Para a etapa final da viagem estava prevista uma visita à UHE de Cana Brava, em operação desde 2002, como exemplo de empreendimento em funcionamento e dos impactos positivos e negativos que uma usina hidrelétrica pode trazer. No entanto, questões logísticas acabaram impossibilitando a visita.

O acaso é sábio! A descida a Goiás significou criar a atmosfera ideal para um fechamento espetacular da viagem, com uma estadia de três dias na comunidade de São Jorge, localizada na Chapada dos Veadeiros. Toda a aventura do FIS e a expedição com foco no projeto-referência, coincidem com o roteiro da Teoria U, que fundamenta o curso. O momento final da expedição significava o encerramento da fase de sensibilização para dar início à etapa de presença e reflexão sobre o que foi visto e vivido e depois a prototipagem da ação a partir da realidade dos diferentes stakeholders de Belo Monte.

Assim como navegar o Xingu foi essencial para o grupo entender melhor não só a importância do rio para as comunidades que vivem na região mas também para se conectar à sua poesia, a etapa final da viagem pedia um momento de relaxamento e conexão com a natureza que potencializasse a fase de reflexão.

Nada melhor que as corredeiras da Chapada dos Veadeiros, a caminhada por suas trilhas, a troca de experiências e exercícios de prototipagem na oca da Aldeia Multiétnica – local onde acontece encontros de grupos indígenas de Goiás.

 

Uma característica importante da viagem à Amazônia foi a possibilidade de conhecer a área que será afetada pelo empreendimento de Belo Monte, no Pará, e outra que já está sentindo os efeitos de um empreendimento hidrelétrico em obras: a UHE Jirau, em Rondônia. Abaixo, três vídeos mostram um pouco dessa realidade. O primeiro traz um rápido giro pela periferia de Altamira e o segundo traz uma explicação de um representante dos movimentos sociais a respeito dos impactos nessa região.

O terceiro vídeo mostra o estágio atual de Nova Mutum, uma nova localidade que está sendo erguida para abrigar os reassentados de Mutum, comunidade que será inundada pelo lago de Jirau. Quem conta um pouco da concepção por trás do chamado Polo é Charles, integrante da equipe do Projeto Básico Ambiental (PBA), de responsabilidade do empreendedor ESBR (Energia Sustentável do Brasil).

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Para quem acompanhou os primeiros posts da viagem, estamos de volta a São Paulo.

Infelizmente não deu para atualizar o blog a cada passo novo – e foram muitos! – mas agora vamos subir imagens, relatos e opiniões para vocês saberem melhor como foi essa experiência incrível!

Por enquanto uma foto dos momentos finais dessa expedição, com o grupo cansado mas cheio de lembranças frescas e reflexões para anotar em seus cadernos de viagem, enquanto o voo da volta não saía …

 

Estamos em Brasília. A atendente da TAM já dá a última chamada para Porto Velho, nossa próxima parada. A missão lá é conhecer um empreendimento hidrelétrico na fase de cosntrução. No caso, Jirau. O roteiro inclui dormir no canteiro de obras.

Durante o voo Altamira-Belém, estávamos imaginando o que seria estar no meio da floresta, com aquelas máquinas trabalhando e já indicando o tamanho da interferência de uma obra de grande porte em meio a uma paisagem outrora virgem – ou quase – como as que tínhamos visto ao longo do Xingu.

Espero conseguir postar e colocar umas fotos a respeito em breve!

Ontem, no fim do dia, fizemos um fechamento da primeira etapa durante duas horas, onde pudemos repassar várias situações entrevistas e encontros realizados em Altamira. Sem dúvida, foi intenso para todos. Muita coisa nova em poucos dias, discussões sobre desenvolvimento sustentável, o impacto de Belo Monte na região e principalmente vivências pessoais muito intesas para cada um. As lágrimas foram testemunha!

Grupo reunido em Altamira, diante do Rio Xingu

Última chamada … desculpem … tenho de ir …

Ricardo

 

18/04/2010

Parte do grupo segue em uma das três voadeiras que percorreram o Xingu

Expedição pelo rio. No roteiro, subir o Xingu a partir de Altamira para vivenciar um pouco do rio. Mas nem tudo são flores … e árvores … e sensações agradáveis. A primeira parada do caminho foi exatamente no local onde a barragem sobre o Xingu será erguida caso a usina seja construída.

Imaginar quase cinco quilômetros de um paredão atravessando o rio de uma margem à outra e ainda uma ilha no meio do curso d’água é algo assustador.

Certamente faz pensar que um empreendimento desse porte deve ter uma importância indiscutível e uma realização muito cuidadosa. Não só pelo impacto na paisagem, mas no fluxo de peixes, no principal meio de trocas, alimentação, intercâmbios, entretenimento, memórias e futuro de dezenas de comunidades e milhares de pessoas.

Para se ter uma ideia, grande parte das pessoas barragem acima ficaria isolada daquelas que habitam a barragem abaixo, já que pelo desenho atual, o empreendimento não apresenta canais de passagem para barcos. Essa foi uma dos questionamentos dos índios Arara que visitamos. Ao longo dos dias em Altamira, também ouvimos perguntas não respondidas como: “para onde irá toda terra e pedras que serão removidas?”; “quais são as evidências de que a Volta Grande não secará?”; “quais as evidências de que a multiplicação de peixes não será afetada e que essa fonte de alimento para as populações locais não ficará seriamente prejudicada?” … para citar alguma poucas dentre tantas outras.

Ricardo Barretto

 

18/04/2010

A segunda parada da expedição pelo Xingu estava marcada para a aldeia dos índios Arara, quase duas horas de barco após a área de construção da barragem.

Para grande parte do grupo, que nunca tinha tido contato com uma comunidade indígena de perto, havia grande curiosidade e expectativa. Para outros, que já tinham tido essa experiência, havia um certo receio de se chegar num grupo de 30 pessoas em uma pequena aldeia indígena que vem sendo muito visitada nos últimos meses – a exemplo das outras da região – por conta de Belo Monte.

Nem uns nem outros poderiam imaginar o que estava por vir.

Zé Carlos Arara

Após Márcio, Mario e Élice (representante dos movimentos sociais de Altamira) fazerem um contato inicial com uma liderança local, a entrada na aldeia foi autorizada. Fomos instruídos a nos reunirmos na sala de aula da escola da comunidade. Minutos depois, Zé Carlos, uma jovem liderança indígena, de 30 anos, dava um brevíssimo contexto da história de seu povo, marcado por diversos deslocamentos, fruto de conflitos com povos mais numerosos e do surgimento da Tansamazônica. “Nós tínhamos vergonha da nossa identidade”, confessa Zé Carlos ao contar que ignorar demonstrações de preconceito com os índios é algo recente para seu povo … mas um sentimento muito forte agora.

O sentimento de pertencimento de seu povo revela-se também na fala de Zé Carlos sobre a realação do governo federal com os índios. “Nós tivemos uma conversa com o Ibama para conhecermos o projeto de Belo Monte, mas deixamos claro que aquilo não era a oitiva indígena” – a consulta pública prevista em lei pela qual os detalhes do projeto são esclarecidos aos índios e suas considerações são ouvidas e assimiladas o processo.

“Pouco tempo depois ficamos sabendo do DVD que mostrava aquele encontro como a oitiva indígena”, comenta em tom indignado o que chama de “mentira do governo”. Qualidade da água do rio, disponibilidade de peixes, impossibilidade de navegar rio abaixo, interferência no modo de vida, isolamento dos serviços de saúde são alguns dos pontos levantados por Zé Carlos sobre o impacto da construção da barragem, que não foram satisfatoriamente respondidos pelo governo até aquele dia, véspera do leilão de Belo Monte.

Conforme a conversa evoluía, descobrimos estar diante de uma liderança incrível, com grande conhecimento do que se passa entre os seus, com um comportamento corajoso diante das autoridades, recusando tratamentos indignos travestidos de ajuda, e com um senso de construção de futuro fantástico.

Daqueles momentos difíceis de reproduzir para quem não esteve lá, mas certamente corporificado nos arrepios e lágrimas que aconteceram ao longo da conversa.

O grupo e alguns índios Arara em frente à escola da aldeia

Ao final, Zé Carlos fez um pedido aos presentes: “vocês, que são estudantes ainda, quando estiverem mais velhos, forem empresários, médicos, engenheiros, não esqueçam de que o mais importante é o coração.” Se a batida dos corações que estavam ali naquele momento permanecerem vivas na memória, certamente poderão se tornar grandes homens e mulheres com um brilho parecido ao daquele jovem índio, com uma clareza e um espírito de liderança e comprometimento com seu povo raro entre estadistas.

Ricardo Barretto

 

18/04/2010

“Vocês mentiram para nós. Vocês sabiam que o primeiro encontro para explicar Belo Monte não era a oitiva indígena. Mas depois lançaram o DVD dizendo que aquela era a oitivia indígena. Vocês são mentirosos, Vocês vão contra sua própria lei. Vocês não dão valor a ser brasileiro. Se eu me encontrasse com o Lula ia falar cara a cara o que penso.”

Parte do discurso apaixonado e indignado de Josinei, o novo cacique da aldeia Arara, de apenas 23 anos, sobre como tem visto as atitudes do governo brasileiro. Josinei recebeu o bastão de Zé Carlos, que continua sendo uma forte liderança dos Arara.

Jociney Arara

Ricardo

 

17/04/2010 

Como falei no primeiro post sobre a viagem à Amazônia, não tem sido fácil alimentar o blog. Não tanto pela conexão à Internet em Altamira, mas pela intensidade da agenda e pelas diversas conversas coletivas que têm sido momentos fundamentais de troca de informação e compartilhamento de angústias, dúvidas e conquistas do processo. 

Para se ter uma ideia, em apenas dois dias nos reunimos com líderes de movimentos sociais da região, com representantes da Eletronorte, com um integrante do Ministério Público na cidade, com estudantes de gestão ambiental da região e com especialistas que participaram do relatório crítico ao EIA apresentado para fundamentar o licenciamento do empreendimento. 

Abaixo algumas fotos que dão um gostinho do que foram essas conversas. Em breve, um material mais completo a respeito. 

Especialistas falam sobre críticas ao EIA que fundamenta Belo Monte

Encontro em igreja de Altamira com alunos do curso à distância de Gestão Ambiental da Universidade Metodista

Conversa com representantes de movimentos sociais de Altamira

 

Belém do Pará, 3h49 – Pousamos na capital paraense há pouco. Uma grande roda toma conta da praça de alimentação do aeroporto. Alunos e equipe da Formação Integrada em Sustentabilidade conversam à espera do voo que vai para Altamira. O dia de amanhã tem no roteiro uma visita à Eletronorte e outra – paralela – ao Ministério Público.

Os alunos estão tranquilos mas os olhares parecem de quem está esfregando as mãos de expectativa. São os primeiros passos em campo.

Não sei como será o acesso à internet nos próximos dias, mas tentarei postar novidades por aqui. Já tenho as primeiras fotos … mas o cabo para baixá-las ficou na mala que ja´deve estar dentro do bimotor que segue para Altamira.

Para quem não sabe bem do que se trata, FIS é uma disciplina nova na EAESP-FGV, que tem a sustentabilidade como eixo norteador e um projeto-referência como desafio: Belo Monte. Os alunos produzirão um relatório para recomendar a dois grandes bancos o investimento, ou não, e sob que condições no mais polêmico projeto hidrelétrico dos últimos tempos. Este é o primeiro dia do trabalho de campo, que passará ainda por Rondônia – onde os “fisers” visitarão a área de influência da Hidrelétrica de Jirau – e por Goiás, para saberem como foi o impacto da Usina Hidrelétrica de Cana Brava.

Dez dias corridos e intensos, em contato com comunidades locais, empreendedores, representantes do poder público e outros tantos atores que ajudarão a montar um mosaico de percepções sobre o que envolve – e o que pode envolver – a construção da UHE Belo Monte.

Em breve, mais notícias. Por enquanto, acompanhem no site do FIS um apanhado do que tem saído na mídia sobre o tema: http://www.fgv.br/fis

Ricardo Barretto

 

Na segunda-feira 12 de abril a Carta Capital lançou um suplemento verde em um evento no Tuca, teatro da Puc. O evento trouxe grandes nomes da sustentabilidade, como Marina Silva, senadora e pré-candidata à presidência, Luiz Gonzaga Beluzzo, economista, Ladislau Dowbor, também economista, Tasso Azevedo, do Ministério do Meio Ambiente, Guto Quintella da Vale e Linda Murasawa, do Santander, empresas que patrocinaram o evento.

Marina Silva discursou cerca de uma hora. Falou bastante sobre o desafio que o Brasil enfrenta na transição para uma economia de baixo carbono. Fez um breve histórico acerca do problema das mudanças climáticas, causadas pelo aumento da emissões globais de gases de efeito estufa. Lembrou das responsabilidades dos países desenvolvidos e em desenvolvimento na resolução desta questão. Como consta no Protocolo de Quioto, lembrou que há “responsabilidades comuns porém diferenciadas”.

A senadora insistiu na necessidade de haver um diálogo, que por sua vez deve ser entre empresários, sociedade civil e governo. O Brasil deve aproveitar as oportunidades nesta questão, que são muitas, principalmente na geração de energia, com largas vantagens comparativas, e se atentar aos riscos. Uma frase que proferiu e vale ser repetida é que o Brasil tem “responsabilidade política e dever ético de atuar”. Deve também proporcionar um “constrangimento” ético, criando uma estrutura de regulação.

É importante ressaltar que está havendo aqui e no mundo uma mudança no modelo de desenvolvimento, onde posso opinar que é uma mudança para melhor. Para isso precisa criar os incentivos corretos, sejam eles econômicos ou não. Parodiando uma psicanalista argentina, disse ainda que deve haver uma “desadaptação criativa”, indicando para uma sociedade com novos paradigmas, com um novo modo de consumir e de produzir.

“No começo, a mudança é apenas um desvio” também aponta para este caminho de ruptura, onde aos poucos estes desvios começam a ser o padrão. Por fim, diz ainda que deve-se ter uma “visão antecipatória de mundo e país”, onde a visão de sustentabilidade tende a ser uma realidade no futuro. Conceitos como felicidade, bem-estar e riqueza devem ser repensados.

Após ela, falaram os empresários da Vale e do Santander. Linda Murasawa atentou para o papel das empresas perante os desafios do aquecimento global, dizendo que estas devem ter um papel proativo. Citou o programa Empresas Pelo Clima do GVces, no qual ambas empresas fazem parte.

Ladislau fez breve discurso, mas falou muito bem. Falou sobre os dez mandamentos que descreveu para este novo mundo. Por fim, Tasso atentou para o fato de que a Conferência de Copenhague não ter sido um fracasso como a mídia insiste. Esta faz parte de um processo no qual o mundo está passando, e que em breve virá um acordo internacional, que será traçado com base no que já está em andamento, e há muito sendo trilhado pela sociedade civil, governos e empresas. Também lembrou do papel fundamental da adaptação ao novo cenário, que ao lado da mitigação se faz necessária.

Após esta densa manhã de muito conteúdo saí bastante contente. Há muito sendo feito no Brasil em termos de combate ao aquecimento global. Políticas estaduais e municipais estão se proliferando, organizações da sociedade civil mobilizam cada vez mais pessoas e o mundo empresarial vem tomando consciência da seriedade deste tema e atuando nas diversas frentes.

Parodiando o glorioso professor Ignacy Sachs, estamos em meio a uma terceira grande revolução. A primeira foi a Revolução do Neolítico, quando o homem se sedentarizou. Depois veio a Revolução Industrial, onde os meios de produção sofreram enorme expansão. Estamos em meio a quebra de paradigmas e a criação de uma nova sociedade. Estamos mudando nosso modo de consumir. O consumo de uma sociedade reflete diretamente nela. Por que precisamos comer cerejas chilenas em meio ao inverno francês? Um novo modo de consumir, mais racional está por vir. Assim também está havendo uma mudança nos meios de produção, que aos poucos vão tornando-se mais verdes.

Não estou aqui para defender nenhuma ideologia política. Não estou aqui para fazer campanha para partido nenhum. Quero apenas expressar minha felicidade ao poder constatar que a sociedade está caminhando lentamente para uma sociedade melhor, mais verde e mais justa… Tomara que eu esteja certo!

Dany Simon, idealista

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