A Folha de S. Paulo publicou ontem, 28/07, artigo de José Vicente Ferraz, engenheiro-agrônomo e diretor técnico da Informa Economics FNP, com o título “Maior desafio é produzir mais alimentos com o menor custo”. Se a importância do acesso aos alimentos pela população de baixa renda é indiscutível, é preciso ter cautela na afirmação do título, para que o argumento não vire um tranpolim para iniciativas não sustentáveis.

Em tempos de Rio +20 e discussões sobre economia verde, os dois eixos devem caminhar entrelaçados: a sustentabilidade na produção e no consumo e o direcionamento da nova economia para a redução da pobreza. Do contrário, há o perigo de se cair em discursos vazios como o de empresas produtoras de organismos geneticamente modificados, que defendem suas sementes como uma forma de aumentar a produção e fazer chegar alimento aos menos favorecidos. A produção de transgênicos no mundo cresce anualmente – só a soja já passou dos 260 milhões de toneladas por ano – o que não significou fornecimento de alimentos para as populações pobres do mundo. Está aí a fome na Somália como exemplo.

Outro ponto que gera preocupação no artigo é em relação às soluções apontadas para o aumento da produção, como a intensificação da irrigação. Sabe-se que hoje, quase 70% da água doce utilizada em atividades humanas no planeta é destinada à agricultura – uso que muitas vezes acarreta escassez justamente para populações mais pobres. Daí a importância do fator sustentabilidade no contexto da produção de alimentos: não adianta produzir mais gerando passivos ambientais que não só comprometem os recursos naturais como acabam ameaçando, em primeiro lugar, os pobres que teoricamente se espera ajudar.

Vale questionar também o leque de soluções tecnológicas indicadas no artigo. Os OGMs, por exemplo, carregam consigo uma série de questionamentos, que vão desde o princípio da precaução até questões como o impacto de estratégias como sementes estéreis para os pequenos produtores. A discussão é longa e conhecida e não cabe detalhá-la aqui (mas vale dar uma olhada na Página 22). A questão é que existem outras formas de se aumentar a quantidade de alimentos disponíveis para consumo, como atuando no desperdício ao longo da cadeia de produção e consumo, que segundo a ONU gira em torno de 1,3 bilhão de toneladas por ano.

As verdades absolutas, típicas das iniciativas do século XX, não combinam com os preceitos da sustentabilidade, que procura olhar para a complexidade da relação entre sociedade e natureza. A economia verde, que estará em discussão na Rio +20, em maio de 2012, deve primar por soluções inteligentes, que nem sempre passam por inovações tecnológicas de alto custo, mas por outros tipos de inovação. Das mais singelas, como o melhor aproveitamento dos alimentos, passando por iniciativas de produção de alimentos no espaço urbano, até a adoção de novos modelos como os sistemas agroflorestais. Inovação, criatividade e uma boa dose de perspectiva socioambiental são fundamentais para a construção de uma economia verde e justa.

Ricardo Barretto

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