Os números são impressionantes: quase dois bilhões de pessoas poderiam ser sustentadas com a quantidade de alimentos desperdiçados pelo mundo todo ano, de acordo com estimativas das Nações Unidas divulgadas no último dia 24. Ou seja, quase um terço dos alimentos produzidos para consumo humano acaba na lata de lixo, mesmo com 800 milhões de pessoas passando fome em todo o mundo.

Assim, mais do que o simples aumento da produtividade, é fundamental que tenhamos uma estratégia eficiente de economia de alimentos, para evitar desperdícios e perdas desnecessárias que poderiam suprir a demanda de populações mais vulneráveis.

Nesse sentido, três agências da ONU – a Organização para Agricultura e Alimentação (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (IFAD) e o Programa Mundial de Alimentos (WFP) – se uniram para desenvolver uma plataforma online, a Comunidade Global de Prática sobre Redução de Perdas de Alimentos (FIDA). Essa plataforma tem como objetivo criar um ponto de referência global para a facilitação do intercâmbio de informações entre governos, entidades da sociedade civil e do setor privado em todo o mundo, melhorando assim a segurança alimentar e a geração de renda associada ao combate ao desperdício de alimentos.

Bruno Toledo

 

A Beraca é uma empresa brasileira que comercializa matérias primas de origem natural para indústrias de cosméticos, farmacêuticos e de alimentos para mais de 40 países. Dentre seus clientes estão nomes como L’Oréal, Aveda, L’Occitane, Kiehls, Tarte e Teadora.

Em 2000, a empresa criou o Programa de Valorização da Sociobiodiversidade (PVSB) que abrange os estados do Pará, Amapá, Amazonas, Maranhão, Piauí e Minas Gerais.
A empresa já mantinha práticas isoladas com relação à sustentabilidade desde a década de 1990, Incentivadas pelo seu fundador Ulisses Sabará. No entanto, sentiu uma necessidade de reuni-las em um Programa mais estruturado, dando origem ao PVSB.

A iniciativa atua por meio de um sistema de multistakeholders, organizando estrategicamente a cadeia produtiva de insumos naturais, investindo em capacitação e treinamento, repartição de benefícios e investimentos sociais, além da transferência de tecnologia para melhorias estruturais. Seus resultados alcançam o envolvimento de mais de 1.600 famílias, aproximadamente 6.400 pessoas em 105 núcleos comunitários durante o programa.

Desde seu início, já foram mais de 8 milhões de reais em compra de produtos como frutos, sementes e óleo bruto das comunidades locais nos biomas brasileiros. Os produtos orgânicos são comercializados a um valor que chega a ser 30% mais alto em comparação às opções convencionais, estimulando assim as boas práticas e auxiliando no aumento de renda média das comunidades.De acordo com o especialista em Sustentabilidade e Responsabilidade Corporativa da Beraca, Thiago Terada, o comprometimento está presente do nível estratégico ao operacional. “Queremos acabar com o departamento de sustentabilidade, este será um valor já permeado dentro de todas as áreas da empresa”, afirmou Terada durante a quarta oficina de Inovação em Desenvolvimento Local.

Em parceria com equipe da Columbia University e USP, a Beraca está em fase de desenvolvimento de um modelo de avaliação de seu Programa, que traga indicadores de melhoria na renda das comunidades, diminuição do desmatamento nas regiões contempladas, entre outros, para que possa acompanhar, replicar e divulgar – influenciando outras empresas e até mesmo políticas públicas – a partir de suas ações.

Milene Fukuda

 

Nesta terça feira 14/10 encerrou-se o Business Forum da 12ª Conferência das Partes (COP 12) da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), que acontece nesta semana em Pyeongchang, na Coreia do Sul. Foram 2 dias e meio de palestras e debates direcionados ao setor privado. A agenda girou principalmente em torno de questões relacionadas ao engajamento dos negócios na conservação da biodiversidade, em especial no contexto da cadeia de fornecedores, e da implementação do Protocolo de Nagoya, que entrou formalmente em vigor neste dia 12/10 e conta com a adesão até então de 54 países.

Pelo menos cinco empresas brasileiras ja participaram ou ainda vão participar de eventos nesta COP: Beraca, Boticário, Natura, Petrobrás e Posigraf.

No que se refere ao acesso e distribuição dos benefícios da diversidade genética, regulado pelo Protocolo de Nagoya (ABS – access and benefit sharing), a Beraca mostra preocupação de que o setor privado brasileiro não esteja preparado para as novas regras que entrarão em vigor no prazo de 90 dias. Independentemente de a legislação brasileira ainda não ter sido aprovada, muitas empresas nacionais se utilizam de recursos genéticos oriundos de outros países que já ratificaram o Protocolo de Nagoya, e terão de se adaptar às legislações desses países. Ou seja, as empresas brasileiras que não se prepararem podem perder mercados importantes.

Na linha do engajamento do setor privado na agenda da CDB, um dos melhores momentos do Business Forum foi o confronto de duas posições distintas sobre a valoração da biodiversidade como ferramenta capaz de promover sua conservação e recuperação.

De um lado estava Richard Mattison, CEO da Truecost, uma das consultorias mais reconhecidas internacionalmente por trabalhos de valoração econômica ambiental e uma das autoras do EP&L (environmental profit and losses) da PUMA, em 2010, provavelmente o trabalho mais importante e famoso até então sobre valoração econômica de externalidades ambientais. Do outro lado, Diego Pacheco, reitor da Universidad de la Cordillera e chefe da delegação boliviana na COP.

Mattison, neorocientista de formação, defende a valoração econômica como uma importante fonte de informações de apoio à tomada de decisão de negócios, reconhecendo no setor privado um papel relevante na gestão de recursos naturais e consequentemente na conservação da biodiversidade. A posição de Mattison aparentemente é a tendência atual para o desenvolvimento de políticas e estratégias para conservação e recuperação da biodiversidade.

Diego, antropólogo de origem, traz em seu currículo um doutorado em políticas públicas pela Universidade de Indiana, onde foi aluno de Elinor Ostrom, vencedora do Prêmio Nobel de Economia em 2009 por sua tese sobre a governança de bens públicos. Diego defende que a biodiversidade tem um valor intrínseco que não pode ser expresso monetariamente. Insiste que a commoditização e comércio indiscriminado da biodiversidade pode inclusive restringir o acesso a ela. Finalmente, Diego não reconhece a perspectiva de gestão privada de recursos naturais por serem esses bens públicos, e defende que cabe ao Estado a responsabilidade por sua gestão e conservação.

Em suma, enquanto Mattison adota um modelo político econômico onde o mercado é um instrumento determinante no acesso do setor privado à biodiversidade, Diego defende que o acesso do setor privado à biodiversidade deve ser regulamentado pelo Estado com base em direitos claramente definidos e negociados pela sociedade.

E afinal de contas, qual dos dois está certo?

Possivelmente os dois, mas em circunstâncias diferentes. O modelo defendido por Diego pede um Estado independente da influência de grupos econômicos, capaz de negociar um pacto social sobre direitos de acesso à biodiversidade nacional, e forte o suficiente para fazer valer essas regras e assim garantir a conservação da biodiversidade. A eficácia dsse modelo também depende de um nível considerável de capital social, ou seja, de uma sociedade que não seja individualista, onde as pessoas estejam dispostas a conservar e dividir os benefícios da biodiversidade inclusive com as gerações futuras mesmo que isso implique em um menor benefício privado/particular no presente. Ja o modelo adotado por Mattison pouco depende da atuação do Estado e, em princípio, também é menos dependente de capital social.

Qual desses modelos é o melhor para o Brasil? Isso certamente pede reflexões mais profundas. Mas de qualquer forma, a meu ver, o modelo de Mattison é o que mais se encaixa na realidade brasileira atualmente – o que não impede que se construa as condições necessárias para a adoção futura do modelo de Diego.

Renato Armelin

 

Em 2006, o Peabiru foi chamado pela Agropalma, empresa fornecedora de óleo de palma para o setor de alimentos e cosméticos, para colaborar na compreensão do entorno do território onde a empresa atua, levando em conta os desafios para a estruturação de políticas de responsabilidade socioambiental corporativa.

A Agropalma possui relações comerciais com 150 agricultores da região, que atuam como fornecedores de cachos de palma (dendê) por meio do Programa de Agricultura Familiar. Apesar da Agropalma estar presente nessa região do Pará próxima ao município de Tailândia há quase uma década, faltava uma melhor compreensão do efetivo impacto econômico da inserção do grupo de agricultores na cadeia de valor do dendê, uma avaliação do impacto na segurança alimentar a partir do momento que as famílias se dedicam à dendeicultura, além da inserção de jovens e mulheres nos processos decisórios da agricultura familiar.

Após de realizar um diagnóstico preliminar, o Instituto Peabiru propôs à Agropalma uma ação com duração prevista de 5 anos, e recomendou dez ações à empresa, das quais duas foram priorizadas: a Agenda 21 para a Vila dos Palmares e Indicadores de sustentabilidade para a agricultura familiar.

Tendo como estratégia o envolvimento do grupo social local em todas as etapas de pesquisa, reflexão e tomada de decisão, e também a crença de que o monitoramento dos impactos da relação comercial no cotidiano das famílias pode transformar as relações humanas e a realidade dos grupos envolvidos, o Peabiru usou uma metodologia que se divide em quatro etapas para conceber o Projeto Indicadores de Sustentabilidade.

A primeira etapa foi uma pesquisa socioeconômica que deu origem ao Diagnóstico Rural Participativo (DRP). Já na segunda etapa, os resultados do DRP foram socializados com os atores locais para a elaboração dos indicadores de sustentabilidade.

A terceira etapa foi a formação de um grupo de jovens e mulheres para capacitação como pesquisadores socioambientais capazes de assumirem papéis relevantes nas associações e organizações sociais. De acordo com o Instituto Peabiru, o projeto visou fortalecer o reconhecimento das questões de gênero num setor econômico com forte desequilíbrio nesta área, e fortalecer a capacidade de monitoramento das políticas públicas; daí a pedra angular se constituir na busca de maior participação de jovens filhos e mulheres de agricultores como os principais protagonistas, os constituindo como pesquisadores socioambientais.

A quarta etapa juntou o grupo para analisar os indicadores de sustentabilidade e, a partir da reflexão gerada sobre a realidade local, traçaram as estratégias para promover ações de desenvolvimento.

A versão definitiva do Caderno de Indicadores de Sustentabilidade foi publicada em 2011. Seus 31 indicadores foram aplicados nos anos seguintes como instrumento de pesquisa da realidade. A cada medição, foram realizadas oficinas de reflexão acerca de temas diversos.

Milene Fukuda

 

Produzido pelo portal UOL, o projeto TAB tem a proposta de trazer conteúdos de uma forma bastante didática, visualmente agradável e bem interativa. Toda segunda, um novo artigo será publicado e colocado em destaque na página inicial do portal.

Ontem, na estreia do projeto, o UOL publicou um artigo interessante sobre Economia Compartilhada, com o slogan “Não compre, compartilhe”.

Aletea Madacki

 

Na região dos Campos Gerais, no estado do Paraná, a Klabin possui um maciço florestal com uma unidade industrial em operação em fase de ampliação. Reconhecendo sua responsabilidade como um dos atores na dinâmica do território, atua com a iniciativa “Estruturação do Empoderamento Local e Engajamento Territorial” somando um conjunto de projetos e ações específicos, que convergem para um único objetivo que é o empoderamento dos atores regionais na estruturação e desenvolvimento do território.

De acordo com a empresa, as motivações para criar tais iniciativas, algumas iniciadas desde 1980, foram distintas. Ora por necessidade reconhecida antecipadamente pela Klabin, ora por estímulo externo. Para conceber o Projeto Puma, que prevê a expansão da operação em Telêmaco Borba e será o maior investimento na história da empresa (5,8 bilhões de reais excluindo ativos florestais, melhorias em infraestrutura e impostos), tais iniciativas foram entendidas como necessárias para a preparação e atuação no território no qual a Klabin está se inserindo.

Dentre os principais resultados já obtidos pelas iniciativas em Campos Gerais, na unidade operante de Telêmaco Borba, pode-se destacar o estudo de materialidade do território, a criação de canais de comunicação dinâmicos com as partes interessadas, a capacitação de pessoas para estruturar modelos econômicos locais autossustentados, e por fim, o desenvolvimento de lideranças locais para gestão de iniciativas e desenvolvimento regional.

Tais resultados foram obtidos por meio de ações como a certificação de pequenos produtores rurais, criação de um parque ecológico, criação de uma agência de desenvolvimento da cadeia produtiva da madeira – que atua no suporte do abastecimento regional e desenvolvimento de novos pólos, programa de usos múltiplos da floresta, programas de educação diferenciada – aulas de educação ambiental e formação continuada, treinamento em legislação ambiental, fauna e flora locais, civismo, moral, ética, atividades de dança e música.

Além desses, há também o programa Matas Legais como forma de apoio aos pequenos proprietários, no qual se desenvolvem ações de conservação e fomento florestal que ajudam a preservar e recuperar os remanescentes florestais nativos, além de aprimorar o planejamento de propriedade e paisagens.

Milene Fukuda

 

No mês passado, aconteceu em Bogotá (Colômbia) o Fórum “De la Minería como Daño a La Minería como Oportunidad”, realizado no âmbito da quarta reunião do Grupo de Diálogo Latinoamericano, que reúne os Grupos de Diálogo nacionais sobre Mineração, incluindo o brasileiro – do qual o programa Desenvolvimento Local do GVces faz parte.

O Forum contou com a presença de cerca de 50 participantes, entre eles: Care, Avina, WWF (escritórios latinoamericanos), mineradoras, especialistas (consultores, professores), líderes indígenas e integrantes dos Grupos de Diálogo regionais. O principal objetivo foi promover o diálogo entre os diferentes setores da sociedade em torno da atividade mineradora na América Latina.

O grande tema foi: como migrar da noção da mineração como dano para a noção de oportunidade (e quais são as novas narrativas que podemos construir nesta direção).

Foram 4 painéis, com uma ideia central: importância do diálogo entre as partes envolvidas na atividade mineradora, e como ele pode impulsionar transformação social no contexto da mineração.

Além disso, focou-se em algumas temáticas específicas relacionadas à atividade mineradora: políticas públicas, ordenamento e gestão territorial, participação cidadã e indígena, e geração de riqueza e dignidade humana.

A próxima reunião do Grupo de Diálogo Brasileiro: Mineração, Democracia e Desenvolvimento Sustentável acontecerá em Belém, em novembro, e nós estaremos lá!

Lívia Pagotto

 

Outubro de 1985. Gro Harlem Brundtland, chefe da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento das Nações Unidas e ex-primeira-ministra da Noruega, fazia sua primeira visita ao Brasil.

Ciceroneada pelo ambientalista Fabio Feldmann, Brundtland teve uma das visões mais dantescas de sua jornada global de debates e reflexões sobre a deterioração do meio ambiente: a descida da Serra do Mar, na travessia entre São Paulo e Santos, e a fumaça cinza que cobria os céus de Cubatão. Era o “Vale da Morte”, um cenário que garantia àquela cidade o ingrato título de “cidade mais poluída do mundo”.

Não era apenas a poluição atmosférica resultante das indústrias presentes naquela cidade que colocava Cubatão numa situação tão singular. A precariedade em que vivia grande parte de sua população, em favelas escoradas na serra e próximas a dutos de gás, era ainda mais gritante. Era o progresso industrial, o descaso social e o desastre ambiental, tudo numa mesma cidade.

Dois anos depois, em seu relatório “Nosso Futuro Comum”, Brundtland e os membros de sua comissão defenderam uma nova abordagem sobre o desenvolvimento econômico, associada à necessidade de preservar os recursos e a qualidade do meio ambiente, equilibrando necessidades presentes e futuras e reduzindo o impacto humano sobre a natureza. Eram as bases do termo “desenvolvimento sustentável”, o “desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Esse termo reorientaria o movimento ambientalista a partir do final dos anos 1980 e colocaria a questão ambiental na grande agenda política global na década seguinte, um movimento que resultaria na Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1992 (ECO-92), no Rio de Janeiro.

Curiosamente, Brundtland passaria ao largo das consequências de seu trabalho entre 1986 e 1996, quando reassumiu o governo norueguês. Posteriormente, ela dirigiu a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que a deixou distante das discussões sobre desenvolvimento sustentável até meados de 2003. Foi apenas a partir dessa época, mais de uma década depois da conferência do Rio, que Brundtland assumiu um papel mais ativo, particularmente no debate político sobre mudança do clima. Hoje, ela é representante especial da ONU para Mudanças Climáticas e uma das maiores referências globais na discussão sobre um futuro de baixo carbono para o planeta.

Gro Brundtland, em evento no Centro Ruth Cardoso (Foto: Vinicius Doti/Instituto Fernando Henrique Cardoso)

Em visita recente ao Brasil para participar de eventos do Fronteiras do Pensamento, a ex-primeira-ministra norueguesa expôs algumas reflexões sobre o quanto o enfrentamento das mudanças climáticas evoluiu nas últimas décadas e sobre os desafios de um mundo pós-carbono. Para ela, o entendimento básico sobre o perigo das mudanças climáticas já é praticamente unânime, mas as respostas ainda não estão plenamente alinhadas, o que pode nos colocar numa situação dramática nas próximas décadas.

De acordo com Gro Brundtland, dois elementos são fundamentais para que o enfrentamento às mudanças climáticas seja efetivo: o engajamento da iniciativa privada e a liderança dos gestores públicos. “Em Nova York ficou muito claro para mim que o setor privado agora vê os riscos do pensamento tradicional. Eles querem investir em um futuro com baixa emissão de carbono. Eles não querem investir em história. Eles veem as oportunidades, eles pedem muito mais ação governamental para inspirar e chegar às soluções para um mundo sustentável”.

Para ela, a nova geração de lideranças empresariais começa a fazer a diferença nos esforços globais para aplacar as alterações do clima, principalmente em uma das questões mais delicadas nessa luta: a precificação do carbono.

“O recente relatório Crescimento Melhor, Clima Melhor impressionou muita gente. Ficou claro que há muitos no setor privado que agora enxergam oportunidades, não apenas necessidade, em se adotar soluções de baixo carbono. Eles demandaram que se atribua um preço ao carbono, pediram um esclarecimento dos governos sobre regulação futura, estavam impacientes, pedindo ação”.

Brundtland citou o esforço norueguês para precificar suas emissões como um exemplo de como a precificação do carbono pode ser benéfica na luta para reduzir as emissões e para promover inovação tecnológica e investimentos verdes no setor privado. “Pagar pelas emissões não teve impacto sobre nossa indústria. Eles se adaptaram e conseguiram atrair investimentos para financiar essa adaptação”.

A precificação do carbono é um dos incentivos que Brundtland aponta como importantes para que o mundo consiga fazer uma transição efetiva para o baixo carbono. Nesse caso, o papel dos governos é fundamental para que se defina um contexto que impulsione a adoção de novas soluções e que facilite o abandono de tecnologias antigas.

“Políticas públicas são necessárias para estimular os mercados, para remover barreiras, para nivelar o campo de atuação e estabelecer objetivos e alvos claros para energia renovável e eficiente. Ao mesmo tempo, precisamos desfazer as políticas antiquadas que criam os incentivos errados e que nos mantêm presos a formas não sustentáveis de fazer negócios”.

Gro Brundtland e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em evento no Centro Ruth Cardoso (Foto: Vinicius Doti/iFHC)

No que tange às negociações internacionais para definir o novo acordo climático que sucederá o Protocolo de Quioto a partir de 2020, Gro Brundtland aponta a necessidade de uma liderança genuína por parte dos governos para que possamos chegar a algum resultado efetivo e cita a Conferência de Copenhague (COP 15) como um exemplo de falta de liderança e de confiança entre os negociadores. “Lá em Copenhague, tínhamos numa mesma sala o presidente norte-americano Barack Obama, tínhamos Angela Merkel da Alemanha, e o representante chinês na conversa era um diplomata de terceiro escalão, tudo isso porque o líder chinês não concordava que o país assumisse mais responsabilidades e por isso sequer participava das conversas”.

“Coragem e visão de longo prazo são importantes para que os líderes globais possam construir algo efetivo nos próximos meses”, aponta Gro Brundtland.

Um último aspecto ressaltado pela ex-primeira-ministra norueguesa é a importância da educação como ferramenta para catalisar a transição para um mundo de baixo carbono nas próximas décadas. “Educação é a chave para transformar o panorama ambiental universal”. Novamente, o exemplo da Noruega mostra como a educação facilita esse processo. “Quando precificamos as emissões na Noruega, a indústria petrolífera gritou e protestou, mas não conseguiu comover a população, que já sabia da importância e da necessidade de fazermos isso. Ter a informação correta e conscientizar a população da realidade do problema é fundamental”.

Bruno Toledo

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