Comentário de Juliano Mendonça, pesquisador do GVces e ciclista urbano, a partir do post Prefeitura de Munique cria departamento e orçamento exclusivo para tratar de bicicletas na cidade

A solução parece simples: integração intermodal e fomento à cultura da mobilidade sustentável. Mas para isso é preciso vontade política e coragem para enfrentar a cultura do automóvel, e ai, no nosso caso, complica.

Enquanto em Munique a administração municipal colocou em prática toda uma estratégia de fomento à cultura do ciclismo, em SP vemos o oposto: é a sociedade civil (alguns poucos bicicleteiros e não muito organizados) que pressiona a prefeitura para que o modal cicloviário seja encarado de forma séria no planejamento da cidade. E a Prefeitura/ Gov. do Estado insistindo – e gastando muito – na ampliação da Marginal Tietê.

Quem sabe quando chegarmos ao colapso total, quiçá durante as Olimpíadas ou Copa do Mundo, as pessoas reconsiderem sua relação com o carro e o transporte cicloviário passe a ser encarado como uma alternativa de mobildiade pelo poder público.

 

Assim o economista Sergio Besserman resumiu o momento atual da história da humanidade, que testemunha o fim da era dos combustíveis fósseis para engressar numa economia de baixo carbono. A fala aconteceu durante o lançamento do estudo Políticas para Promoção de uma Economia Verde, hoje, na FGV. O foco central do estudo é uma comparação entre o Brasil e alguns outros países no estímulo e adoção a alternativas energéticas nos últimos 40 anos, tendo como contexto a corrida pela nova economia. ”Estamos no momento mais decisivo da história econômica brasileira desde 1930″, disse Besserman, para quem um dos pontos mais sensíveis se relaciona ao contexto da economia mundial. “Os preços de hoje não são os de amanhã e eles se reorganizarão de um modo dramático. Todos os preços mudarão, não só os da energia.” Para ele, esse é um contexto que ainda não recebeu a merecida atenção dos analistas econômicos: “A velocidade com que os ativos do mundo do passado serão depreciados é o dado que falta nos estudos de custos das mudanças climáticas.”

Em relação à adaptação às mudanças climáticas, Besserman foi enfático, com o humor direto e ácido que lhe é peculiar: “Nós viveremos a mais acelerada transformação tecnológica da humanidade. Pegou o bonde, ótimo! Não pegou, dançou!” A questão, segundo ele, não é só de competitividade, mas de capacidade de absorver o impacto que a transição demanda. “Quanto mais rápido acontecer a economia de
baixo carbono, mais diluídos serão seus custos.”

No caso do Brasil, a questão é bastante clara: “Devemos explorar nossas vantagens comparativas. Sustentabilidade é competitividade!” Daí o incômodo de ver um país que continua a se apoiar na matriz hidroelétrica e, agora, no petróleo, sem aproveitar sua aptidão para as fontes eólica, solar e das marés. “Se nós entrarmos na economia de baixo carbono antecipadamente, por exemplo, mudando o transporte de carga baseado em estradas e veículos a diesel, nós viraremos potência”, incita Sergio Besserman.

Durante o debate, Pedro Passos (IEDI) fez a inevitável pergunta sobre o que fazer com o Pré-Sal, tendo como perspectiva a economia do baixo carbono. Besserman: “Temos que explorar o Pré-Sal. Mas é um mundo do passado. Os recursos deveriam ser usados para financiar a nova matriz energética.” Para Besserman, a postura do governo em relação às energia renováveis é extremamente neoliberal, deixando a oferta por novas energias acontecer apenas ao sabor do mercado, de leilões. “Somos a Thatcher da política energética!”

Além do imperativo da mudança do clima, há outras duas razões para se fazer a transição para o baixo carbono o mais rápido possível: a busca da independência energética pelos Estados Unidos, que precisa adicionar à sua posição de potência militar a questão da segurança energética. A segunda razão: “Sairemos da crise global quando a taxa de investimentos estiver se recuperando e isso só acontecerá quando se dissipar a dúvida sobre preços relativos.” Ou seja, quando se materializar a precificação do carbono. “Isso abriria uma fronteira imensa de investimentos”, finaliza Besserman.

Os argumentos do economista reforçaram as palavras de André Carvalho, responsável pelo estudo, no início do evento: “Nossa intenção é apresentar indícios que ajudam a desmontar argumentos contrários ao discurso da sustentabilidade no país como um todo.”

Dito! Que venha o feito …

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