A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, que tem entre seus membros o GVces, reconhece avanços no conjunto de contribuições anunciadas pelo governo brasileiro para o acordo mundial sobre o clima (INDC), mas salienta uma necessária interação entre sociedade e governo para acompanhamento de métricas e de mecanismos de implementação. O movimento dará início, agora, a um mergulho nos marcos econômicos relacionados à INDC para entender as demandas e desdobramentos necessários. Em novembro, apresentará conclusões, de forma a auxiliar nos debates da COP 21.

Presidente Dilma Rousseff anunciou a INDC brasileira no último domingo, durante a Conferência da ONU para a Agenda do Desenvolvimento Pós-2015 (foto: Roberto Stuckert Filho/Presidência da República)

Representantes da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura analisaram as contribuições brasileiras para o acordo do clima, a chamada INDC, e concluíram: os números propostos são expressivos, demandarão muito esforço na implementação e alinhamento entre a sociedade, os setores produtivos e o governo. O movimento — composto por mais de 100 empresas, organizações da sociedade civil, centros de pesquisa e entidades setoriais, entre elas o GVces — observa que a redução de emissões de GEE (Gases do Efeito Estufa), de 37% até 2025 e de 43% até 2030 com base em 2005, é mais expressiva do que se sinalizava até então.

Os itens abordados no anúncio da INDC renderam duas ressalvas: ainda não foi definida a previsão de curto prazo, imediata, e há necessidade de maior envolvimento da sociedade nas métricas e nos mecanismos de implementação nas várias frentes. “É valioso observar que houve um compromisso de aliar os diversos setores pela meta global de não ultrapassar o aumento da temperatura média do planeta para além de 2°C, a ser pactuado na Conferência da ONU para a Mudança do Clima, a COP-21, que acontece em dezembro, em Paris”, salienta Celina Carpi, presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos. “Mas a interação com a sociedade será fundamental daqui para frente para garantirmos mecanismos que concretizem as contribuições. Esse é, de fato, o grande desafio do Brasil.”

Com a publicação das contribuições brasileiras, a Coalizão inicia agora um mergulho nos marcos econômicos citados no documento. A equipe de especialistas pretende estudar demandas, desdobramentos e esforços necessários para colocar em prática os compromissos do país. Em meados de novembro, estará pronta uma avaliação de impactos macroeconômicos, sociais e relativos às emissões, de maneira que possa agregar dados às discussões da COP e para trabalhar junto com o governo. “A Coalizão tem propostas e instrumentos para contribuir com a implementação dos compromissos assumidos. Acreditamos que por meio do diálogo do governo com a Coalizão, com o setor empresarial e com os vários segmentos envolvidos nessa frente, será possível traçar um plano tático operacional, que levará ao caminho para uma economia de baixo carbono”, diz Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds).

Mudança de uso da terra continua sendo uma frente crucial de ação para conter as emissões de gases de efeito estufa no Brasil (foto: Wikimedia Commons)

Ponto por ponto

No que se refere ao uso da terra e à agropecuária, o anúncio envolveu 32 milhões de hectares: 12 milhões ligados à recuperação de florestas, 15 milhões vinculados a pastagens e outros 5 milhões à integração lavoura-pecuária-floresta. “Não se trata de um total trivial, pois o volume é significativo”, aponta Roberto Waack, presidente do conselho da Amata. Entretanto, estudos indicam que a área total de florestas a ser recuperada pode ser bem maior. Chegar a essa dimensão com mais exatidão dependerá da consolidação dos próprios estudos, da aplicação do CAR (Cadastro Ambiental Rural) e do Código Florestal. “O compromisso da Coalizão é com os números que vierem da implementação do Código. Portanto, se ele indicar que a área potencial é maior do que aquela anunciada na INDC, a Coalizão trabalhará com esse novo número”, explica Roberto.

Beto Mesquita, diretor de Estratégia Terrestre da Conservação Internacional, destaca outro aspecto: “É fundamental também detalhar essa meta entre as diferentes formas de reflorestamento — restauração de ecossistemas, restauração produtiva e plantações florestais homogêneas — considerando que cada uma delas apresenta potencial de armazenamento de carbono diferente, além de produzirem impactos distintos na resiliência climática e hídrica, tanto para a agricultura quanto para as cidades”.

Já a escala apresentada para a recuperação de pastagens degradadas foi classificada como relevante pelas lideranças da Coalizão. A ordem de grandeza alinha-se com as expectativas do movimento. O vínculo mencionado entre agropecuária e floresta também é importante. No entanto, mais uma vez, a questão-chave que se coloca são os mecanismos para se alcançar os resultados esperados. Mauro Armelin, superintendente de Conservação do WWF, explica: “Precisamos detalhar quais esforços tecnológicos o governo pretende adotar, quais incentivos financeiros e como se dará o aperfeiçoamento de programas já existentes, como o Plano ABC (Plano Setorial de Mitigação e de Adaptação às Mudanças Climáticas para a Consolidação de uma Economia de Baixo Carbono na Agricultura)”.

A maior ambição ficou por conta da integração de lavoura-pecuária-floresta, em 5 milhões de hectares. “Essa integração ainda é incipiente no Brasil, começaremos praticamente do zero”, diz Gustavo Junqueira, presidente da Sociedade Rural Brasileira. Segundo ele, o tema requer muita pesquisa para entender o impacto relativo às efetivas emissões, bem como instrumentos financeiros e jurídicos para viabilizar a implantação do Código Florestal e o avanço da produtividade nas propriedades rurais. “Além disso, o Brasil também terá de criar mecanismos para estabelecer segurança jurídica, essencial na garantia dos investimentos necessários para consolidar a integração. Trata-se de uma fronteira que o país está assumindo perante o mundo.”

Meta do governo brasileiro é zerar desmatamento ilegal no Brasil até 2025 (foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Bem antes de 2030

A Coalizão entende que o fim do desmatamento pode acontecer muito antes de 2030. “Não podemos ficar confortáveis esperando mais 15 anos para pôr fim a essa situação”, aponta João Paulo Capobianco, presidente do Conselho Diretor do Instituto Democracia e Sustentabilidade. “Para isso, como determina a Constituição e a legislação em vigor, é urgente lançar mão de todos os instrumentos de apoio na identificação e punição severa de quem provoca o desmatamento, bem como de incentivos que precisarão ser amplamente utilizados”, acrescenta Miriam Prochnow, secretária executiva do Diálogo Florestal. A Coalizão listou recursos que auxiliam na minimização gradual do desmatamento ilegal, de maneira que esse impacto nas emissões do país se torne residual em 2030. É preciso fazer tudo funcionar muito rápido.

“Antecipar o fim do desmatamento ilegal estaria de acordo também com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável”, aponta Rachel Biderman, diretora executiva do WRI Brasil (World Resources Institute). A meta 15.2 dos ODS determina que até 2020 todos os países promovam a implementação da gestão sustentável de todos os tipos de florestas, deter o desmatamento, restaurar florestas degradadas e aumentar o reflorestamento de maneira substancial globalmente.

Ainda dentro desse debate, o movimento acrescenta que o país deve participar ativamente da valorização da floresta tropical, dos mecanismos de pagamento pelos serviços ambientais, dos mecanismos de precificação de carbono, do manejo florestal sustentável e da eliminação da ilegalidade na madeira. “Esses pontos estarão nas discussões de Paris e devem ser considerados pelo governo”, reitera José Penido, presidente do conselho da Fibria Celulose.

Quanto à área de energia, a meta de participação de 16% de etanol carburante e demais biomassas derivadas da cana-de-açúcar no total da matriz energética brasileira para 2030 mantém a participação que o etanol e a bioeletrecidade já têm hoje. “Dependendo das estimativas de crescimento da demanda de energia, isso pode exigir um esforço de investimento considerável”, avalia Elizabeth Farina, diretora-presidente da União Nacional das Indústrias da Cana-de-Açúcar (Unica).

Por fim, os membros da Coalizão lembram que é preciso que haja uma valorização pelo mercado internacional de todos os esforços em prol da sustentabilidade ambiental. O comércio internacional precisa reconhecer e valorizar os compromissos para se atingir as metas climáticas. Finalmente, para a Coalizão, a INDC apresentada somada à aspiração do movimento terão enorme potencial na cooperação Sul/Sul e no desenvolvimento dos países do hemisfério sul do planeta dentro de uma nova ordem econômica, baseada na baixa emissão de carbono.

 

 

No dia 08 de setembro passado, o Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-EAESP (GVces) comemorou 12 anos de trabalho e dedicação em prol da sustentabilidade no Brasil.

O que começou com uma mesa de trabalho na biblioteca da FGV-EAESP é hoje um dos principais centros de estudo da Escola, com quase 60 pesquisadores de diferentes áreas do saber voltados para aquilo que o GVces se propõe a ser e fazer desde 2003: ser um espaço aberto de estudo, aprendizado, reflexão, inovação e de produção de conhecimento.

Nesses 12 anos de trabalho, o GVces despontou como um ator importante no campo da sustentabilidade no Brasil, articulando e trabalhando junto com o poder público, o setor privado, a sociedade civil e a academia na busca de soluções, ferramentas, metodologias e análises sobre os temas como economia de baixo carbono, compras sustentáveis, inovação na cadeia de valor, formação de lideranças, biodiversidade, desenvolvimento sustentável, entre outros.

Saiba mais sobre o GVces aqui, e confira também nosso mais recente relatório de atividades.

 

Na semana passada, foi lançado o site Plataforma ODS, a base de comunicação da Estratégia ODS, uma coalizão da qual o GVces participa, com várias outras organizações ligadas tanto ao campo empresarial como da sociedade civil e do governo.

O propósito da Estratégia ODS é discutir e propor meios de implementação para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), que contemplem medidas efetivas para obter avanços nas diferentes dimensões que compõem essa agenda.

Dentre seus objetivos, estão promover avaliações críticas sobre o processo de implementação dos ODS, mobilizar formadores de opinião e atores-chave de organizações e movimentos sociais para o tema, fomentar políticas públicas indutoras voltadas para governos subnacionais, entre outros.

Neste site especial, você pode conhecer mais sobre os 17 Objetivos propostos pelas Nações Unidas, que deverão ser chancelados pelos chefes de Estado durante a próxima Assembleia Geral das Nações Unidas, que será realizada no final de setembro em Nova York. Você também pode saber mais sobre as responsabilidades de cada ator – governo, empresas e sociedade – para que possamos avançar em cada objetivo e, assim, construir um caminho para o desenvolvimento sustentável para todos.

Aron Belinky

 

Baía de Paranaguá – agosto de 2015

Entre os dias 26 e 28 de agosto, 12 representantes de empresas-membros das Iniciativas Empresariais do GVces participaram da Jornada Empresarial Terceira Margem, em que os participantes são convidados a ir a campo e questões relativas aos temas de cada Iniciativa podem ser compreendidas de maneira integrada e na complexidade com que se dão na prática.

Nesta edição – a primeira foi em 2013 em Extrema/MG para conhecer o Programa Conservador das Águas – o grupo foi à Baía de Paranaguá, no litoral norte do Paraná, região com o pior IDH do estado e que conta com a presença de um dos maiores portos do país e diversas unidades de conservação ambiental, que compõem o maior remanescente de mata atlântica brasileira.

Tendo em vista o paradigma presente na região, que coloca como conflitantes o desenvolvimento socioeconômico e a conservação ambiental, o grupo teve como desafio a investigação dos diversos modelos de desenvolvimento presentes no território a partir da conversa com atores como representantes do porto, de organizações ligadas à preservação ambiental e de comunidades ligadas à pesca e outros pequenos empreendedores.

Os três dias em campo e o conteúdo e percepções das visitas e conversas são relatados no diário a seguir:

1º dia

Após a chegada em Paranaguá pela manhã, fizemos uma roda de conversa para apresentação do grupo e levantamento de expectativas, na qual cada um também respondeu à pergunta “O que é desenvolvimento para você?”. As respostas ajudaram o grupo a se conhecer e iniciar as conversas da Jornada já com um olhar investigativo sobre os modelos de desenvolvimento presentes naquele território, que retomaríamos no último dia.

Dali partimos para nossa primeira visita: o porto de Paranaguá.

Fomos recebidos na sede da APPA – Administração do Portos de Paranaguá e Antonina pelo André Oliveira, profissional ligado à superintendência do porto e responsável pela estatística. Depois de fazer uma apresentação para o grupo trazendo os números surpreendentes ligados à operação, por cujo corredor passam anualmente 14 milhões de toneladas de soja, milho, farelo de soja e açúcar, além de serem movimentados 680 mil contêineres, 230 mil veículos, gerando uma receita cambial das exportações de 17,6 bilhões de reais, fomos levados a percorrer o cais e ver de perto as embarcações operando.

Foi um momento importante para o grupo relacionar as contradições ligadas à importância do porto para nossa sociedade – como porta de entrada e saída de bens essenciais, gerador de emprego e renda etc. – e aos fortes impactos socioambientais consequentes.

No final do dia, recebemos em nosso hotel o Clóvis Borges, fundador e diretor-executivo da SPVS – Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental, que foi acompanhado da Sueli Alves, representante da Cooperguará – Cooperativa de Turismo de Base Comunitária de Guaraqueçaba, e do Antônio e do Mateus, da Acriapa – Associação de Criadores de Abelhas Nativas da APA de Guaraqueçaba.

A SPVS tem um papel importante na conservação da natureza na região, mantendo algumas reservas na APA de Guaraqueçaba, entre outras atividades, como o incentivo à criação da Cooperaguará e da Acriapas, organizações que buscam gerar renda à comunidade aliada à preservação da floresta. Vale destacar que a Cooperguará foi nossa parceira em campo para articular as nossas visitas e viabilizar transporte, acomodação e alimentação para o grupo.

O Clóvis trouxe para o grupo um panorama geral dos atores mais importantes na região e a falta de articulação entre eles para se pensar uma agenda de desenvolvimento para o local que contemplasse a conservação da floresta.

Na conversa com a Sueli, o Antônio e o Mateus ouvimos as dificuldades de manter um negócio, como a burocracia, a gestão etc., em especial no caso de produtos e serviços como os oferecidos por eles (mel de abelhas nativas e turismo de base comunitária). Os três falaram, por outro lado, sobre como mudou a vida deles e a realidade da região após a criação das organizações de que fazem parte, pois antes eles trabalhavam em fazendas de búfalo que foram convertidas em reserva florestal, para a qual contribuem agora com sua preservação.

2º dia

O nosso segundo dia seria mais intenso: após quase 3 horas em um barco, chegamos à Ilha Superagüi, Parque Nacional de 33.988 ha em que vivem algumas espécies ameaçadas de extinção e uma comunidade de cerca de 700 famílias, a maioria de pescadores.

Após uma breve caminhada – que teve o percurso alterado por causa de uma ponte quebrada (isso sim é conhecer o lugar de perto!) – chegamos à sede do ICMbio.

Conversando com a equipe do Instituto, soubemos dos desafios de se gerenciar uma Unidade de Conservação em que vive uma comunidade e para a qual está sendo desenvolvido um plano de manejo: como acolher todos os interesses divergentes?  A comunidade, que já estava lá antes da Ilha se tornar um Parque, se sente prejudicada por não poder mais cultivar sua roça e por não ter sido devidamente ouvida; os órgãos responsáveis pelo plano alegam terem sido mais inclusivos e permissivos do que o exigido (a rigor, em uma Unidade de Conservação não deveria ter uma comunidade estabelecida).

Todas essas provocações, feitas em contato direto com a natureza exuberante do local e com o modo de vida das comunidades, contribuiram bastante para as reflexões do grupo sobre os modelos de desenvolvimento para a região e para a percepção de que há uma dificuldade muito grande de diálogo entre os diversos atores.

Após a conversa no ICMbio, almoçamos no restaurante Golfinho, associado da Cooperguará, e conversamos com o marido da proprietária, o Seu Nagib, um pescador da Ilha, que nos contou sobre sua atividade e as dificuldades que os pescadores artesanais têm tido de competir com barcos maiores, de pesca industrial.

Depois de todas essas conversas e novas informações sobre aquela realidade, subimos de novo no barco, tendo como destino a cidade de Guaraqueçaba.

Em nosso caminho presenciamos um espetáculo único naquela região: a revoada do papagaio-da-cara-roxa, espécie que habita a ilha do Pinheirinho, no caminho de Superagüi para Guaraqueçaba, e passa o dia na ilha em frente. Todos os dias, no final do dia, os papagaios fazem uma revoada, sempre de dois em dois, para “ voltar para casa”.

3º dia

No nosso último dia em campo, acordamos bem cedo e fomos para o Salto Morato, uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

Foi importante para o grupo conhecer as diferenças entre os modelos público e privado de gestão de áreas de conservação, bem como as características de áreas habitadas e não habitadas – que é o caso do Salto Morato.

Aproveitamos a beleza cênica do local para fazer o encerramento de nossa jornada com vista para a cachoeira que dá nome à Reserva.

Em uma roda de conversa, o grupo pôde compartilhar suas percepções sobre o território e sobre a experiência, além de revisitar a pergunta “O que é desenvolvimento para você?”.

Ficou muito forte para todos a necessidade de maior articulação, diálogo e busca por convergência de interesses entre os atores da região, situação que é similar à de muitos territórios em que as empresas do grupo atuam e deve inspirar sua atuação.

Com essa segunda experiência integradora no âmbito das Iniciativas Empresariais o GVces fortaleceu a sua crença de que experiências em campo são um espaço privilegiado de aprendizagem, troca de experiências e desenvolvimento pessoal.

Para os próximos ciclos, esperamos contar com cada vez mais representantes de empresas conosco nessa jornada e explorar temas em sustentabilidade que representem ao mesmo tempo desafio e inspiração às empresas.

Por Manuela Santos

 

Na semana passada, o Greenpeace Brasil lançou o jogo Solariza, com o propósito de destacar o potencial brasileiro para a produção de energia solar e deixar claro que não precisamos de usinas térmicas e nucleares em nossa matriz elétrica.

A ideia é simples: você pode se tornar um instalador de placas solares, marcar telhados em nossa plataforma e descobrir quanta energia e economia aquele teto poderia estar gerando. Enquanto isso, tem a oportunidade de aprender mais sobre o assunto, além de ajudar o Greenpeace a mapear o potencial real de cada região e cidade brasileira.

O jogo também tem uma meta real: quando tiver o equivalente a seis milhões de casas marcadas, uma entidade beneficente vai ganhar do Greenpeace Brasil a instalação de um sistema fotovoltaico. Neste “crowdroofing”, cada pessoa tem a oportunidade de se cadastrar na plataforma, doar um pouco do seu tempo e ajudar uma instituição (escolhida pelo público) a ganhar o sistema. Ao final, a pessoa que tiver participado mais do jogo também ganhará um sistema fotovoltaico.

Quer jogar? É só clicar aqui!

Para os que quiserem saber mais sobre o jogo, clique aqui. Confira também matéria que saiu no site da Revista Galileu.

Ricardo Barretto

 

Músicos no French Quarter, em Nova Orleans, em 1989 (foto: Brenda Anderson/Flickr)

O “berço do jazz”. A “rainha do Mississippi”. A cidade perdida no tempo, perdida em seu próprio tempo – “the city that care forgot”. Nova Orleans nunca foi uma cidade comum: com sua história peculiar, palco do encontro de diferentes culturas (franceses, espanhóis, norte-americanos, negros africanos, além de nativos), Nova Orleans sempre teve um ritmo diferente de qualquer outra cidade – uma receita que juntava uma sensação incomum de abandono, rebeldia, liberdade criativa e fervura cultural e racial. Não é à toa que ela reúne o maior número de músicos per capital nos Estados Unidos!

Há dez anos, Nova Orleans vivia um longo ostracismo. Submersa num fatalismo bastante característico, a cidade parecia caminhar para algum tipo de conclusão. Depois da luta racial que tomou conta da cidade nos anos 1950 e 1960, a maioria negra de Nova Orleans sentia-se desiludida com os resultados dessa luta histórica. A pobreza ainda era a marca da cidade, junto com as construções históricas erguidas pelos colonizadores franceses no século XVIII no hoje célebre French Quarter.

O fatalismo de Nova Orleans tem causa histórica. Em 1722, apenas quatro anos após sua fundação por exploradores franceses, a cidade foi devastada por um furacão, que destruiu praticamente todas as construções existentes. A Nova Orleans do French Quarter foi construída sobre as ruínas dessa antiga cidade, e carrega consigo as marcas desse desastre. Diques foram erguidos para conter a água do mar em tormentas, de forma a preservar as regiões mais baixas de Nova Orleans, ocupadas no decorrer do século XX para alimentar sua expansão urbana. Essas áreas foram sendo ocupadas por comunidades negras, que representam a maioria da população de Nova Orleans (em torno de 60%, o maior índice dentre as grandes cidades dos EUA).

No entanto, a manutenção desse sistema de proteção era bastante precária, e o poder público estadual e federal ignorava repetidos alertas sobre a vulnerabilidade de Nova Orleans em situações climáticas extremas, como furacões. Na véspera daquele final de agosto de 2005, a cidade parecia abandonada a sua própria desventura.

Aí, veio o Katrina.

Vista aérea da região central de Nova Orleans em 1º de setembro de 2005, com destaque para o Superdome (foto: US Navy/Wikimedia)

Três informações nos dão uma noção mais clara do estrago causado pela passagem do Katrina em Nova Orleans. Primeiro, o prejuízo de US$ 108 bilhões (valores de 2005), que permanece sendo um recorde mesmo após outros desastres naturais da mesma dimensão, como a passagem do furacão Sandy na costa leste nos EUA em 2012. Segundo, o fato de que, em 31 de agosto, cerca de 80% da cidade estava debaixo d’água (em alguns locais, a água subiu mais de 4 metros), com exceção de zonas urbanas localizadas em áreas mais altas (entre elas, a do French Quarter), construídas num plano mais elevado. E, finalmente, o fato de Nova Orleans ter perdido sua condição histórica de cidade mais populosa da Louisiana, posição que não foi recuperada até hoje.

Refugiados de Nova Orleans concentrados no Louisiana Superdome em 03 de setembro de 2005 (foto: tiger_in_houston/Flickr)

Obviamente, é ilusório pensar que o estrago foi causado pelo Katrina em si: se olharmos atentamente para a sequência de eventos e decisões tomadas, podemos ver a tragédia de Nova Orleans como o “pior desastre de engenharia do mundo desde Chernobyl”, como disse Raymond B. Seed, professor da University of California Berkeley à época do Katrina. Boa parte dos danos decorrentes da passagem do furacão na costa da Louisiana poderia ter sido evitada se as autoridades locais, estaduais e federais tivessem tomado decisões corretas e no tempo adequado. Infelizmente, nenhuma dessas autoridades estava preparada para lidar com isso: o impacto do Katrina em si foi potencializado de forma brutal com o despreparo das forças públicas em todos os níveis; num momento em que os EUA tinham tropas ativas em dois países do Oriente Médio, com toda logística e infraestrutura preparada para apoiá-las naquela distante região, as forças armadas do país não tinham condições logísticas de levar garrafas de água potável para um estádio de futebol abarrotado de desabrigados dentro do seu próprio território.

O Katrina fez emergir preocupações sobre a resiliência de grandes cidades para enfrentar desastres associados a eventos climáticos extremos, um perigo que pode tornar-se mais frequente com o avanço das mudanças climáticas. Mais do que ter uma infraestrutura resiliente em si, o caso de Nova Orleans deixou claro a necessidade de uma articulação coerente e efetiva entre os atores públicos e privados tanto na preparação quanto na resposta imediata ao desastre. Na era das mudanças climáticas, o custo da desarticulação, do despreparo e da inação pode ser grande demais, como o foi em Nova Orleans.

Membros de força tarefa de resgate em operação de busca e resgate em Nova Orleans (foto: Jocelyn Augustino/FEMA/Flickr)

Dez anos depois da passagem do Katrina, Nova Orleans ainda é uma cidade em reconstrução. Alimentada com bilhões de dólares destinados para os esforços de recuperação da cidade, Nova Orleans tornou-se um laboratório para experiências de inovação urbanística. Novos habitantes chegaram para auxiliar no esforço, trazendo um espírito diferente de empreendedorismo social em Nova Orleans. O fatalismo tão característico daquela cidade deu lugar para esperança: mais aberta e mais viva, pela primeira vez em muito tempo, Nova Orleans tem a oportunidade de construir um futuro melhor para si mesma. No entanto, as feridas abertas pelo vento do Katrina persistem.

Milhares de desabrigados do Katrina continuam distantes de Nova Orleans, em particular os mais pobres. Entre 2005 e 2015, a cidade perdeu quase 110 mil habitantes. As clivagens raciais são marcantes nesse cenário pós-Katrina: a população negra de Nova Orleans diminuiu consideravelmente, ainda que se mantenha majoritária na composição demográfica da cidade. Antigos bairros pobres, ocupados por comunidades negras, deram espaço para empreendimentos imobiliários ocupados em sua maioria por brancos de renda mais elevada. O custo de vida aumentou consideravelmente na região, penalizando bastante os mais pobres. Assim, no caso de Nova Orleans, um efeito colateral nítido da tragédia e dos esforços posteriores de reconstrução é a gentrificação da cidade.

Dez anos depois dos ventos do Katrina atingirem Nova Orleans, a cidade ainda luta para recuperar e manter o espírito rebelde e criativo que a fez célebre, ao mesmo tempo em que tenta se afastar do fatalismo que sempre carregou sobre si mesma.

Bruno Toledo

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