impactos ainda piores na sociedade, na economia e no meio ambiente.

Abaixo, algumas imagens que capturei durante a marcha, que revelam um novo momento de mobilização coletiva na história recente das negociações internacionais, há pouco mais de dois meses da COP-20, a Conferência do Clima a ser realizada no Peru.

Nessa última imagem, enquanto a marcha seguia pelas ruas, ao lado no Central Park, um grupo fazia a Vigília da Terra.

Guarany Osório

 

23 de outubro de 1984, Grã-Bretanha.

Telejornal noturno da BBC. Entre os destaques do dia, uma matéria produzida pelo correspondente da emissora na África do Sul, Michael Buerk. Pouco mais de sete minutos de reportagem. O horror chegava aos lares britânicos no horário nobre. As imagens são fortes. Se quiser assistir ao vídeo, clique aqui.

Poucas vezes o poder da televisão como veículo de comunicação e mobilização se mostrou tão intenso como depois dessa matéria. Para boa parte do público ocidental, a Etiópia era mais um país perdido no meio da África. Depois de a  BBC transmitir a reportagem de Buerk, a mídia ocidental correu para aquele país. Repentinamente, os lares da Europa e dos Estados Unidos foram inundados com imagens quase explícitas de etíopes famintos, moribundos, abandonados à própria sorte. Idosos, crianças, bebês. As agências humanitárias aproveitaram esse despertar da mídia para chamar mais atenção para o seu trabalho de campo, angariando recursos junto a esses públicos mais ricos.

Mas podemos dizer que a crise etíope foi singular e ganhou essa dimensão histórica por causa da reação de uma pessoa em particular: o rockstar britânico Bob Geldof. Ele abriu caminhos para que outras personalidades começassem a se envolver com bandeiras sociais ao redor do mundo nos anos seguintes, como Bono Vox, George Clooney, Angelina Jolie, entre tantos outros.

Comovido pelas imagens que chegavam da Etiópia, Geldof procurou produtores e colegas da indústria fonográfica britânica para compor e gravar uma música especial para angariar fundos para os etíopes famintos, “Do They Know It’s Christmas?”. A canção foi lançada durante a temporada de festas de fim de ano, sendo um sucesso estrondoso: poucas vezes uma canção chegou tão rápido ao topo das paradas musicais no Reino Unido. Para termos ideia do impacto dessa música, Geldof esperava angariar algo em torno de 70 mil libras esterlinas com a canção – ela acabou rendendo mais de £ 8 milhões.

Pouco tempo depois, e influenciados pela iniciativa de Geldof, alguns artistas norte-americanos também começaram a se envolver numa mobilização em prol das vítimas da fome na Etiópia. O fruto mais notável desse esforço foi uma das músicas mais famosas dos anos 1980: “We Are the World”, composta pelo “rei do pop” Michael Jackson e Lionel Ritchie, com produção do lendário Quincy Jones. O videoclipe da música permanece sendo um dos momentos mais marcantes daquela década. Artistas como Stevie Wonder, Paul Simon, Diana Ross, Bruce Springsteen, Cindy Lauper, Willie Nelson e Ray Charles, participaram da gravação da música, que rendeu mundialmente mais de US$ 20 milhões (valores da época).

A partir da mobilização artística nos Estados Unidos e no Reino Unido, surgiu a ideia de realizar um grande festival de música, transmitido para todo o planeta, com o propósito de reunir ainda mais recursos para destinar ajuda humanitária à Etiópia.

Esta foi a semente do lendário festival Live Aid, realizado em 13 de julho de 1985, há 29 anos.

“It’s twelve noon in London, seven AM in Philadelphia, and around the world it’s time for: Live Aid”

As dimensões do Live Aid são surpreendentes até hoje. Ele foi realizado simultaneamente (mas não totalmente, por causa do fuso horário) nos Estados Unidos (no antigo JFK Stadium, na Filadélfia) e no Reino Unido (no lendário Wembley Stadium, em Londres), com programações que se estenderam por mais de 16 horas. Nos dois locais, Paul McCartney, David Bowie, Queen, U2, The Who, Madonna, The Beach Boys, Eric Clapton, Sting, Bob Dylan, Mick Jagger, Tina Turner, Black Sabbath, Duran Duran, Elton John, entre outros nomes estelares da música, se apresentaram para um público empolgado (mais de 120 mil pessoas na Filadélfia e outras 80 mil em Londres). Uma das apresentações mais lembradas até hoje foi a da banda Queen, então no auge do seu sucesso musical, em Wembley. Outro evento memorável foi a dupla apresentação de Phil Collins, que cantou primeiro em Londres e depois voou de Concorde para se apresentar no JFK Stadium.

Além do valor recolhido com os ingressos, o Live Aid também contou com doações individuais via telefone, no estilo dos tradicionais teletons promovidos por emissoras de TV desde os anos 1950. Junto com os direitos de transmissão televisiva, o valor arrecadado pelo festival foi de mais de £ 150 milhões – um número bastante alto, mesmo para os grandes festivais atuais de música. Do ponto de vista de arrecadação financeira para ajuda humanitária, o Live Aid é o evento mais bem sucedido da história. Seus resultados são notáveis, principalmente por nunca mais terem se repetido, mesmo com crises ainda mais sérias. O Live 8, promovido pelo mesmo Geldof 20 anos depois do original, tentou retomar o espírito do festival em prol da luta contra a pobreza global, mas, mesmo com uma estrutura maior, ele foi incapaz de fazer sombra aos shows de 1985 e seus resultados.

Um dos segredos do sucesso do Live Aid de 1985 foi exatamente a motivação por trás daquele evento. As imagens que chegavam da Etiópia eram angustiantes demais. Para muitas pessoas, aquilo simplesmente exigia ação, nada mais. A mobilização humanitária em torno da crise na Etiópia foi muito grande, numa dimensão vista posteriormente apenas no tsunami asiático de 2004 e no terremoto no Haiti de 2011. Assistindo a alguns vídeos da transmissão dos shows no YouTube, nos deparamos com frases que hoje nos parecem clichés mais do que batidos – “vamos alimentar o mundo”, “quando vemos irmãos sofrendo, nós sofremos juntos”, “é nossa responsabilidade ajudar àqueles que necessitam”, e por aí vai. O que hoje nos parece piegas era muito sério há quase três décadas, principalmente porque para esse público a crise etíope era a primeira grande “catástrofe africana” a ser transmitida na televisão em cores. Além disso, era a aurora do jornalismo 24 horas na televisão, personificado na CNN de Ted Turner: o cortejo de imagens se repetia nas telas o dia inteiro.

Poucas crises humanitárias tiveram tamanho destaque na mídia mundial como a fome etíope de 1983-1985. Até então, apenas a crise humanitária causada pela guerra civil em Biafra, na Nigéria, no final dos anos 1960 e começo dos 1970, tinha conseguido atrair a atenção mais específica da mídia ocidental. No entanto, a cobertura de mídia da fome etíope foi gigantesca, mesmo comparada com a de crises posteriores, como no Sudão, Somália e na República Democrática do Congo. O circo midiático armado na Etiópia conseguiu garantir espaço no noticiário ocidental e recursos financeiros para as agências humanitárias que até então trabalhavam solitárias na vastidão desértica da Etiópia. Abria-se uma avenida de possibilidades novas para as agências humanitárias: cobertura televisiva, engajamento artístico, pressão da opinião pública… Para quem vivia aquele momento em campo, no palco da crise, a repentina atenção do mundo dava esperança de que as coisas poderiam mudar na seara humanitária, particularmente no que dizia respeito à África.

Enfim, o espírito da época apontava para um despertar do mundo para com a África – tão empobrecida, tão abandonada, tão explorada, tão azarada… As coisas iriam mudar… Só que não.

Uma das maiores críticas ao Live Aid e à reação ocidental à crise da fome da Etiópia enfoca exatamente a despolitização desses movimentos. Isso não era apenas por causa da “ingenuidade” da mídia, artistas e público ocidentais, mas também porque as agências humanitárias que tanto necessitavam de recursos prezavam exatamente por esse afastamento. É o raciocínio tradicional da neutralidade humanitária: a necessidade de ajudar deve se sobrepor a qualquer consideração ou interesse que não seja ajudar à vítima. A lógica do bombeiro – correr para salvar, ajudar, resgatar, independente de qualquer outra coisa. Qualquer racionalização fora da necessidade emergencial era insuficiente e contraproducente.

No entanto, uma coisa que a própria crise de Biafra tinha mostrado – a duras penas para a comunidade humanitária, vale apontar – era que uma “crise humanitária” podia ser qualquer coisa, menos humanitária. Na esmagadora maioria das vezes, a “crise” nada mais é do que um efeito colateral de outra crise de natureza essencialmente politizada, como guerras civis e disputa por poder e recursos.

Em Biafra, a “crise” decorreu de um esforço deliberado do governo nigeriano de dificultar o abastecimento de alimentos e remédios para a população local, para assim enfraquecer as bases rebeldes. Pior, os separatistas biafristas também viram a “crise” como uma oportunidade para angariar apoio político internacional a sua causa, a ponto de contratar uma empresa de marketing para distribuir fotos macabras de crianças famintas e releases de imprensa para inundar as redações ocidentais com as últimas informações. Para os dois lados, a “crise” humanitária era benéfica.

E a coisa não era muito diferente na Etiópia. A fome não decorre exclusivamente de um fenômeno natural; na maior parte das vezes, ela também é resultado da disputa de poder (político e/ou econômico), e acaba se convertendo num instrumento desse conflito. Sim, o país vivia um severo período de seca, que afetou diretamente a produção agrícola e a pecuária local. No entanto, na década anterior, o governo etíope (de orientação comunista) tinha promovido um processo caótico de coletivização das propriedades rurais (que, em muitos casos, estavam nas mãos de um clã ou família há gerações). A produtividade das fazendas despencou, o que forçou muitas famílias a buscarem refúgios em locais onde a seca não estava não forte, pressionando as fazendas que ainda conseguiam produzir alguma coisa. Quando olhamos para esses fatores, o colapso alimentar era um resultado óbvio.

A fome já era uma realidade em 1982, mas a ajuda demorou a chegar à Etiópia. Pelo lado ocidental, havia a questão da Guerra Fria: afinal, o governo etíope era comunista, aliados dos soviéticos. Somente quando a “crise” chegou aos lares e às paradas musicais nos Estados Unidos e na Europa, entre 1984 e 1985, é que a reação ocidental ganhou ímpeto, para a felicidade das organizações humanitárias. Recursos eram praticamente despejados para atender aos famintos etíopes.

Como em Biafra, o governo central se aproveitou da “generosidade” ocidental para fazer um pouco de política do caos no norte do país. Deliberadamente, o governo etíope desviava recursos e mantimentos de ajuda destinados para as regiões em conflito. A fome persistia nessas regiões, o que era muito bom para manter a “crise” na pauta ocidental e atrair mais recursos, ao mesmo tempo em que forçava as populações que lá moravam a sair e buscar ajuda mais ao sul, esvaziando a base local de apoio aos separatistas e ajudando a encher os inúmeros campos de refugiados espalhados pelo país, o que, por sua vez, garantia mais imagens brutais para a mídia ocidental – e mais recursos.

Em campo, as agências humanitárias sabiam disso, mas não conseguiam expressar nenhum tipo de desaprovação pública. A neutralidade clássica também implica confidencialidade: o que acontece em campo, fica em campo. Num mundo politizado, a única forma de um ator não político agir é sem pisar no calo de ninguém. Apenas os Médecins Sans Frontières (MSF) se posicionaram mais criticamente contra a forma como o governo etíope estava se aproveitando dos esforços humanitários empreendidos no país. O MSF disse o óbvio para quem estava em campo: a fome (e a sua persistência) era resultado direto da política brutal de reassentamentos forçados. O governo etíope respondeu com a expulsão da organização e a imposição de restrições à atuação das demais agências.

Ninguém mais abriu a boca para falar um “ai”. Poucos na imprensa ocidental abordavam a “crise humanitária” etíope pela perspectiva da disputa de poder local. Ninguém falou sobre isso no Live Aid. E o dinheiro continuou sendo despejado na Etiópia, até o momento em que o tema simplesmente deixou a pauta ocidental.

O clímax desta história parece mais com um anticlímax. No final das contas, ninguém fez nada para impedir que o governo etíope continuasse promovendo as mesmas políticas que tinham facilitado o surgimento da fome. Os desvios continuaram sendo feitos e o conflito persistiu até 1991, quando a Eritreia conquistou sua independência e o governo comunista etíope caiu.

Ao todo, a fome etíope de 1983-1985 atingiu quase oito milhões de pessoas, matando de 1/8 delas. No norte do país, foco da crise, mais de 400 mil pessoas perderam a vida, sendo que metade delas pereceu devido aos desmandos e abusos do governo central, que facilitaram a fome nessa região.

Para o universo das organizações humanitárias, a “crise” na Etiópia inaugurou um período de desafios que modificaram profundamente as bases do esforço humanitário. Questões como a politização da ajuda humanitária e sua instrumentalização por governos e insurgentes começaram a assombrar os profissionais da área, e alimentaram nesse campo um processo ainda em andamento de soul searching. A relação entre humanitários e mídia também começou a se aprofundar a partir da Etiópia, o que levaria a uma simbiose quase explícita entre esses atores nas crises seguintes (particularmente nos Balcãs, durante os conflitos dos anos 1990) – e, consequentemente, mais pressão sobre o conceito de neutralidade da ajuda.

E a Etiópia? Bem, sua sorte somente começou a melhorar na última década, mesmo enfrentando mais um período de seca no começo dos anos 2010. Para o público ocidental, o país voltou a sua condição de “lugar distante”, perdido no meio da África…

O que sobrou na cabeça das pessoas no Ocidente foram os shows memoráveis, os nomes estrelados da música, as canções gravadas, e alguma lembrança bem tênue de que o motivo daquilo tudo era a “fome na África”.

PS: Ainda que a leitura desse post seja um pouco crítica, seria desonesto não observar que Bob Geldof continuou se envolvendo com questões humanitárias na Etiópia, visitando o país inúmeras vezes, mesmo depois do auge da fome, mesmo depois do apagar dos holofotes da imprensa internacional. Posteriormente, ele se envolveu em questões como o combate à pobreza nos países subdesenvolvidos, participando da iniciativa ONE Campaign, organizada pelo vocalista do U2 Bono Vox.

Bruno Toledo

 

Você levaria a sério um curso superior em psicologia que focasse apenas no Freudismo? E economia, faz algum sentido ter um curso dessa natureza baseado em apenas uma perspectiva teórica? Pois é o que questionam futuros economistas em todo o mundo.

Uma das principais críticas feitas aos cursos de economia é a sua falta de pluralismo. No começo de maio, um grupo que reúne associações estudantis em economia em 21 países assinou uma carta aberta contra o ensino tradicional de economia. Para eles, o currículo da disciplina sofreu um “estreitamento dramático” nos últimos 20 anos, o que vem prejudicando a habilidade dos formados de encontrar soluções para os desafios complexos do século XXI, como estabilidade financeira, segurança alimentar e mudanças do clima. No Brasil, o grupo Nova Ágora é uma das organizações signatárias da carta.

Segundo o grupo, os cursos de economia atualmente se limitam apenas à visão neoclássica, em detrimento de outras perspectivas econômicas importantes, como a clássica, keynesiana e a marxista. Além da pobreza teórica, as disciplinas de economia não conseguem sair do ensino de metodologias quantitativas, explorando parcamente métodos qualitativos que, de acordo com a carta, fariam os estudantes questionarem seus pressupostos e conclusões.

A carta se insere num movimento mais amplo de questionamento às bases do ensino de economia nos últimos anos, particularmente depois da crise econômica de 2008.

Em 2009, personalidades do mundo econômico, como Paul Volcker (ex-presidente do FED, o banco central dos EUA) e George Soros (renomado investidor), criaram o Instituto para o Novo Pensamento Econômico (INET), com o propósito de estimular a renovação da pesquisa e do currículo dos cursos de economia. Dois anos depois, um grupo de estudantes abandonou o curso introdutório de Greg Mankiw na Universidade de Harvard, levantando questionamentos quanto à diversidade teórica e metodológica do curso. Pouco tempo depois, estudantes da Universidade de Manchester iniciaram um movimento, denominado Post-Crash Economics Society, defendendo mudanças nos livros de ensino em economia.

Outros nomes importantes da economia também se manifestaram criticamente à forma como os cursos de economia são desenvolvidos. O economista francês Thomas Piketty, figura popular nos últimos meses devido ao seu livro recente “O Capital no Século XXI”, argumenta que a disciplina precisa superar sua paixão infantil por matemática e por especulação puramente teórica e com frequência altamente ideológica, em detrimento da pesquisa histórica e da colaboração com outras ciências sociais. Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, também apontou a deficiência dos cursos atuais de economia à luz da crise econômica de 2008. Segundo ele, a teoria keynesiana já trazia ferramentas para diagnosticar e superar a crise, ao passo em que a teoria neoclássica se mostrou incapaz de sequer prever a crise.

Bruno Toledo (com informações do portal Exame)

 

A questão dos resíduos nos mares não é notícia nova. Ao longo dos últimos anos, proporcionalmente ao crescimento da consciência ambiental e dos impactos do nosso estilo de vida de consumo e descarte, também cresceram os alertas sobre nossos impactos sobre o oceano.

As enormes manchas de plástico boiando no Pacifico já ganharam até nome pomposo: “Pacific Garbage Patch”. Também são, essas zonas de acúmulos de resíduos, temas de ações para chamar a atenção para o problema. Em junho de 2014, dois times de oito nadadores percorrerão a distância entre o Havaí e a praia de Santa Mônica, em Los Angeles a nado, cruzando este grande lixão flutuante.

Antes deles, em 2010, uma equipe de seis aventureiros cruzou o Pacífico saindo de São Francisco e atracando em Sidney, em um barco catamarã feito com 12.500 garrafas PET e outros produtos plásticos, o Plastiki. Nesta expedição eles levantaram questões sobre a acidificação dos oceanos, aumento do nível das águas e sobre as 33,5 mil (!!!) toneladas de plástico que flutuam nos oceanos. Vale a pena assistir o TEDx de um dos idealizadores do projeto, David de Rothschild.

Mesmo com todo estes alertas, muito pouco se sabe sobre os oceanos ainda. Como destaca o doutor em administração pública e governo Fábio Storino, na edição 79 da revista Página22 (“S.O.S. Oceanos”), a NOAA, agência oceânica americana, estima que 95% do mundo subaquático permaneça inexplorado. Isso me leva a pensar: Se todo este resíduo que já foi mapeado está nos 5% conhecidos dos oceanos, o que estará lá embaixo? O que é feito do resíduo que não flutua? Estará todo o leito do oceano repleto de lixo?

Uma notícia me faz pensar que sim. Escondida entre inúmeras outras reportagens sobre as buscas do vôo MH370, desaparecido enquanto fazia o trajeto entre Kuala Lumpur e Pequim, veio uma da BBC Brasil que me alarmou. As buscas acabaram levando as equipes a regiões muito pouco frequentadas do Oceano Pacífico e nessas regiões satélites tiraram fotos de centenas de objetos flutuando. Não objetos pequenos, mas de respeitáveis 2 a 25 metros de comprimento. Repito: CENTENAS!

Todas essas evidências giram em torno de um mesmo tema: a relação que temos com o que consumimos e como fazemos o descarte do que sobra.

Apesar do nosso estilo de vida de consumo e descarte não ser um tema constante de trabalho para o GVces, recentemente foi assunto de duas iniciativas. A primeira, um documentário produzido pelos alunos do FIS, matéria eletiva da FGV conduzida pelo GVces. Vale a pena ver o olhar que os jovens trouxeram sobre esse tema. A outra, o projeto Inovação e Sustentabilidade na Cadeira de Valor, que tratou no ciclo 2013 de inovação na gestão de resíduos. O resultado do ciclo foi uma publicação que trouxe diversos casos de inovação na cadeia.

As singelas contribuições do GVces, as notícias da imprensa e as evidências do dia-a-dia mostram que temos um longo caminho pela frente, mas os alertas não podem mais ser ignorados.

Leandro Gouveia

 

Protestos contra a ditadura no Rio de Janeiro, 1964 (foto de Evandro Teixeira)

Poucos períodos da nossa história deixaram tantas “cicatrizes” no país como a ditadura civil-militar iniciada em 1964, há exatos 50 anos. Para muitos, essas cicatrizes são pessoais, impregnadas em sua pele, carne e/ou alma. Para outros, elas estão naqueles em que não estão mais presente entre nós – os desaparecidos (como Stuart Angel Jones e muitos dos guerrilheiros do Araguaia) e os “suicidas” (como Vladimir Herzog), por exemplo. Para a política e a economia brasileira, mesmo com as diversas reformas econômicas e a Constituição de 1988, a ditadura ainda se faz presente pelas condições político-econômicas que ainda persistem. Assim, mesmo que esse período esteja começando a fazer a transição da memória das pessoas para os livros de História, os governos dos generais-presidentes não são, nem de longe, episódios superados: muito do que a gente vive advém das opções políticas, econômicas e sociais feitas no período de exceção democrática.

Aproveitando esse momento especial de memória dos 50 anos da queda de Goulart e do início do regime militar, gostaria de lembrar aqui três cicatrizes físicas que persistem em lugares completamente diferentes: a BR-230, a famigerada Rodovia Transamazônica; o Elevado Presidente Costa e Silva, o polêmico Minhocão; e as usinas nucleares instaladas na região de Angra dos Reis/RJ. Cada uma dessas cicatrizes mostra, ao seu modo, como os tecnocratas e os militares que administraram o país por duas décadas não tinham uma noção realista nem um projeto viável de longo prazo. Cada uma delas nos traz à mente o quanto as opções e decisões políticas de um governo podem influenciar o debate político e a realidade social por décadas. Elas somente poderiam ter saído do papel num cenário em que a discussão política estava interditada, em que o contraditório não existia.

Rodovia BR 230, a Transamazônica, no começo dos anos 1970

Em extensão, a mais famosa cicatriz é a Transamazônica. Suas obras foram iniciadas em 1969, por ordens do então presidente Emílio Garrastazu Médici, com o propósito de ligar o Nordeste ao Norte do país. Essa ideia mascarava um objetivo bastante importante para os governantes militares: redirecionar a migração nordestina do Sudeste para o Norte, alimentado assim a ocupação humana da fronteira amazônica, estratégica para o governo federal. A ocupação seria feita a partir do modelo de agrovilas, num projeto que ligava originalmente João Pessoa (PB) a Benjamin Constant (AM), quase na fronteira do Brasil com o Peru.

Porém, a Transamazônica não cumpriu nenhuma das suas promessas – o que deveria integrar a Amazônia ao resto do país acabou virando um dos símbolos do fracasso estratégico do regime militar. O projeto não levava em consideração as condições do ambiente amazônico, repetindo os mesmos erros cometidos no começo do século XX pelos construtores da estrada de ferro Madeira-Mamoré. Malária e outras doenças tropicais eram muito comuns nos canteiros de obras isolados no decorrer da rodovia. As obras também não dialogavam com as necessidades de comunidades que já existiam na região: como todo grande empreendimento na Amazônia no século XX, os moradores locais pouco se beneficiaram com os investimentos feitos, já que as decisões eram tomadas em Brasília sem nenhum diálogo preliminar. Pelo contrário, a estrada trouxe especulação fundiária, agravando conflitos por terra e facilitando o avanço do desmatamento na região amazônica.

Os custos da obra foram muito maiores que o dimensionado, impedindo a sua finalização, especialmente no trecho amazônico: sem asfalto, a estrada fica totalmente inviabilizada em dias chuvosos. No final das contas, recursos econômicos e humanos foram desperdiçados pelo governo, e a Transamazônica ainda permanece sendo o exemplo mais notável da falta de planejamento do regime militar.

Em termos de impacto urbano, o Elevado Costa e Silva é a cicatriz mais notável do período ditatorial. Construído entre 1970 e 1971 pelo então prefeito biônico de São Paulo, Paulo Maluf, o Elevado aproveitava um projeto da gestão Faria Lima para construir uma via elevada sobre a Avenida São João, uma das vias mais tradicionais e congestionadas da capital paulista. Construído em tempo recorde (apenas 11 meses), o Elevado ganhou o nome do marechal Artur da Costa e Silva, um dos principais artífices do golpe militar e antecessor de Médici na presidência – além de responsável direto pelo Ato Institucional nº 5, talvez o documento mais infame da história do Brasil.

Elevado Costa e Silva, o “Minhocão”, em 1972

Obra-prima da tecnocracia fria e pesadelo de qualquer arquiteto e urbanista, o Minhocão alimenta críticas ácidas até hoje. Quem mora em São Paulo ou já esteve na região central sabe o quanto o famigerado Minhocão contribuiu para a decadência local. Mesmo sendo uma via arterial importante para o centro de SP, o Minhocão está a apenas cinco metros de distância das janelas de apartamentos residenciais e comerciais ao longo da Avenida São João. Nos horários de pico, a vista é uma das piores possíveis: carros e mais carros, um festival de poluição sonora e atmosférica. Coberta pelo elevado, a Avenida São João tornou-se ponto de prostituição, subemprego e violência.

Desde os anos 1990, a prefeitura tenta implementar medidas que vão desde a interdição da via em horários e dias específicos até o seu uso recreativo durante os finais de semana. A gestão Kassab apresentou algumas propostas para transformar o Minhocão num tipo de parque elevado, ao estilo do High Line de Nova York. Porém, as barreiras são muitas: numa cidade que ainda se orienta pelo modal automotivo, eliminar uma via movimentada não é tarefa simples, muito menos barata. Enquanto isso, o Minhocão continua firme, irritando os paulistanos e assombrando os administradores municipais.

Finalmente, outra cicatriz deixada pelos generais-presidentes foi a construção das usinas nucleares de Angra. Como a Transamazônica, as usinas de Angra 1 e 2 foram um poço de recursos financeiros gastos sem nenhum critério ou planejamento específico. Como o Minhocão, elas representam a completa ausência de diálogo político, sendo fruto simples da decisão de um grupo fechado de pessoas.

Usinas nucleares em Angra dos Reis

O programa nuclear brasileiro começou de fato no final dos anos 1960 e começo dos 1970, curiosamente na mesma época em que começava a surgir nos Estados Unidos e na Europa um movimento civil de crítica ao modelo energético nuclear. Em 1971, o governo Médici concluiu a compra do primeiro reator junto aos Estados Unidos, mas foram as crises internacionais do petróleo que levaram o país a apostar energicamente no programa nuclear. Quatro anos depois, Ernesto Geisel conduziu e fechou um acordo nuclear com a antiga Alemanha Ocidental (por ironia, um dos primeiros países a assistir uma oposição civil mais resistente à energia nuclear) para a compra de outros dez reatores, além da transferência de tecnologia alemã para o Brasil.

Novamente, a falta de planejamento realista tornou a execução do programa nuclear um dos grandes fiascos do regime militar. A primeira usina nuclear, Angra I, com o reator comprado em 1971, somente entrou em funcionamento 15 anos depois, já durante o governo José Sarney. Angra II, a segunda usina do programa nacional, construída com tecnologia alemã, foi concluída apenas em 2002, no final do governo Fernando Henrique Cardoso. A terceira usina anunciada pelo programa nuclear somente começou a sair do papel no final dos anos 2000, durante a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva.

Altos custos financeiros, demora prolongada na execução dos projetos, e produção energética ainda aquém do esperado são apenas alguns dos problemas associados à operação dessas usinas. Questões de segurança, como o manuseio futuro dos resíduos dos reatores (o famoso lixo nuclear) e a proteção da população civil em caso de vazamento, ainda preocupam especialistas, políticos e sociedade civil, especialmente após o acidente nuclear de Fukushima (Japão) em 2011.

Essas três cicatrizes dizem muito sobre a natureza daquele período político e se relacionam diretamente com as outras cicatrizes deixadas pelos monstros dos porões da ditadura. Nascido sob a luz da Guerra Fria, dos preconceitos do empresariado paulista e carioca e dos pendores intervencionistas das Forças Armadas, o regime civil-militar instalado em 1964 não admitia o contraditório. Qualquer tipo de oposição era sufocado, tanto no sentido figurado quanto no literal. Na mesma medida em que as liberdades civis eram cassadas, os “inimigos” do Estado brasileiro eram caçados na cidade, no interior, no meio da floresta, no exterior, nas letras de música, nas redações de jornais e revistas, na televisão…

As cicatrizes humanas do regime: os desaparecidos

Sem oposição, aqueles que subiram a rampa do Planalto procuraram formas de se manter no poder, e na visão tecnocrata que assumiu o país naquela época, manter-se no poder dependia diretamente do crescimento da economia brasileira.

O desenvolvimento econômico a todo custo substituiu a legitimidade democrática no sustento político do regime; assim, o desenvolvimentismo não apenas estava na agenda política dos generais-presidentes: ele era a ordem do dia, todos os dias. Como em toda corporação militar, uma ordem precisa ser cumprida – e num contexto de conflito (ainda que imaginário, já que os opositores armados eram ínfimos quando comparados com as forças do regime), ela deve ser cumprida de qualquer forma.

Assim, rios de dinheiro foram torrados em obras faraônicas e projetos ambiciosos sem se preocupar com o retorno realista desses investimentos e sem qualquer diálogo com a população. O tempo mostrou o quanto o projeto político-econômico do regime estava fadado invariavelmente ao fracasso. Olhando para o presente, a dúvida que fica em mim é se aprendemos algo com tudo isso…

Bruno Toledo

 

Há quase 20 anos, os administradores do Parque Yellowstone (Estados Unidos) decidiram reintroduzir uma população de lobos selvagens, espécie que esteve ausente na região por quase 70 anos. Ainda que fossem esperadas diferentes mudanças na dinâmica biológica no parque, a chegada desses lobos resultou em alterações muito mais profundas.

Confira nesse vídeo curto e bem interessante como os lobos mudaram a vida em Yellowstone.

Mario Monzoni

 

O Google, em parceria com o site Catraca Livre, lançou um mapa colaborativo que mostra pontos de prática esportiva espalhados por diversas cidades brasileiras. Nele as pessoas podem pesquisar grupos já formados que praticam atividades conjuntas ou mesmo cadastrar a sua própria atividade e formar um novo grupo!

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Leandro Gouveia

 

 De 20 a 27 de março de 2014 os paulistanos poderão conferir longas, médias e curtas metragens focados na temática ambiental, oriundos de mais de 30 países, grande parte deles inéditos no Brasil.

Os filmes, classificados nas temáticas cidades, campo, economia, energia e povos e lugares, abordam questões como energia nuclear; o uso de animais como cobaias; organismos geneticamente modificados; urbanismo e a vida nas grandes cidades; extração de recursos naturais por grandes corporações e suas consequências para o meio ambiente e para comunidades; localidades remotas e a dificuldade cada vez mais premente de manter tradições junto às novas gerações que querem ganhar o mundo e frente aos dilemas impostos pelas transformações do meio ambiente.

“A Mostra entra em sua terceira edição se consolidando em São Paulo como espaço para conferir produções de várias partes do mundo que marcam presença inclusive em grandes festivais de cinema. Estes filmes, inéditos em sua maioria no Brasil, não entram em circuito depois, salvo algumas exceções. É uma oportunidade única de assistir a estas produções. É também um espaço para promover o debate e a reflexão sobre questões do nosso dia a dia,” diz Chico Guariba, diretor da 3ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental.

Os filmes serão exibidos em sete salas do circuito de cinema da cidade: Reserva Cultural, Cine Livraria Cultura, Museu da Imagem e do Som (MIS), Cine Olido, Centro Cultural São Paulo, Cinusp Maria Antônia e Matilha Cultural. Além das exibições dos filmes, a Mostra promoverá debates com vários realizadores de diferentes nacionalidades. Toda a programação é gratuita.

Este ano a Mostra traz ainda duas novidades – a premiação dos melhores filmes latino americanos e um circuito universitário, que levará filmes e debates a diferentes instituições de ensino. O GVces é parceiro neste circuito e fará uma exibição na FGV.

Serão premiados os melhores filmes escolhidos por uma comissão julgadora e também por voto popular. As cédulas de votação estarão disponíveis nos locais das sessões, durante o período de realização da Mostra.

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