Escreveu ontem na Folha de S. Paulo o professor Luiz Carlos Bresser Pereira sobre o chamado movimento dos indignados: “Os jovens manifestantes não têm responsabilidade pela crise que está aí, nem possibilidade de resolvê-la. Os responsáveis somos nós, os mais velhos, as elites, os que dominaram e governaram.  Somos nós que temos que dar soluções.  Eles podem levantar o problema, podem debater, sugerir, mas nós que decidimos.” O autor não só reconhece a legitimidade do movimento como parece assumir a crítica daquela campanha irônica do Greenpeace “lembra como a sua geração sonhava em mudar o mundo … parabéns, vocês conseguiram”. Bastante elucidativo ler o depoimento de um professor de economia e ex-ministro do governo Fernando Henrique, que marcou a trajetória neoliberal no Brasil.

 

Um incômodo, porém, surge para mim quando leio o artigo de Bresser Pereira. Para ele, o movimento dos indignados teve início há seis meses na Espanha. Fiquei surpreso por ele não ter feito uma ligação do movimento que se vê agora no Ocidente com os levantes que há mais de um ano chacoalham os países árabes. Reconhecer a influência e contágio que o movimento desses povos exerce nos movimentos que agora tomam as ruas de nações desenvolvidas é dar espaço para a resposta que se espera à crise global socioeconômica e ambiental e aos descaminhos políticos que a ocasionaram. Em outras palavras, entender que soluções para essa crise talvez não venham das mesmas elites que a originaram, mas surjam de grupos e ideias que até então não eram tidos como relevantes, seja na comunidade internacional, seja no contexto nacional de cada país.

Ricardo Barretto

 

Quem acompanha as conferências da ONU sobre mudança do clima deve estar com a sensação de que essa é uma das mais mornas já realizadas nos últimos anos. A possibilidade de não se definir uma continuidade para o Protocolo de Kyoto, a baixa expectativa de decisões relevantes e o pouco debate sobre o tema na mídia, há pouco mais de um mês do 17o. encontro, dão a noção de como a coisa anda tépida.

Mas existe um elemento de novidade que distingue a Conferência de Durban das que a precederam: a COP 17 é a primeira que acontece após a onda de movimentos sociais que estão questionando as estruturas de liderança, controle e rumos políticos em diversas partes do mundo. Dos levantes no Oriente Médio, aos protestos na Europa, passando por respingos na China e na América Latina, e agora um movimento que toma força nos Estados Unidos.

De modo geral, esses movimentos afirmam não ser mais possível manter o mesmo padrão de tomada de decisão nas políticas econômicas e sociais, muitas vezes voltadas ao interesse de grupos reduzidos em detrimento da sociedade como um todo. Essa insatisfação generalizada, ainda que sobre realidades diferentes, clama por decisões políticas consistentes, focadas de fato no bem comum. Nesse sentido, teríamos um ambiente global propício para a renovação dos esforços e dos resultados da Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima. Afinal, estamos falando também aqui de governos lidando com um problema fundamental para o curso das sociedades que os sustentam e cujo histórico de decisões e sua aplicação na prática têm deixado a desejar. As evidências estão tanto no endereçamento tímido dos desafios e soluções relacionados à mudança do clima, por parte dos diferentes países, quanto na perda de legitimidade da ONU enquanto instituição que promove o entendimento para uma ação comum entre os países no combate ao maior desafio socioambiental da história recente do planeta.

Quando as manifestações sociais em diferentes parte do globo impõem às nações uma demanda por revisão de suas opções e estratégias políticas, acabam por colocar também um questionamento sobre como tem sido o posicionamento de cada um deles no contexto global. E o ambiente da COP não poderia estar de fora. Países que bloqueiam o avanço das negociações, países que boicotam medidas fundamentais para o combate às mudanças climáticas, países que se esquivam de compromissos com políticas de reestruturação do sistema produtivo para atender a lobbies específicos em detrimento da sociedade como um todo e ainda, só para citar alguns arquétipos encontrados no ambiente da COP, os países que propõem globalmente iniciativas que não correspondem a suas políticas em solo nacional.

Para o Brasil, a exemplo das outras nações, se coloca uma oportunidade de renovação da postura adotada no contexto da COP e principalmente de seu posicionamento interno. No caso brasileiro, um movimento social que pode ser tomado como termômetro do ambiente propício a uma ação governamental mais contundente e integrada no contexto das mudanças climáticas é a recente onda de protestos contra a corrupção, que parece ganhar força nas ruas. Nas manifestações contra corrupção é possível identificar como subtexto o descontentamento com ações (nesse caso, ilegais) voltadas a atender grupos específicos em detrimento do resto da sociedade e com as respostas paliativas do poder público, que não resolvem um problema crônico no Brasil.

Esse termômetro da sociedade indica o anseio por medidas de longo prazo e a adoção de políticas que redefinam os rumos do país nas mais diferentes esferas, de modo a garantir um futuro melhor para toda a sociedade. Esse é o mesmo preceito necessário a uma estratégia efetiva de combate e de adaptação à mudança do clima, capaz de reduzir a deterioração do meio ambiente em solo brasileiro e de colocar o país em rota de competitividade de sua economia frente a uma nova realidade que se desenha mundialmente nessa área, marcada pela inovação e pela redução dos impactos sobre a natureza.

Se a COP 17 e cada um dos países envolvidos no processo estiverem atentos para os sinais que a sociedade global emite nas manifestações que vêm ocorrendo nos últimos tempos, enxergarão aí uma demanda contundente por ações concretas e duradouras em prol do “nosso futuro comum” (o lema do desenvolvimento sustentável) e o ambiente inequívoco para que o combate às mudanças climáticas se torne um norte permanente à atuação política e econômica das nações.

Ricardo Barretto

 

A Via Quatro, empresa que opera a linha amarela do Metrô de São Paulo, se apresenta à sociedade paulistana como sinônimo de modernidade e integração. A tecnologia das composições e estações nos lembra o primeiro mundo, e impressionam em uma cidade com um passivo em transporte público de qualidade tão significativo como São Paulo, pena que a falta de transparência e respeito aos usuários, incluindo os ciclistas, nos lembre que temos muito a evoluir.

A linha amarela, que tem como slogan: “a linha que veio para integrar”, não está interessada na integração com o modal cicloviário. Explico:

Capítulo 1

O primeiro encontro

No início de setembro, mês em que se comemora o Dia Mundial Sem Carro, enquanto aguardo o elevador que me levaria à plataforma de embarque na estação Paulista, a funcionária denominada “Sra. X” nesse relato me aborda explicando que bicicleta no metrô é permitida apenas após às 20h30 horas.

Argumento que se trata de um modelo dobrável, de pequenas proporções, e que devidamente dobrada deveria ser encarada como qualquer outra bagagem de pequeno volume, e não com uma bicicleta comum. Sugiro que ela deva estar enganada, já que venho há mais de um mês fazendo o trajeto Butantã – Paulista – Butantã, sempre levando comigo a bicicleta dobrável, e que nunca havia recebido esse tipo de orientação dos funcionários da Via Quatro.

  

A inofensiva bicicletinha, antes e depois de ser dobrada, em frete a Estação Butantã (onde nunca tive problemas para embarcar).

Sra. X está irredutível e acrescenta que a bicicleta deveria estar dentro de uma capa. Saco a capa da mochila e embrulho a bicicleta. Não parece o suficiente para a funcionária.

Pergunto pelo gerente da Estação Paulista e digo que gostaria de esclarecer com ele a política da empresa para o transporte de bicicletas dobráveis. Sra. X diz que ele não se encontra e que na sua ausência ela é a autoridade responsável. Fico estupefato com o argumento. Por fim me libera, não sem antes alertar: “da próxima vez que te encontrar nessa estação você não embarca!”

Sigo caminho injuriado e na estação Butantã busco me informar sobre a tal política. Um funcionário diz não haver restrições de horário para as dobráveis, mas insisto que preciso de uma posição formal. Ele me orienta a procurar a ouvidoria.

A ouvidoria está surda!

Busco esclarecimentos no site da empresa, sem sucesso, e no dia 15 de setembro encaminho um e-mail para a ouvidoria, relatando o incidente com a funcionária e pedindo uma posição institucional sobre a política da Via Quatro em relação ao transporte das tais bicicletas dobráveis. Uma, duas, três mensagens enviadas e nada.

Penso: o papel da ouvidoria não é justamente ouvir as pessoas e clientes da empresa? Se a ouvidoria não te escuta, a quem recorrer?

Vencido pelo cansaço, depois de uma rara tentativa de exercer a cidadania, desisto (temporariamente) da briga com a Via Quatro. Continuo usando diariamente a linha 4 e passo a temer um reencontro com a funcionária que não gosta de ciclistas.

O segundo encontro

O fatídico reencontro se dá no dia 29/09 às 18h00. No mesmo local do primeiro encontro, Sra. X me aborda dizendo que é a segunda vez que me encontra no metrô com a bicicleta dobrável, como se estivesse cometendo um crime, e que dessa vez não poderei seguir viagem. Explico que tentei um esclarecimento junto a Ouvidoria e não tive resposta, e peço para que ela me mostre um documento que comprove a proibição de levar as dobráveis. Ela diz: “isso faz parte da rotina operacional.“

Já atrasado para buscar minha filha na escola e bastante impaciente, digo que preciso seguir caminho e que enquanto a empresa não adotar uma posição formal continuarei usando a bicicleta dobrável no metrô. Na tentativa de pegar o elevador (de uso preferencial, mas não exclusivo, para idosos, deficientes, grávidas, etc) sou impedido pela moça. O elevador esta vazio, mas ela parece se deliciar em dificultar ao máximo a minha vida. Cedo e vou pela escada rolante.

Resultado do segundo encontro: depois do dia arruinado em alguns poucos minutos pelo abuso da funcionária da linha amarela, recupero minha indignação e a vontade de comprar a briga com a Via Quatro até que os ciclistas e clientes sejam tratados com respeito. Escrevo esse texto e um depoimento nas redes sociais, na esperança de ser ouvido e de que uma política para o transporte das bicicletas dobráveis seja estabelecida pela empresa.

Aprendizado e esperança

Esse relato pessoal ilustra (i) como a Via Quatro está despreparada para lidar com essa nova e crescente realidade das bicicletas dobráveis, que se apresenta como uma opção eficiente e não poluente de deslocamento, e (ii) como os ciclistas que buscam cordialmente um posicionamento, são ignorados pela empresa. A intermodalidade propiciada pela integração das bicicletas dobráveis e metrô ainda está longe de ser fomentada pela linha da integração, a linha amarela, embora tenha sido inaugurada recentemente uma ciclorota que interliga a Cidade Universitária a Estação Butantã de Metro, estimulando justamente a integração bicicleta – metrô na região (desarticulações entre políticas públicas?).

  

Ciclovia e ciclorota que interliga a Cidade Universitária (Portão 1) a Estação Butantã.

Enquanto a empresa não se posiciona, fica a esperança de que seja aprovado o projeto de lei n° 655/2009, do vereador Chico Macena, que altera a Lei das Ciclovias (Lei 14.266) e determina que a “a bicicleta do modelo dobrável é considerada bagagem de mão, e pode ser transportada em qualquer meio de transporte público ou privado, como trem, ônibus e metrô, em qualquer dia ou horário, desde que dobrada e com o sistema de pedal, câmbio, corrente, coroa e catraca protegidos de contato direto com outros usuários, e suas dimensões e peso não ultrapassem o limite máximo permitido de bagagem por pessoa nas normas de uso do respectivo meio de transporte” (Art, 1°-A, Parágrafo I, § 2º). E a torcida para que a funcionária passe a simpatizar com os ciclistas.

Capítulo 2

Após escrever o Capítulo 1 dessa história, no último dia 4 de outubro, 20 dias depois do primeiro contato com a ouvidoria e após a intervenção do supervisor da Estação Paulista (que me atendeu muito bem por sinal), recebo a seguinte resposta da ouvidoria:

“Prezado Sr. Juliano, boa tarde

Em consulta à área de operação, fomos informados que o horário para transporte de bicicleta montada e empurrando-a, é após às 20h30 durante os dias da semana. Aos sábados, é permitido somente após às 14h00 e aos domingo é livre o dia todo.

Já para o transporte da bicicleta dobrada e embalada em capa própria, a única restrição é que esse volume não exceda o gabarito que se encontra na entrada de todas as estações da Linha 4-Amarela.

De toda forma, ressalto que a colaboradora em questão e todos os outros agentes das estações já foram reorientados em relação à conduta com nossos usuários e principalmente em relação ao transporte de bicicletas nestas condições.

Peço desculpas pelo transtorno involuntariamente causado e permaneço à disposição para outros esclarecimentos.

Atenciosamente,

Ouvidoria”

Em uma segunda mensagem a Ouvidoria se compromete a divulgar o procedimento para o transporte das dobráveis no site da empresa, que esta em fase final de construção.

Valeu insistir no diálogo com a empresa. Agora posso ir e principalmente VOLTAR sem grandes preocupações (sempre levando na mochila a resposta da ouvidoria, só para garantir).

Juliano Mendonça

 

O livro Nudge fala sobre como podemos “dar um empurrãozinho” para ajudar as pessoas a tomarem melhores decisões, pela maneira como apresentamos a elas o problema ou as alternativas para resolvê-lo. Mais conhecido pelo formato livro, o projeto também tem uma interface em blog.

Boas estratégias de argumentação para quem trabalha com sustentabilidade!

Fabio Storino

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