Vou aproveitar o ótimo diário de bordo do Mario para sugerir o curta francês Mon Chinois, que venceu o juri popular no último Anima Mundi. Achei que de uma forma leve a animação toca com humor a questão dos nossos estereótipos, e o contexto complexo do país … O filme é em francês mas no site tem opção de legenda em inglês.

http://www.cedric-villain.info/defi12/

Camila Haddad

 

Dica da Rachel Biderman:

termilenio

TERCEIRO MILÊNIO” (Brasil, doc, 90′, cor, 1981) 
 Diretor:
Jorge Bodanzky e Wolf Gauer
 Sessão de 31/7 do 
Cineclube da Vila / Livraria da Vila
 R. Fradique Coutinho 915. (11)38145811
 zeromm@cineclubes.org.br

Uma “viagem pelos confins do tempo presente”, prenuncia o cartão do prólogo, em Terceiro Milênio. A câmera solta do diretor Jorge Bodanzky invade a casa e depois rios, encontros de madeireiros, quartéis de polícia e embarcações como quem visita a casa de um parente próximo que habita num lugar distante. “Assim são as coisas na Amazônia”, avisa o pitoresco e eloqüente senador Evandro Carreira no seu papel de guia deste documentário que retrata dualidades diversas: o país e a fronteira, o índio e o branco, a política e a realidade. Na mesma sessão, haverá a exibição do curta-metragem, “Amazonas, Amazonas”, do cineasta Glauber Rocha. Uma leitura poética da história de um terreno desejado e batalhado onde sangue, madeira, borracha e dinheiro se misturam em uma memória visual de viajante que se complementa ao filme de Jorge Bodanzky. Embora feitos há décadas, estes filmes retratam a mesma realidade atual de uma terra própria e ao mesmo tempo estrangeira.

HTTP://ZEROMM.WORDPRESS.COM

 

A chuva refrescou bem o tempo por aqui. E o velhinho apareceu de novo. Camisa Hering branca, calça caqui com cinto apertado acima do umbigo. Cabelo branquinho. Braços erguidos, palmas das mãos apontadas para o rosto. No mesmo ritmo: 20 cm em 20 minutos. Para se ter uma noção do que isso significa, é uma velocidade de 60 cm/hora. Uma tartaruga é uma Ferrari perto disso. Está mais para bicho-preguiça, mas acho que bicho-preguiça ainda é meio desajeitado perto do velhinho. Se eu tivesse só 60 cm de movimento em 1 hora eu estenderia meu braço lentamente até meu bolso, esticaria meus dedos e pegaria meu blackberry, antes que a urticária me atacasse por completo. Imagina, até parece que eu sou assim! Quando crescer quero ser que nem ele. “O que você vai ser, quando você crescer”. 

O boca-a-boca sobre a aula de ontem deve ter trazido mais gente pro thai chi, pois o quorum foi maior hoje. Impressionante como já sentimos a evolução em poucas aulas. O núcleo duro de nosso exército de brancaleone conseguiu convencer o professor a dar aula amanhã e sexta, pois o previsto era só de segunda à quarta.

E corre-corre de novo: 30 minutos para café, banho, arrumar mochila e caminhada para uma aula sobre “metabolismo e fisologismo de “higher” fungos e sua relação com a sociedade e com o dia a dia”, com o Prof. Jian-Jiang Zhong, PhD em Tecnologia e Biotecnologia da Fermentação. Ele tem um H-index de 21, o que significa que ele é um dos caras mais citados e de maior número de publicações na China. Para se ter uma idéia, ele tem mais de 150 artigos aprovados em journals internacionais. Enfim, apesar de jovem, o cara é uma fera e muito simpático. O problema é que ninguém conseguiu acompanhá-lo … e ele perdeu a audiência. Luz laranja no controle. Aproveitei a dispersão da classe para ligar o lap top e me conectar na web. Quem entra no MSN é minha filha Luiza, me perguntando que horas eram por aqui. Ao dizer que eram 10h da manhã, fui surpreendido por um: —– Papai, como é o futuro? Se vira nos 30, negão. —– Filha, veja bem…(quando alguém começa com “veja bem” é porque ele não sabe a resposta), na verdade (quando ele complementa com “na verdade”, ele só está ganhando tempo para inventar uma resposta), nós estamos vivendo o mesmo presente, só que aí está noite e aqui está dia. Perguntei se ela tinha entendido, e ela respondeu com um sonoro —– Claro, que não! “É preciso amar as pessoas, Como se não houvesse amanhã, Por que se você parar pra pensar, Na verdade não há”. Confesso que fui para o alojamento pensando na pergunta.

À tarde tivemos mais uma aula da trilha da ciência da vida. Dessa vez, o Prof. Linquan Bai ministrou aula de “Metabolismo Microbial Secundário: aplicações, bio-síntese e engenharia” de várias classes de antibióticos, incluindo soluções para aumento de produtividade. Com essa aula, fechamos o ciclo chinês da ciência da vida.

Entre os comentários que recebo de vocês, só um foi positivo em relação à parte da ciência da vida. E é claro que tinha que ser de alguém com a incrível capacidade e sabedoria de ver o lado bom das coisas: a Érica. Sem a autorização dela, eu colo um trecho do email que recebi para uma reflexão coletiva, por que achei bem legal: “Olha, eu adorei esta história de ciências da vida e da forma como abriram.  Quer visão de longo prazo melhor que esta? É uma desconstrução, mas talvez se começarmos a ver a vida pela velhice, tem coisas que ficariam muito pequenas e outras muito valiosas. O dia-a-dia pode ganhar a dimensão de oportunidade. Nenhum problema é uma grande surpresa ou uma grande tristeza. Faz simplesmente parte da vida. Lembra do filme do Benjamin Button?  Ele era uma calmaria só”. Eu não vi o filme, mas o texto fez sentido para mim. E agora passo pelo velhinho de 100 anos pensando nisso. A má notícia é que duvido que quem programou as aulas tenha tido essa visão, mas vamo que vamo.

Para finalizar o dia de hoje, confesso que não pude deixar de lembrar do meu pai, Dennis, e do meu filho, João, nessa série da ciência da vida. “Meu filho vai ter Nome de santo, Quero o nome mais bonito”.

A primeira aula me fez lembrar muito meu filho, que teve uma esquemia, seguido de derrame, quando ele tinha 8 meses de vida. Em geral, derrames acontecem na fase adulta e é raro em bebês. A segunda e a terceira aula me fizeram lembrar do meu pai. “Você me diz que seus pais não lhe entendem, Mas você não entende seus pais, Você culpa seus pais por tudo, Isso é absurdo, São crianças como você”. Meu paí é químico e começou a vida profissional em um laboratório fazendo fermentação de antibióticos, em particular de penicilina. Os antroposóficos não vão gostar do que vou dizer – e eu sou meio suspeito para dizer – mas considero a descoberta da penicilina uma das maiores invenções do século XX. Eu lembro muito do cheiro da fermentação de penicilina, pois passei a infância indo com meu pai no final de semana na fábrica da Squibb, laboratório americano, na Avenida João Dias, em Santo Amaro. Enquanto ele resolvia os problemas não resolvidos na semana, a gente passeava pelo laboratório vendo os fungos crescerem in vitro.

Enfim, sincronicidade. E para quem gostou, segue a música inteira abaixo.

PAIS E FILHOS – LEGIÃO URBANA

Estátuas e cofres
E paredes pintadas
Ninguém sabe o que aconteceu
Ela se jogou da janela do quinto andar
Nada fácil de entender

Dorme agora
É só o vento lá fora
Quero colo
Vou fugir de casa
Posso dormir aqui
Com vocês?
Estou com medo tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três

Meu filho vai ter
Nome de santo
Quero o nome mais bonito

É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Por que se você parar pra pensar
Na verdade não há

Me diz por que o céu é azul
Explica a grande fúria do mundo
São meus filhos que tomam conta de mim

Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar
Eu moro na rua não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais
Eu moro com os meus pais

É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã
Por que se você parar pra pensar
Na verdade não há

Sou uma gota d’água
Sou um grão de areia
Você me diz que seus pais não lhe entendem
Mas você não entende seus pais
Você culpa seus pais por tudo
Isso é absurdo
São crianças como você
O que você vai ser
Quando você crescer?

 

Mario Monzoni

Shovhe em Shanghai. Na verdade, não muda muito: é como se saíssemos da sauna seca para a sauna úmida. Mas acho que é por isso que não encontrei o velhinho hoje. A chuva também deve ter afugentado os alunos da aula de tai-chi. Somente 15 apareceram, contando com os professores. Eu representei os barrigudos. Já não somos mais um exército de brancaleones, liderados por um general chinês. Somos um bando de brancaleones, liderados por um general chinês. E foi muito melhor: a aula foi sensacional.  Conseguimos evoluir nos movimentos. Os braços me confundem, e ainda tenho que me preocupar com a palma da mão, para baixo ou para cima, para dentro ou para fora, sem contar com os movimentos das pernas. Muita coisa para um menino! Acho que amanhã vou jogar o chiclete fora, antes de entrar na aula.

Tomei café, banho e saí correndo. Tô atrasado….ops…o café! Ainda não contei nada sobre o café da manhã chinês. Na verdade, confesso que é difícil, pois eu não sei o nome das coisas que comemos. E não é em chinês, não, é em português mesmo. Hoje tinha folha de lotus. Sardinha frita, arroz biro-biro, pepino e tomate com sal grosso, sempre sopa, diversas verduras cozidas, dumplings (ou guiozas) fritos ou cozidos, uma bola branca que parece um marshmallow sem muito gosto, ovo de pata que fica 20 dias na salmora, pão de forma, e leite. De soja! Ahhh, tinha café. Tem amendoim também, algo diferente para ser comido com dois pauzinhos. Comer amendoim com dois pauzinhos é coisa de louco manso…haja tai-chi. Eu já estive no interior da china e posso dizer que a coisa é muito mais estranha. Em Shanghai, num ambiente de universidade internacional, o café já estava bem ocidentalizado.

Na parte da manhã tivemos duas aulas de professores brasileiros. A primeira aula foi dada pela Profa. Leila da Costa Ferreira, da Unicamp, socióloga,que estuda a sociologia do meio ambiente. A segunda aula foi ministrada pelo Porf. Detlef Hans Gert Walde, geólogo da UNB, que tratou do tema de recursos hídricos, sob cenário de mudanças climáticas, em particular, sobre o fornecimento de água no Distrito Federal. A aula do Prof. Detlef foi muito aplaudida.

O melhor mesmo ficou por conta de visita ao centro da cidade. Saímos depois do almoço para visita ao Centro de Exposições de Planejamento Urbano de Shanghai e ao centro financeiro, onde tivemos a oportunidade de conhecer o Shanghai World Financial Center, o prédio mais alto da China, com 475 metros de altura, que fica em Pudong, o distrito mais moderno de Shanghai. E nós subimos até o topo! Digo melhor não pelo passeio em si (esse si saiu com “s”), mas pelo aprendizado e reflexão que se tira, e que nos remete à discussão que tivemos sobre a exuberância do campus da universidade de Jiao Tong dois dias atrás, e aos ensinamentos do Allan sobre o poder utilitário da arquitetura: como a preocupação pelo superlativo arquitetônico é dominante na China! Aqui tudo é grande e eles parecem adorar isso. O país é grande, a população é gigantesca, o crescimento tem que ser o maior, o campus não pode ficar para trás, por quê então as cidades e os edifícios deveriam ser pequenos? É a imposição do poder pela violência do tamanho.

Shanghai está promovendo a Expo, 2010, no ano que vem, entre 1 de maio e 31 de outubro, a maior feira de negócios ever realizada no mundo. Ver http://en.expo2010.cn/. Por onde passamos, encontramos outdoors e propaganda da Expo 2010. Grande parte das obras, em especial as no centro da cidade, é para receber centenas de milhares de pessoas que virão à Shanghai fazer negócios. O lema da feira é “A Better City, a Better Life”, de modo que maciço volume de investimento está sendo feito na cidade para esse evento, que se transformará num grande palco de propaganda para a cidade e para o país. E nada melhor para um primeiro passeio do que levar 52 visitantes brasileiros para o Centro de Exposições de Planejamento Urbano de Shanghai, um verdadeiro showroom da cidade. No local, fomos recebidos por uma guia do Centro que nos conduziu, por uma hora, pelos três andares de exposição sobre a história da cidade até chegar no quarto andar, onde está construída uma maquete de cerca de 400 metros quadrados de Shanghai! Cada prediozinho (ou seria prédinho?) de Shanghai está na maquete. Pudemos ver o campus onde estamos instalado, lá no cantinho da cidade, Pudong, os principais hotéis e restaurantes, o Bond, que é a histórica orla do rio totalmente restaurada, entre outros atrativos da cidade. A gente percebe como a própria guia que nos conduziu foi treinada para enfatizar o grande, o extenso, o alto, o glamoroso…. No final, ainda passamos por um globo que passava um filme 3D de uma viagem aérea pelos elevados, vias e ruas de Shanghai. Uma espécie de jogo do Mario Bross, no Wii. Deixamos o “Centro” de Exposições e fomos ao “Centro” financeiro visitar o Shanghai World Financial Center, em Pudong. Vejam a vista noturna de Pudong abaixo. O SWFC é o prédio mais alto com formato de abridor de garrafa.

shangai_noturna

O prédio tem 100 andares e foi recém-construído. O elevador sobe – e desce também – a uma velocidade de 8 metros por segundo. No visor do elevador não aparece que andar você está, mas quantos metros de altura você percorreu. Em um minuto você está no topo! Faça o teste na sua casa. O pior é que estava nublado, quase chovendo e não deu para ver nada, pois tinha uma nuvem bem no topo do prédio, tipo a casa da família Adams. Paradoxalmente, se o prédio tivesse 80 andares teríamos visto Shanghai inteira. Confesso que, pela primeira vez na vida, eu fiquei mareado. Ao entrar em um corredor – na verdade, a parte de cima do abridor de lata – que cruza o prédio de lado a lado, com parte do chão de vidro, eu fiquei totalmente tonto. A coisa ficou ainda pior para mim quando o chinês, que toma conta dos elevadores, me disse que a saída era do outro lado. Ou seja, eu teria que atravessar um túnel de 50 metros, com uma p… vertigem, fingindo que está tudo bem. Respirei muito fundo e fui. Aproveitei duas faixas de lajotas que não eram vazadas e que não dava para ver o chão, a 475 metros de distância. O que eu não contei é que na minha frente tinha umas 100 pessoas, entre estudantes e professores brasileiros e chineses, além de alguns turistas estrangeiros, absolutamente concentrados na vista, desinformados sobre a presença de um professor brasileiro com ataque de vertigem, desesperado para chegar ao outro lado do corredor. Estimo em 20 segundos de desespero total, onde apenas senti o tranco de umas três ou quatro trombadas que dei durante o caminho, com pessoas que insistiam em ficar na minha frente e bem na trilha de lajotas sem vidro que eu tinha desenhado até o outro lado.  Não consegui ajudá-las a levantar do chão, pois estava concentrado no meu objetivo de chegar ao outro lado. Ufa! Cheguei! O elevador estava ali, a minha disposição, olhando para mim. Ninguém, entre eu e ele. O chão de pedra. Seguro. Moço, o térreo, por favor!

Por último, saibam que na frente desse prédio está sendo construído um outro, maior ainda, de 600 metros. Não contem comigo para uma visita. Acho que os anúncios de prédio aqui na China deveriam ser assim: SWFC, o prédio mais alto do mundo virgula no momento. E para finalizar: vocês sabem qual vai ser o nome do prédio novo? Suuuuuuuper sugestivo…nome chinês….que lembra a dinastia Ming….e todo o passado milenar da China: Shanghai Towers!

Por hoje, enough is enough. Volta para o campus. Vou dormir cedo.

Boa noite, Shanghai!

 

Ainda sob o efeito do fuso horário, acordei às 4h30 da manhã da segunda-feira, fui trabalhar um pouquinho (até parece que eu não faço isso em São Paulo!), vesti minha roupa e fui caminhar. Dessa vez, resolvi dar a volta por fora do campus, pelas ruas de Shanghai. Bad idea! O desvio permanente para obras em andamento tornou a caminhada não prazerosa e decidi voltar ao campus. Sabe quem estava lá? O bom velhinho de 100 anos praticando o seu tai-chi. Observei também um bom número de pessoas – também idosos – batendo as costas e dando tapas em árvores, em movimento repetitivo. A pista de atletismo estava bem cheia – duvidei que o movimento de domingo se repetisse na segunda, e me enganei – com várias pessoas – quase todos idosos – caminhando, correndo, jogando badminton e brincando com uma espécie de pião aéreo, movido por uma corda segura pelas mãos por dois pauzinhos, que faz um barulho de uma cigarra, e que pousa lentamente no chão rodando em torno de si mesmo. E haja velhinho fazendo tai-chi. Fui chegando da caminhada ao encontro da turma, que já se aglomerava para nossa primeira aula de Shaolinquan, termo usado na programação entregue aos participantes. Na verdade a aula era de tai-chi, que ao lado do kung-fu fazem parte de um grande guarda chuva chamado wushu. Vejam box para entender um pouco essas diferenças.

Antes que a Erica pergunte, descobri o que significa Jiao Tong. Significa: “o ser que está em mim cumprimenta o ser que está dentro de você”……..brincadeira! Jiao Tong significa “transporte e comunicação”. Isso mesmo, Universidade de Transporte e Comunicação de Shanghai! Basicamente, é uma universidade de engenharia que tem formado, em especial, as maiores cabeças na área de transporte, na China. Começo a entender os cebolões na cidade! A SJTU também foi responsável pelo primeiro míssil balístico da China, assim como o primeiro submarino nuclear e o primeiro satélite.

Entendo que aqui vale uma reflexão: será que haveria espaço na China para uma educação mais tai-chi do que jiao-tong? Quem sabe um novo modelo para o mundo, no lugar de uma cópia do modelo de educação americana. É verdade que posso estar enviesado pelo que vi aqui na Jiao Tong, mas não acredito que o DNA da política educacional da China seja diferente para outras instituições, mesmo porque, Jiao Tong é uma das top 3 universidades chinesas. Ou seja, aceitando essa premissa, estamos diante de um transatlântico a todo vapor com o objetivo último de replicar um modelo de desenvolvimento calcado no crescimento econômico, movido pela ciência e tecnologia, com a alma totalmente voltada para a competitividade, monitorada por indicadores de desempenho pouco inovadores. Para quem leu “Juruti Sustentável, a missão” sabe que eu não acredito em transatlântico dando cavalo de pau, mas nesse caso, o caso, o que nos resta, seria tentar salvar o iceberg à frente.

Nesse momento de reflexão, chegava, pedalando uma bicicleta, o nosso professor de kung-fu. Agora, preparem-se para uma sessão de Nelson Rodrigues.

NELSON RODRIGUES

Imaginem 50 brasileiros em um gramado de campus universitário na frente de um chinês que não fala nenhuma palavra além do mandarim, com uma platéia de cerca de 20 velhinhos chineses de boca aberta olhando a cena. E como dava ordem o desavisado chinês! Para quem olhava do lado de cá, era só tentar copiar os movimentos que o chinês fazia, porque pelo som que ele emitia não dava para saber o que a gente deveria fazer não! Deu 5 minutos e o chinês chamou a gente para o centro para “conversar”. Meu Deus! Salvos por uma aluna filha de chineses da UNB, ficamos sabendo que ele estava desistindo de dar uma aula mais puxada, por causa de alguns elementos de idade mais elevada no grupo … quem seriam eles? … e que daria uma aula mais leve de tai-chi. Ele até ameaçou uns movimentos de kung-fu nessa hora, mas quase derrubou uns três ou quatro na roda. E repetiu duas vezes: “não menosprezem o tai-chi. O tai-chi é tudo na China. O tai-chi é muito poderoso”. E voltamos lá para as 5 filas de 10 pessoas olhando para a cara do chinês que insistia em falar com a gente, desta vez sem a tradução da aluna chinesa. E vamo que vamo. Foi bem legal, mas é impressionante como as pessoas confundem o braço direito com o braço esquerdo … e lá vai o chinês de um em um corrigindo os braços. Duas velhinhas que assistiam morriam de dar risadas. Na verdade, o movimento não é tão simples: temos que imaginar que estamos segurando uma bola – quem sabe um vaso de porcelana chinesa, você decide – e invertê-los num movimento de rotação das pernas até uma posição de defesa. E foram mais 30 minutos fazendo o mesmo movimento. Quem sabe até dia 15 de agosto conseguimos completar essa coreografia.

Amanhã cedo tem mais.

Corre para o café e tomar banho, pois em 45 minutos começa a primeira aula. E dá-lhe Nelson Rodrigues. Dessa vez, o ator protagonista foi o professor Weihai Ying, PhD em medicina e com formação na Califórnia.

NELSON RODRIGUES II

Entre as áreas temáticas que vão ser abordadas no curso está a da ciência da vida, e foi por onde começamos. O Professor Ying deu uma aula sobre “Mecanismos das principais doenças neurológicas”, incluindo derrames e Alzheimer. Sovaco de cobra II. Confesso que enquanto ficou no genérico eu acompanhei e entendi, como, por exemplo, o papel do stress oxidativo em doenças neurológicas. No entanto, quando ele entrou no papel dos NAD+ / NADH e NADP/NADPH em derrames, eu confesso que me perdi. Para ser honesto, e com todo respeito ao Prof. Ying e aos organizadores do programa, acho que essa aula estaria mais para um programa do Discovery Chanel do que para uma aula cheia de alunos vindos de formação tão heterogênea, ainda mais sendo a primeira. Enfim, fica o aprendizado.

Na parte da tarde, tivemos mais uma aula ministrada pelo Prof. Ying, literalmente mudando de pato (que não é o do Pequim) para ganso, sobre “How to write a paper” e “Dicas para escrever pedidos de Grants”. E dá-lhe influência americana. De qualquer maneira, muitos sabem que eu tenho defendido no GVces que se invista em formação em metodologia de pesquisa. Acredito que, tanto pessoalmente quanto profissionalmente, seja absolutamente importante desenvolver a capacidade de construir métodos de resolução de problemas, o que, grosseiramente, é o objetivo de qualquer pesquisa. No entanto, mais uma vez, entendo que a aula foi mal posicionada.

Vamos ver o que acontece amanhã.

 

por Roberto Strumpf

MDL, CER, REDD, PSA, GEE, ETC. As discussões ambientais atuais estão mais complexas do que nunca e é fácil se perder no meio desta sopa de letrinhas… A questão é que nunca tivemos tantas informações cientificas, vontade política, reivindicações sociais e econômicas atreladas a antes coadjuvante causa ambiental. Estes ingredientes se misturam num caldeirão cuja ebulição está prevista para o final deste ano, na COP15 em Copenhagen. A sopa final, se não queimar, terá de agradar a gregos, americanos, troianos e chineses, é realmente um grande desafio!

flowerpowerA fim de compreender melhor o presente momento proponho uma rápida análise no caminho tortuoso do movimento ambiental até aqui. Tudo começou naquele verão de 1969 quando o “flower-power” deu as caras ao mundo nas vozes, corpos e mentes de hippies cansados da guerra, do capitalismo selvagem e da degradação ambiental. Hoje me parece que eles falharam feio nas duas primeiras causas, mas obtiveram sucesso ao iniciar um movimento que está na pauta dos grandes líderes políticos atuais e CEO´s de megacorporações.

De 1969 a 2009 o movimento ambientalista solidificou-se e evoluiu, incorporando conceitos sociais e econômicos para dar luz à famosa, porém pouco compreendida sustentabilidade – “suprir as necessidades da geração presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprir as suas” (Brundtland, 1987), que vem se tornando quase que um décimo primeiro mandamento no século XXI. A palavra mágica está em voga, é uma tendência para os fashionistas, é uma necessidade para os ambientalistas e uma dor de cabeça para muitos tomadores de decisão.

Bom, não é fácil resumir 40 anos em dois parágrafos, mas o fato é que se hoje o movimento está forte é porque sua causa ganhou importância global. E qual seria a raiz deste problema que tomou conta do mundo? A macroeconomia atual tem como alicerce o crescimento que é sustentado (ou insustentado) pelo uso dos recursos naturais em uma cadeia linear. Isso quer dizer que transformamos recursos naturais em bens de consumo, lixo e poluição interruptamente. Pensando assim, fica fácil entender como causamos um desequilíbrio ecológico do nosso planeta que se reflete nos dois principais desafios ambientais atuais: as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade.

pegada_areiaNo fim das contas é tudo um problema de espaço-tempo. Espaço porque, até o momento, o Planeta Terra é único e já somos 6 bilhões de pessoas – e crescendo. Segundo estimativas, em 2050 seremos 9 bilhões de homo sapiens procurando de onde extrair e onde descartar em um Planeta já debilitado. Este cenário não é otimista! Espaço nos remete também ao conceito de pegada ecológica, ou seja, a área do Planeta que precisamos para suprir todas as nossas necessidades fisiológicas e que se relaciona com o comportamento de cada indivíduo. Só para exemplificar, segundo este conceito cada Americano ocupa o espaço relativo a 14 Indianos sem, no entanto, pagar um “aluguel” maior por isso.

E tempo, pois o desequilíbrio causado por esta enorme pegada ecológica esta gerando mudanças climáticas num ritmo muito mais rápido do que a capacidade de adaptação dos seres vivos, o que inclui nós. Ah, e tempo também porque para impedirmos que este processo se torne extremo e irreversível temos que agir já, imediatamente, ontem na verdade!

Tudo o que fizemos na história da humanidade tinha como objetivo crescer, expandir, procriar e consumir como se não houvesse amanhã. O irônico é que agora, que finalmente o amanhã esta ameaçado, decidimos repensar esta estratégia genial. Depois de 100 mil anos como caçadores coletores, 12 mil como agricultores sedentários e 250 anos como sociedade industrializada chegamos ao cerne do desafio muito mais do que ambiental que se materializa a nossa frente: não há mais espaço para tanta gente da forma como vivemos e por este motivo o Planeta vem sofrendo mudanças drásticas numa velocidade nunca antes vista.

Após uma luta de aproximadamente 15 anos que se iniciou na Conferencia Eco-92 no Rio de Janeiro, chegamos finalmente ao momento em que este problema é reconhecido e tido como grave por todos (ou pela grande maioria). Já é uma vitória mas demorou demais e, como disse, estamos sem tempo. Na verdade este é o maior desafio global da história da humanidade, temos que pela primeira vez tomar decisões individuais pensando globalmente e num longo horizonte de tempo, mais uma vez o maldito espaço-tempo!

COP-15Chegamos então no ano de 2009 com um cenário propicio para a implementação das mudanças que precisamos. A sociedade cientifica divulgou números precisos e inquietantes, o terceiro setor mobiliza a sociedade, o tema está na agenda do Obama e já é discutido até mesmo em mesa de bar. Parece-me que pela primeira vez temos uma combinação poderosa: consenso e vontade política. Se no Rio em 92 traçamos as metas e em Kyoto-97 implementamos um “projeto-piloto”, Copenhagen-09 pode muito bem ficar para a história como sinônimo de ação.

Portanto, estamos passando por um momento importantíssimo no movimento ambientalista mundial. Espero que tenhamos neste século uma inversão dos papéis no filme do século XX, com as questões socioambientais  como prioridade e a economia como coadjuvante. A mudança que o atual desafio pede é profunda e, se o cerne do problema é físico, a solução está na mudança de comportamento de cada um e passa até mesmo por questões filosóficas. A Terra é redonda como Galileu nos mostrou, porém tem fim como os grandes navegadores temiam.

 

 

por Mario Monzoni

Acordei às 5h da manhã e vesti roupa para uma caminhada no campus. Já era dia em Shanghai. Além de ser o mais exótico, era, de longe, o mais jovem caminhando pelo campus. Impressionante a quantidade de pessoas idosas caminhando, fazendo tai-chi, ou jogando badminton (acho que é assim que se escreve). Muito legal ver essas pessoas que, sem brincadeira, devem ter mais de 80 anos na média, com essa disposição. Encantou-me um senhor, que deve ter por volta de 100 anos, fazendo tai-chi, uma verdadeira estátua viva em concentração profunda, que fez um movimento máximo de 20 cm com os braços nos 20 minutos que levou para eu dar uma volta no campus e encontrá-lo de novo. Passamos a manhã do domingo fazendo uma visita organizada pelo campus. Almoço e preparação para o translado rumo à cerimônia de abertura do Programa.

 

por Mario Monzoni

Estou aqui representando a FGV-EAESP, que foi escolhida, ao lado de outras nove universidades brasileiras, para participar de programa de mobilidade internacional de estudantes e professores, chamado Programa Top China Santander Universidades, patrocinado pelo Banco Santander. Além da FGV, participam: a USP (ESALQ), Unicamp, Unesp, UNB, Unisol, Mackenzie, UFAL, Anhembi Morumbi e UNIP. São 11 professores, incluindo a Reitora da USP, Profa. Dra. Suely Vilela, 40 alunos e uma representante do Santander, totalizando uma delegação de 52 pessoas. Da FGV, vieram os alunos Allan Grabarz, Maria Raquel Costa e Anna Laura Pancinni. Aqui, nos juntaremos a professores chineses, outros acadêmicos estrangeiros e um grupo de 32 estudantes chineses para um curso de três semanas sobre meio ambiente, mudanças climáticas e ciências da vida.

Campus da SJTU em Shangai

Campus da SJTU em Shangai

A VIAGEM

Viajar para a China será sempre inesquecível. Primeiro porque você fica 25 horas dentro do avião, 4 em aeroporto de conexão e chega com 11 horas de fuso horário. Ou seja, na viagem de ida, você pula um dia na sua vida. Dessa vez, a viagem ficou ainda mais especial com a parada em Dubai, Emirados Árabes Unidos. Se vocês passarem uma linha reta entre São Paulo e Shanghai, Dubai fica em cima dessa reta, na saída da península arábica. A cidade é conhecida pelo enorme investimento em turismo, como forma de criar uma economia não dependente do petróleo. Para se ter idéia, eles criaram praias artificiais, em formato de palmeira, para abrigar condomínios de luxo. Eles também estào investindo muito para ser a capital financeira do mundo árabe e o hub logístico entre o ocidente e o oriente. Depois de 15 horas de vôo, pela Emirates, chegamos em Dubai, para uma conexão de 4 horas. O aeroporto, de 300 portões de embarque e uma área de free shop que demora 20 minutos para percorrer nos dá uma dica do que será Dubai depois do petróleo. E certamente, não será para nós! De qualquer forma, o aeroporto de Dubai já nos oferece uma ótima amostragem de fauna humana de transição para o nos espera do outro lado do mundo.

A CHEGADA

Achei que só brasileiro tinha pressa para levantar do avião: antes mesmo do avião parar para estacionar, todos os chineses da minha frente levantaram desesperadíssimos para sair do avião. Tira mala para cá, empurra para lá, uma confusão… mas, o que eles não esperavam era o auto-falante avisar que todos precisavam voltar aos seus lugares, pois a autoridade sanitária do país iria entrar no avião para “fazer testes amostrais” em passageiros para ver a febre suína também tinha viajado com a gente. E voltam as malas pro maleiro, todos sentados de novo, esperando algum cidadão chinês de branco com termômetro na mão. Não sei se eu estava muito no fundo do avião ou o N amostral deles é muito baixo, mas só sei que em 3 minutos liberaram todos para o desembarque. O espanhol do Santander que nos recebeu disse que se encontram alguém com febre, contam 5 fileiras para frente e 5 para trás e colocam essa turma de quarentena.

SHANGHAI, 37 GRAUS

Depois de quase um quilometro de esteiras, mais autoridades sanitárias, imigração e malas, acabei sendo o primeiro a aparecer na frente dos chineses que nos esperavam atrás de uma placa do Programa. Depois de quase uma hora, conseguimos juntar os 52 pedaços de brasileiros ardendo por um banho e uma cama, principalmente depois de receberem o bafo de 37 graus que nos esperavam do outro lado da porta da rua do aeroporto. O aeroporto é distante da cidade e a viagem ao centro já nos dá uma pista de parte da China: dezenas de gruas no horizonte, muita obra viária e na construção civil. A quantidade de vias elevadas é impressionante. Confesso que, apesar de paulistano, fiquei assustado com a volúpia do investimento em construção, em Shanghai. Shanghai assusta São Paulo. Não que isso seja bom! O campus, aliás, o primeiro e histórico campus da SJTU, fica no centro da cidade. Fomos alojados no Faculty Club do campus. Muito bem alojados, btw. Os professores estão em apartamentos singles na parte do prédio separada para “foreing experts”, enquanto os alunos estão em apartamentos duplos. Não sei se isso é uma mensagem a se levar apenas por esse fato, mas, aparentemente, professores são valorizados na China. Não deu muito tempo para relaxar, pois nosso primeiro jantar chinês estava servido. Uma delícia: mesa redonda, daquelas que tem um monte de pratos que rodam num círculo no meio da mesa. Sempre quis ter uma dessas na minha casa. Garfos e facas foram solicitados por alguns. Os jovens ainda tiveram energia para sair para as ruas de Shanghai depois da janta. Eu fui dormir.

 

Acompanhei o Seminário Febraban de Finanças Sustentáveis em 30/6 mas como estive fora uma semana, logo em seguida, insiro agora um post a respeito.

De modo geral, ficou claro durante o seminário que as finanças sustentáveis representam um tema relativamente novo não só para as instituições financeiras como também para o poder público e para a sociedade em geral. Um dos norteadores dessa questão são as mudanças climáticas, que estão na pauta das discussões e cada vez mais recorrentes na imprensa. Participação e responsabilidade socioambiental, tanto por parte do poder público como dos setores privado e produtivo, são fundamentais para se mudar o quadro de crise ambiental que predomina hoje. E o setor financeiro, que é o “motor” do desenvolvimento na sociedade capitalista, deve ser um propulsor de ideias e iniciativas, para que “floresça” a consciência do desenvolvimento sustentável.

Confira abaixo um relato do primeiro painel:

Políticas de Crédito como Indutoras do Desenvolvimento Sustentável

Debate do primeiro painel

 

Alessandro Pelossof

 

fundobrasil_mosaicoEsse é o nome da campanha lançada pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos. Ana Valéria Araújo, coordenadora da instituição, escreveu para nós chamando atenção para a iniciativa:

“Esta é a campanha que o Fundo Brasil está lançando em revista de circulação nacional e, a partir de agora, também via internet.  A campanha está também na primeira página de nosso site.  A idéia é tentar engajar o cidadão comum, que pode querer apoiar o Fundo embora não tenha condições de adotar um projeto na íntegra ou mesmo de contribuir com grandes somas.  Trata-se da nossa primeira tentativa de captar recursos junto ao pequeno doador individual.”

http://www.fundodireitoshumanos.org.br/cam.jsp

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