2010 e 2011 imprimem a noção de que a mudança do clima virou realidade global e cotidiana. Uma leitura do Twitter nessa segunda quinzena de janeiro traz alguns exemplos:

  • SC tem 43 cidades em situação de emergência por causa de chuvas http://bit.ly/eqA7Rs
  • SC: + d 872 mil pessoas e 21,8 mil residências foram afetadas, 21.413 pessoas desalojadas e 1.862 desabrigadas. 5 pessoas morreram
  • Já são 814 mortos e 513 desaparecidos na Região Serrana do Rio // Doe sangue, água mineral, alimentos… http://migre.me/3BBoH
  • Briefing sobre a Plataforma Global para Redução de Desastres 2011 que acontece em 27 de janeiro, em Genebra – http://tinyurl.com/635cr3o
  • Desastres naturais mataram quase 300 mil pessoas em 2010 http://ecodebate.com.br/90N
  • 2010: Um ano de calor recorde e condições de tempo fora do comum http://bit.ly/fuUT1c

Não houve continente no planeta que não tenha passado por situações climáticas extremas nos últimos meses, das nevascas no Hemisfério Norte às enchentes no Hemisfério Sul. Se a dinâmica climática é cruelmente democrática, a capacidade de resposta dos países tem sido em parte propocional às políticas públicas estabelecidas pelos diferentes governos. Caso emblemático repetido pela mídia brasileira foi a salvação de centenas de vidas na Austrália, graças a um eficiente sistema de alerta, e a perda de vidas humanas na casa do milhar no Brasil – onde não havia qualquer sistema do tipo, ainda que o fenômeno venha se repetindo ano após ano, de maneira crescente ao que parece.

walk, dont walk, por carlos sotelo

Mas não podemos acusar o governo de falta de coerência em sua política ambiental. Assistimos a uma sequência histórica de belos discursos do Brasil na esfera internacional e algumas boas iniciativas, como a adoção de metas para redução de emissões de gases do efeito estufa. No contexto interno, entretanto, a prática não acompanha os planos de intenções e sim as aspirações de crescimento econômico inadvertido, como se esse fosse um fenômeno social isolado do fator ambiental – seja na sua origem, seja nas suas consequências.

Assim como Dilma no Rio de Janeiro, Lula também se chocou e se mostrou solidário às vítimas dos temporais que arrasaram regiões inteiras de Santa Catarina em 2009. Mas nem assim surgiu na época o tal sistema de alertas ou medidas para se reforçar a cobertura vegetal de áreas de risco daquele estado ou outros igualmente vulneráveis. Pelo contrário, o governo fez vista grossa ao rolo compressor que impôs ameaça contínua ao Código Florestal brasileiro durante todo o ano de 2010 e que continua a rondar a lei que protege os biomas.

Em outras palavras, a coerência foi mantida: o discurso é uma coisa, a prática é outra. E a questão não se restringe aos fatos diretamente relacionados à mudança do clima, mas faz parte da dinâmica da política estatal brasileira que ainda entende que desenvolvimento significa privilegiar a produção em detrimento do meio ambiente. Como se fossem dissociáveis …

Exemplo disso, que também tomou o Twitter de assalto nos últimos dias – e também é uma discussão que se arrasta há um bom tempo – é a construção da hidrelética de Belo Monte: apesar de tantos pontos contra o empreendimento, o governo insiste em avançar com o projeto, passando por cima das leis ambientais que deveriam assegurar sua mínima sustentabilidade.

A queda do presidente do Ibama e do secretário-executivo do MMA dá um sinal claro de que a presidente Dilma Roussef pretende manter essa coerência que tem sido marca do governo nas políticas de desenvolvimento para o Brasil. O alerta, no entanto, está dado à presidente: a mudança do clima revela a deficiência das políticas internas, e essa deficiência irá potencializar os efeitos das mudanças climáticas no país.

Ricardo Barretto
Comunicação GVce

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